Marcos 14.32-42 - O jardim das aflições


Introdução

           Qual o maior sofrimento que um ser humano pode ter? Quem mais sofreu na história da humanidade? Se fôssemos fazer listas de pessoa que vivenciaram grandes dores certamente que elas seriam extensas. Mas acredito que ninguém sofreu mais do que Jesus, os sofrimentos por ele passados são incompreensíveis ao ser humano pecador. O que ele vivenciou nunca foi e jamais poderia ser compartilhado por qualquer outro ser humano.  E esta não é uma afirmação exagerada. Falar sobre o sofrimento de Jesus é difícil, constrangedor e desafiador. Devemos nos aproximar deste tema com o máximo de reverência, gostaria então de fazer minhas as palavras de Spurgeon:

“Chegamos assim até a porta do jardim do Getsêmani, portanto, entremos; porém, primeiro, tiremos os sapatos, como Moises quando viu a sarça ardendo com fogo que não se consumia. Certamente podemos dizer com Jacó: ‘Que terrível é esse lugar!’ Temo diante da tarefa que tenho em minha frente, pois, como meu débil discurso poderia descrever essas agonias, para as quais os fortes clamores e as lágrimas seriam escassamente uma adequada expressão? Quero, juntamente com vocês, repassar os sofrimentos de nosso Redentor, porém, oh, que o Espírito de Deus nos impeça qualquer pensamento fora de lugar ou que nossa língua expresse uma só palavra que seja depreciativa para Ele, seja em Sua humanidade imaculada ou em sua gloriosa Deidade.” (Charles Spurgeon, A Agonia no Getsêmani -1º sermão especial de Páscoa)


Elucidação

           Jesus acabara de celebrar sua última ceia com seus discípulos, celebrando e interpretando a páscoa para eles. Estava a caminho do Monte das Oliveiras quando lhes diz que todos eles iriam abandoná-lo (v.27) embora eles insistissem que isso não iria acontecer (v.31).
           Agora em lugar chamado Getsêmani ocorre a última cena antes de ele ser preso, uma cena dramática e profundamente tocante. Nestes versículos podemos claramente perceber a seriedade dos nossos pecados e a santidade de Jesus.




I – O jardim das aflições, v. 32-34.

           GETSÊMANI – o significado no hebraico é ‘prensa/lagar de azeite’. Devido ao plantio de oliveiras (Monte das Oliveiras), esse era um lugar onde as azeitonas eram esmagadas para a obtenção do azeite. Interessante Jesus ter ido para esse lugar. Possivelmente era uma propriedade pertencente a um de seus discípulos. Podemos até fazer um paralelo ilustrativo, ali no lugar que era destinado a ser prensada as oliveiras estava começando o momento mais crucial de todos na história, Jesus começa a ser prensado pelas nossas iniquidades para que dele pudesse vir a nós o azeite, símbolo do Espírito Santo.
           Ele não estava se escondendo, todos sabiam onde poderiam encontrá-lo. Ele costumava ter lugares específicos para oração, momentos de intimidade com o Pai. OI motivo pelo qual ele estava no Getsêmani era oração. No texto paralelo de Lucas Jesus diz aos seus discípulos: "Orem para que vocês não caiam em tentação". Jesus nos ensina que a forma segura de enfrentar as tentações é por meio da oração, e os discípulos são incentivados a isso. A prioridade de Jesus no momento de mais angústia para sua alma foi a oração. Como nos diz o Bispo Ryle em seu comentário de Marcos: “Jamais encontraremos receita melhor do que essa, se quisermos suportar com paciência as aflições. A primeira pessoa a quem devemos ir, em nossas aflições, é Deus, A primeira queixa que devemos exprimir deve ser em forma de oração... O conselho de Tiago é sábio e de grande peso: ‘Está alguém entre vós sofrendo? Faça oração’ (Tg 5.13).” (J.C. Ryle, Meditações no Evangelho de Marcos, Fiel, pg 189).
           No v. 33 está uma afirmação contundente de como Jesus se encontrava interiormente naquele momento: começou a sentir-se toado de pavor e angústia.
           O pavor conforme traduzido na ARA é AFLITO --- Gk.  ἐκθαμβέομαι --- tem o sentido de atônito [espantado]. Usado para quando uma pessoa fica aterrorizada ao ver algo.
           ANGUSTIADO – Gk. ἀδημονέω – perturbado emocionalmente, a mente fica confusa causando um desconforto intenso no ser da pessoa.
           Já começava a ser cumprir a descrição que o Isaías escreveu em 53.3: “homem de dores”. As dores que Jesus já estava começando a sentir não eram as dores físicas pelas quais ele haveria, por mais terríveis que fossem, mas uma dor mais terrível, as consequências dos nossos pecados. A nossa iniquidade sobre ele. Estava sobre Jesus o pecado de cada escolhido para ser redimido por ele. Cada pecado seu seria devidamente castigado na cruz, e a visão dessa realidade, da separação do Pai pesava sobre ele de uma forma terrível naquele momento.
            Jesus diz que está PROFUNDAMENTE TRISTE – Gk. περίλυπος
           A ideia é de que ele está cercado de tristeza por todos os lados. Ele sabia qual era sua missão, sabia que haveria de sofrer, sabia que morreria levando sobre si nossos pecados, sabia que o Pai exerceria sua justiça sobre ele. Mas saber dessas coisas não minimiza a dor. Como diz Ryle:

“Não foi o temor dos sofrimentos físicos da morte que arrancou de Seus lábios aquelas expressões. Foi o senso da enorme carga da culpa humana a qual, naquele momento, começava a exercer pressão sobre Ele de uma maneira peculiar. Foi o senso de um indizível peso, o peso de nossos pecados e transgressões que, naquela ocasião, estava sendo lançada sobre Ele de maneira toda especial. Ele estava sendo feito ‘maldição em nosso lugar’. Ele começava a levar sobre Si as nossas tristezas e as nossas dores, de acordo com a aliança que Ele viera cumprir nesse mundo. Aquele que não conheceu pecado estava sendo feito ‘pecado por nós’ (II Co 5:21)... Essas foram as razões para a sua profunda tristeza.” (J.C. Ryle, Meditações no Evangelho de Marcos, Fiel, pg 188).

           Tudo isso estava consumindo-o profundamente. O sofrimento psíquico foi tão intenso que o texto de Lc 22:43-44 afirma que: “Apareceu-lhe então um anjo do céu que o fortalecia. Estando angustiado, ele orou ainda mais intensamente; e o seu suor era como gotas de sangue que caíam no chão”.
           Mas ele ora ao Pai. E é maravilhoso neste momento observarmos o conteúdo da oração de Jesus.


II – A oração de Jesus. V. 35-36.

           Jesus havia se afastado dos demais com seus três discípulos mais achegados. Eram necessários três testemunhas do que ocorreria ali. Mas ele afastou-se mais ainda desses três para estar a sós com o Pai. PROSTROU-SE -- Gk. πίπτω – cair. O peso sobre Jesus é tanto que Ele cai no chão e se prostra diante do Pai. Era o peso do meu e do seu pecado. A sua oração neste momento tão singular era quanto a possibilidade de ser passado dele aquele cálice. Cálice é símbolo da ira divina. Em Isaías 51.17 diz: “Desperta, desperta, levanta-te Jerusalém que da mão do Senhor bebeste o cálice da sua ira, o cálice de atordoamento, e o esgotaste”. Também é referência ao destino de uma pessoa conforme o Salmo 16.5: “O Senhor é a porção da minha herança e o meu cálice...”.
            E ele se refere ao Senhor como Aba. “O termo expressa uma intimidade respeitosa de um filho para com um pai, numa família patriarcal.” (R.T. Frace, TNIGTC –The Gospel of Mark, Eerdmans, pg 584). E somente Jesus utilizava este termo em oração à Deus.
           Ao pedir ao Pai que passasse dele esse cálice não está demonstrando fraqueza. Isso não é fraqueza! Não está dividido em seus propósitos. Não é medo da morte. Isso se chama ódio ao pecado, é plena consciência de sua santidade e de nossos pecados estariam sobre ele. não há como compreendermos isso plenamente, somos pecadores, nossa contaminada pelo pecado não consegue alcançar a intensidade desse tipo de sofrimento.
           NÃO SEJA O QUE EU QUERO, MAS SIM O QUE TU QUERES. Mas que maravilha essa declaração do nosso Senhor. Submeteu-se de forma maravilhosa à vontade do Pai. É o servo sofredor vivendo e ensinando pelo exemplo a vida de oração que ensinou em teoria aos discípulos (Mt 6.10).
           Que possamos aprender de fato que a vontade do Senhor para nós é sempre a melhor alternativa. Que nossas decisões, seja na escolha de um emprego, de um curso, de uma pessoa para o casamento, da igreja na qual congregar e tudo o mais possam estar submissas à vontade do Senhor. Lembremos que aquilo que nós queremos para nós nem sempre está coadunando com o que o Senhor quer: “Porque os meus pensamentos não são os vossos pensamentos, nem os vossos caminhos, os meus caminhos, diz o SENHOR, porque, assim como os céus estão mais altos do que a terra, assim são os meus caminhos mais altos do que os vossos caminhos, e os meus pensamentos mais altos do que os vossos pensamentos”.
           Confiemos, portanto, no Senhor, que Ele sempre tem o melhor para nós, ainda que às vezes esse melhor não é fácil de se pôr em prática. Ademais: “O Deus que pode mover montanhas nem sempre moverá o cálice.” (S.E. Dowd, Prayer).


III – O sono profundo X a vigilância perfeita, v, 37-40.

           Jesus voltou para ver os três discípulos que tinham acompanhado ele até a proximidade onde estava orando. Há de ser observado aqui como o Senhor se preocupa com eles. Mesmo no momento mais difícil de sua vida ele cuida de seus discípulos. No entanto, encontra-os dormindo. Sem dúvida estavam exaustos, haviam se dedicado durante o dia na preparação da Ceia, estavam esgotados fisicamente, e cansados também psicologicamente, passaram por momentos tensos e já era madrugada da sexta-feira. No entanto Jesus havia dito para eles vigiarem, aquele momento era muito crucial, deveriam lutar contra o cansaço.
           ‘Dormir’ no contexto de Marcos engloba tanto o aspecto físico como espiritual. Metaforicamente é o mesmo que ceder à preguiça e ao pecado, ser indiferente para com a salvação. E na verdade há muitos na igreja que se encontram desse modo. Talvez você tenha chegado aqui nesta noite, mas não veio com o coração ardendo por estar na presença de Deus. Talvez você até seja ativo no serviço do reino, mas já trabalha sem paixão, sem vigor, sem verdadeiro amor para com o que está fazendo. Talvez você esteja aqui, mas seu coração está distante. A esse o Senhor diz: ACORDA: “Portanto, não durmamos como os demais, mas estejamos atentos e sejamos sóbrios, pois os que dormem, dormem de noite, e os que se embriagam, embriagam-se de noite. Nós, porém, que somos do dia, sejamos sóbrios, vestindo a couraça da fé e do amor e o capacete da esperança da salvação” (1 Ts 5.6).
           Aqueles que estão acordados, pela graça do Senhor estão desse modo. Que você esteja sempre em oração para permanecer assim. Esteja sempre vigilante.
           Vigiai e orai, para que não entrei em tentação.
           Há momentos em nossas vidas que são exigidos de nós muito mais do que normalmente costumamos fazer. Há tempos que exigem vigilância mais radical, esforço heroico em meio às aflições.
           Jesus lhe adverte quanto a necessidade de vigiar e orar para que não entre me em tentação. Sem oração e vigilância não apenas entramos na tentação, como também caímos ao estarmos nela.
           Que possamos anular em nós as desculpas esfarrapadas para não buscar mais ao Senhor. A verdade é que gatamos tanto tempo com tantas coisas supérfluas ao ponto de nossa vida devocional muitas vezes se tornar paupérrima. Passamos maior tempo na frente da TV, do computador, desperdiçando nosso tempo em coisas fúteis do que em oração ao Senhor. Outros, se dedicam à oração e esquecem que a vida cristã deve ser de vigilância constante. Bem-aventurados são aqueles que conseguem unir esses dois polos sabiamente.


IV – O “basta” de Jesus, v. 41-42.

           Ao voltar pela terceira vez até onde estavam os discípulos mais uma vez os encontra dormindo. Mas desta vez ele diz: “basta”!
1 – Esse ‘basta’ corta todas as chances dos discípulos, pois acabou para eles. Três chances foram dadas a eles e em todas eles fracassaram. Basta!
Depois que Jesus foi preso e morto na cruz encontramos os discípulos desanimados, querendo voltar ao seu cotidiano de pescadores. Se tivesse sido mais vigilantes a reação deles haveria sido outra.
2 – Esse ‘basta’ destrói a última tentação de satanás. Acabou a pior de todas as tentações. O Filho Amado aceita qual é a vontade do Pai (Is 53:10) e toma em Suas mão o cálice da ira.
           Satanás não queria que Jesus fosse para cruz, pois ele sabia que a cruz seria o seu fim. Ele queria que Jesus se rebelasse e não cumprisse a vontade de Deus (Mt 4). E aqui no Getsêmani, Jesus recebeu o último grande ataque de satanás – Jesus foi tentado a rejeitar o cálice. O ‘basta’ fala do fim da angústia interior e o fim da batalha com satanás. ‘Chega!’
           Chegou a hora. O grande momento havia chegado, o momento há muito profetizado. O momento que ele sabia que haveria de enfrentar. O momento no qual esmagaria a cabeça da Serpente. O momento que pagaria o grande preço. O momento em redimiria a tua vida.
           No v. 42 Jesus diz algo para eles do qual podemos tirar lima lição maravilhosa diante de tudo que enfrentamos na vida. “Levantai-vos, vamos!” Hoje o Senhor te chama, ‘Levanta-te e vamos!’. Chega de melancolia, chega de se achar a vítima, chega de ficar dormindo por causa das tristezas – o Senhor dos senhores está dizendo, ‘Levanta-te e vamos! Vamos encarar nossas batalhas!’.
           Gosto muito da forma como John MacArthur comenta esse trecho:
“Assim, o nosso Senhor vai encarar o inimigo, triunfando sobre a tentação, através da oração. E eles vão enfrentar o inimigo e serão derrotados por causa da falta de oração. Nosso Senhor conquistou a vitória, derrotou o príncipe do inferno. Está coberto de suor com sangue em Sua bendita face e suas roupas encharcadas, mas Ele é sangrento e inflexível. Ele está pronto para enfrentar o inimigo. Ele vai enfrentar o traidor. Ele receberá seu beijo. Ele enfrentará os líderes judeus. Ele vai enfrentar os romanos. Ele irá para a cruz e Ele esmagará a cabeça da serpente. Ele será feito pecado por nós para que nos tornássemos justiça de Deus nele, e Ele triunfará sobre a morte e Ele destruirá a sepultura para ser exaltado a direita do Pai como Rei dos reis e Senhor dos senhores para sempre.” (John MacArthur)


Aplicação

1. Quão terrível é o pecado, e mesmo assim muitos de nós gostamos de cultivar certos pecados e os ter como animais de estimação. Que mudemos nossa postura, pois nunca é tarde, a graça do Senhor nos está disponível.

2. Que maravilha é sabermos que nossa salvação não está dependendo de nossa frágil capacidade de nos mantermos fiéis. O Grande Guerreiro venceu por nós, e n’Ele nos tornamos também vencedores! Aleluia!


Conclusão

Isaías 53.10, 11: “Todavia, ao SENHOR agradou moê-lo, fazendo-o enfermar; quando a sua alma se puser por expiação do pecado, verá a sua posteridade, prolongará os seus dias; e o bom prazer do SENHOR prosperará na sua mão. Ele verá o fruto do trabalho da sua alma, e ficará satisfeito; com o seu conhecimento o meu servo, o justo, justificará a muitos; porque as iniquidades deles levará sobre si”.


           Você meu irmão(ã) é fruto do penoso trabalho das mãos de Jesus Cristo!

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