Gênesis 4 - Uma história de Caim e Abel


Introdução

           Alguém me perguntou certa vez: Por que sofremos? Quem fazia a pergunta era alguém bem estruturado financeiramente, que aparentemente tinha uma vida familiar tranquila. Esta pessoa à primeira vista não era tomada por nenhum grande sofrimento. Mas como sempre há muito mais na pessoa do que podemos perceber, muitos conflitos interiores, muitas dúvidas, muitas frustrações, e como no caso dela, uma inquietação existencial, uma alma que clama por completude, que clama por Deus. Diante daquela pergunta a única resposta que pude dar foi: sofremos porque somos pecadores.
Elucidação
           No capítulo três de Gênesis é relatado a entrada do pecado no mundo. A queda do homem é mostrada de forma magistral embora evidentemente em uma linguagem não filosófica, mas prática. A Queda do homem denota a ruptura do homem em relação à Deus. O homem sai de seu estado de inocência, passa a conhecer de modo prático o pecado, devido a sua desobediência é expulso do Paraíso. Deus declarara palavras de juízo para a serpente (o Maligno), para o homem e para a mulher. Agora no cap. 4 vemos como a vida prossegue por meio de um relato extremamente importante que é a história de Caim e Abel, e que revela o desenrolar de forma prática da presença do pecado na vida humana. Queremos então a partir desse texto refletirmos um pouco sobre as consequências imediatas da entrada do pecado no mundo.




I – Com a entrada do pecado ocorre a morte espiritual. V.1-7.

E conheceu Adão a Eva, sua mulher, e ela concebeu e deu à luz a Caim, e disse: Alcancei do SENHOR um homem.
E deu à luz mais a seu irmão Abel; e Abel foi pastor de ovelhas, e Caim foi lavrador da terra.
E aconteceu ao cabo de dias que Caim trouxe do fruto da terra uma oferta ao Senhor.
E Abel também trouxe dos primogênitos das suas ovelhas, e da sua gordura; e atentou o Senhor para Abel e para a sua oferta.
Mas para Caim e para a sua oferta não atentou. E irou-se Caim fortemente, e descaiu-lhe o semblante.
E o Senhor disse a Caim: Por que te iraste? E por que descaiu o teu semblante?
Se bem fizeres, não é certo que serás aceito? E se não fizeres bem, o pecado jaz à porta, e sobre ti será o seu desejo, mas sobre ele deves dominar.

           Morte espiritual é incapacidade humana de ter comunhão com Deus, isto é resultado da separação do homem com Deus ocorrida na Queda em Adão, portanto, o homem não pode agradar à Deus de modo natural, pois depois da Queda tornou-se depravado espiritualmente, ou seja, tudo o que ele faz está impregnado pelo pecado e não há como aproximar-se do Senhor a não ser pela graça divina. E além disso tem toda capacidade para os atos mais vis em sua própria natureza.
           Na história de Caim é vista de modo prático a morte espiritual pela:

a) A adoração de Caim que o SENHOR não aceita.
           Algumas pessoas imaginam que o Senhor não aceitou a oferta de Caim por se tratar de uma oferta composta por frutas, legumes, verduras, etc; enquanto a oferta de Abel era resultado de sacrifício e que então foi aceita pelo Senhor porque prefigurava o sacrifício de Jesus. Acredito que essa interpretação deixa a desejar, pois para o entendimento de ambos não havia uma clara compreensão de como haveria de ser cumprida a salvação prometida pelo Senhor: que o descendente da mulher ferirá a cabeça da serpente (Gn 3.15).  Desse modo o mais razoável é acredirtar que o sacrifício de Caim foi recusado porque ele não ofertou o melhor que poderia ao Senhor, enquanto Abel ofertou as primícias do seu rebanho (v.4), ademais, o estado espiritual de ambos deve ser considerado; Abel tinha o coração voltado para o Senhor, enquanto Caim era um homem perverso. No Novo Testamento é esclarecido esse fato: " Porque esta é a mensagem que ouvistes desde o princípio: que nos amemos uns aos outros. Não como Caim, que era do maligno, e matou a seu irmão. E por que causa o matou? Porque as suas obras eram más e as de seu irmão justas" (1 Jo 3.11, 12).

b) A malignidade no coração de Caim.
           É justamente o fato de Caim já ter um coração maligno, já ter obras que desagradavam ao Senhor que faz com que sua adoração não seja aceita.
           Em Hebreus também se enfatiza isso mostrando que o sacrifício de Abel foi aceito por ter sido realizado por meio da fé e pelo fato de que ele era justo, isto é, vivia em retidão de vida: "Pela fé Abel ofereceu a Deus maior sacrifício do que Caim, pelo qual alcançou testemunho de que era justo, dando Deus testemunho dos seus dons, e por ela, depois de morto, ainda fala". (Hebreus 11:4).
c) A luta constante contra pecado a ser travado no coração de Caim.
           O texto bíblico diz que o pecado estaria sempre presente em forma de tentação, mas a ele cumpre o dever de dominar, de resistir à tentação, (v.6 e 7). Ele teria de lutar contra seus sentimentos conflituosos. Por um lado estava o dever de um relacionamento amistoso com seu irmão e de agradar Deus na prática do bem; por outro, estava seu desejo de se sobrepujar ao seu irmão sendo o preferido de Deus. 
           Igualmente todos nós, embora que espritualmente sejamos mais Abel que Caim, pois os méritos de Cristo estão em nós, de igual modo a influência do Espírito Santo; ainda assim também o pecado está à nossa porta e a nós cumpre dominá-lo. Que a nossa adoração ao Senhor possa ser melhor possível em nós, que sejam as primícias do nosso ser. E que tudo isso esteja em consonância com um procedimento justo e santo no nosso cotidiano. Que tenhamos obras santas e tudo façamos para a glória de Deus, pois somente assim estaremos em condições de oferecer um culto que de fato lhe é aceitável, pois estará em concordância com toda a nossa vida.
           Lembremos que Jesus é bastante claro quanto a esse respeito: "Portanto, se trouxeres a tua oferta ao altar, e aí te lembrares de que teu irmão tem alguma coisa contra ti, deixa ali diante do altar a tua oferta, e vai reconciliar-te primeiro com teu irmão e, depois, vem e apresenta a tua oferta". (Mateus 5:23-24).
           O texto de Gênesis 4 prossegue relatando por meio da experiência de Caim que o pecado haveria de estar presente de modo crescendo na existência humana.


II – O desenvolvimento da malignidade humana, v. 8-12; 16-24.

           No v. 8 é relatado um fratricídio. Uma nova forma de expressão do pecado no gênero humano naquela época. Daí por diante o pecado veio a estar presente em muitas novas formas que a natureza humana corrompida assimilaria. Em nossos dias podemos citar algumas que correspondem ao nosso contexto histórico: manipulação genética realizada de forma contestável eticamente, a poluição ambiental, o uso de drogas e as desigualdades sociais que fomentam o enriquecimento de poucos e empobrecimento de muitos. 
           A Palavra de Deus nos diz que os dias atuais são nomeados como "os últimos dias", e Paulo escreve à Timóteo afirmanado que nos últimos dias os homens seriam mais amigos dos prazeres do que amigos de Deus (2 Tm 3.4). Portanto, em 2 Tm 3 é mostrado o crscimento da malignidade humana em nossa contemporaneidade. A realidade de nossa sociedade é de pecados dos mais diversos: crimes hediondos, pedofilia, abuso sexual, pornografia, homossexualismo, imoralidade, infidelidade, corrupção política descarada, etc. Ficamos estarrecidos com os noticiários ao vermos o nível de maldade das pessoas. E a verdade é que não dá para sermos otimistas, as coisas não irão melhorar. O homem não irá melhorar sua natureza maligna com o progresso tecnológico e científico como preconizava o Iluminismo nos final do século XVII e século XVIII.
           Mas como é maravilhoso sabermos que o Senhor não desamparou sua criação, mesmo em face a tanta malignidade. No relato de Gênesis 4 vemos presente a misericórdia e graça divina.


III – Mesmo diante a malignidade de Caim Deus manifesta sua Misericórdia e Graça, v. 13-15, 25 e 26.

           A situação de Caim demonstrava como a história humana se desenrolaria em corrupção. A violência já era uma realidade, mas o Deus de justiça manifestou-se a respeito, prenunciou o devido castigo à Caim (v. 11 e 12). No entato, Caim teme por sua vida, percebe seu crime e sabe que poderia suscitar sentimentos de vingança em outros. Aqui surge a dúvida quanto a esses que poderiam matar Caim e quanto à mulher com quem ele casou. Ora, entendamos que a Bíblia nos traz um resumo dos fatos a fim de revelar acerca da história humana aquilo que era relevante no que diz respeito ao relacionamento do homem com Deus e com o próximo. A dificuldade deve desvanecer se acreditarmos que depois de Caim e Abel, e antes de Set Adão e Eva tiveram muitos outros filhos, mas a Bíblia fala de Set de modo explicativo acerca das esperanças que estavam no coração de Eva de que seria aquele filho a "esmagar a cabeça da serpente". Portanto, Caim casou provavelmente com uma irmã sua ou sobrinha, o que naquele contexto não pderia estar sugeito à classificação que entendemos como incesto.
           Caim teve medo e pôde ser abençoado com a misericórdia divina. Misericórdia é quando o Senhor deixa de exercer Sua justiça mesmo o pecador merecendo-a. Caim realmente merecia que alguém o matasse assim como ele matou Abel. Mas desde cêdo o Senhor mostra que não é esse o sentimento que deve estar no coração humano, tal ato de vingança seria maligno assim como foi o praticado pelo próprio Caim. Não há como saber que marca foi essa que o Senhor colocou em Caim, possivelmente uma mancha em local visível, talvez no rosto, identificando-o como alguém intocável. Isso foi misericórdia de Deus.
           A graça do Senhor está revelada nos versículos 25 e 26 com o nascimento de Set, uma nova esperança para Eva, e que de Set nasceu Enos por meio de quem em meio a corrupção reinante houve a contrapartida de um grupo que cultuava ao Senhor.
           Pensemos quão maravilhosamente a graça  e misericórdia divina estão presentes em nosso cotidiano. Será que às vezes também não agimos com perversidade assim como Caim agiu. Lembremos de nosso estado antes de Cristo, quanto vezes em nossas maldades merecemos por parte de outros atitudes de vinganças. Ou mesmo como cristãos talvez já tenhamos agindo de modo totalmente reprovável pelo Senhor, pois embora estejamos em Cristo se não estivermos orando e vigiando se manifestará nossa natureza maligna. Mesmo em tais circunstâncias o Senhor não permitiu que mal maior nos sobreviesse, isto foi misericórdia de sua parte.
          E em contrapartida aos nossos pecados o Senhor tem nos abençoado, primeiramente com toda sorte de bênçãos espirituais, e também com as bênçãos temporárias e terrrenas. É a graça divina da qual usufruímos diariamente.
           Desse modo meus irmãos, diante desse texto fica para nós as seguintes lições:


Aplicação

1. Não der ao Senhor o que tem sido sobra em sua vida, dê-lhe a primícias, pois Ele é digno. As primícias do seu tempo, de suas posses, de seus talentos, de sua vida enfim. Portanto, se você vai ofertar as primícias de sua vida, então as demais ofertas também estarão sendo aceitas, pois estarão em consonância com uma vida sobre o altar.

2. Ore por esse mundo vil. Sabemos que o propósito divino na história se cumprirá, no entanto, o nosso dever é interceder, é um ato de amor. Ao Senhor pertence o atender ou não. 

3. Ao vermos o exemplo de Abel podemos pensar que ele foi excessivamente ingênuo sendo atraído por Caim, mas isso se explica pelo seu contexto, afinal, como ele poderia saber o que se passava no coração de seu irmão? Sei que às vezes se você agir de forma correta alguém pode ter chamar de tolo, de ingênuo. É difícil ser honesto em meio a tanta corrupção, ser pacífico em um mundo tão violento, ser amável em um mundo onde encontramos tanto desamor, mas viva isso, viva essa glória do evangelho.


Conclusão

           Neste mundo pecador que vivemos, no qual está presente toda destruição causada pelo pecado original de Adão: a morte espiritual, o sofrimento, a vileza humana, as relações conflituosas etc.; que possamos de um modo existencial, em cada oportunidade que o Senhor nos dá sermos menos Caim e mais Abel.


Soli Deo Gloria!

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