Êxodo 20.8-11 - O Quarto Mandamento ou o testemunho do senhorio de Deus sobre o tempo

Introdução

É interessante como esse é um dos mais controversos mandamentos. Ninguém discute a relevância do “não matarás”, “não mentirás” ou de alguns outros mandamentos. Contudo, se tratando do quarto mandamento as opiniões se dividem. A divisão de opinião gera alguns extremos. Há aqueles que assumem uma postura bastante legalista quanto ao quarto mandamento, ou seja, obedecem estritamente o dia de sábado como dia santo. Há outros que entendem que não é uma exigência para aqueles que estão na nova dispensação em Cristo, logo, não levarão a sério a guarda do sétimo dia.
Qual a interpretação correta desse mandamento para nós cristãos? Qual a importância que você tem dado a esse mandamento? Reflitamos um pouco sobre esse assunto.


I – O que exige o Mandamento?

A palavra “sábado” é originada de expressão hebraica que tem o sentido de folgar, feriar, respirar, cessar, desistir, parar.
A ênfase no versículo 8 recai sobre a lembrança. O sábado deveria ser lembrado. Em Dt. 5.12 fala de guardar o sábado. Não se trata de uma mera lembrança, mas era um memorial que apontava para a obra de Criação. Em Gn 2 e 3 está escrito: “E havendo Deus terminado no dia sétimo a sua obra, que fizera, descansou nesse dia de toda a sua obra que tinha feito. E abençoou Deus o dia sétimo e o santificou; porque nele descasou de toda a obra que, como Criador, fizera”.
Conforme Êx. 20 e 23.12 (cf. Lv 23.3), o descanso sabático é realçado em sua importância para com os animais, os servos, os estrangeiros. Seria dia de descanso para todos, não apenas para o cidadão judeu.
Em Êxodo16 vemos o relato da providência divina enviando o maná no deserto para o povo. Deveria recolher todos os dias, no sétimo dia, porém, não o fariam, pois era o dia do repouso (Êx 16.4, 15-21; 22-44). Percebe-se que o princípio da confiança na providência divina está presente na observância deste mandamento. Inclusive em Deuteronômio 5.11-15 quando repete as palavras de Êxodo 20, há um acréscimo: o descanso relaciona-se ao alívio da escravidão sob os egípcios (Dt 5.15), ou seja, à lembrança da providência divina. Deveriam então ter essa lembrança com corações gratos ao Senhor pelo livramento.
Em Êx 31.12-18 é claramente apresentado como um sinal da relação de Deus com o seu povo.
Em Lv. 23.3 o sábado torna-se dia oficial de culto em Israel.
Há muitos textos que trazem algum detalhe sobre o Sabat no Antigo Testamento, como Is 58.13, 14 onde o profeta adverte quanto ao que deveriam deixar de fazer nesse dia e quanto ao que lhes era exigido pelo Senhor para que sobre eles houvesse bênçãos. Isto é, o profeta está convocando o povo a honrar ao Senhor, deleitar-se n’Ele. Assim, o Senhor é quem deve ser reverenciado, não o sábado em si.
Há um inegável rigor da parte do Senhor em sua exigência para o povo da Aliança na guarda do sábado. Tanto que a punição para o descumprimento era a pena capital. Há um exemplo em Números 15.32-36. Com isso o Senhor está mostrando ao seu povo que todos os seus mandamentos são sérios, e devem ser observados.
Infelizmente com o tempo a guarda do sábado tornou-se mero formalismo, ficou esquecida a prática da busca ao Senhor no dia santo, de modo a ser apenas um ato externo de religiosidade judaica.


II – O Sábado no Novo Testamento

Houve no ministério de Jesus um crescente conflito com os fariseus quanto a guarda do sábado. Eles acusavam Jesus de violar o sábado, e Jesus denunciava a hipocrisia deles e que eles haviam entendido a Lei de forma errada. No ensino de Jesus o homem não foi criado por causa do sábado, mas o sábado por causa do homem (Mt 12.8). O sábado também era dia de promover o bem, preservar a vida, e sim, ter o merecido descanso. E o valor intrínseco do sábado é o dedicar-se ao Senhor.
Jesus não estava se levantado contra a instituição do sábado em si, não falava contra o mandamento divino, mas contra os acréscimos dos rabinos a este mandamento. A tradição oral dos judeus a esse respeito, acumulada por séculos, encontrou forma escrito nos tratados Shabbath e Erubin, onde eles detalhavam como as pessoas deveria se portar no dia de sábado. Foram esses acréscimos que Jesus não aceitou praticar.
Jesus não revogou o quarto mandamento, seja por ação ou palavra, mas cumpriu e atualizou as promessas do A. T. (Mt 5.17-18; 2Co 1.20). Ele declara ser senhor do sábado (Mt 12.8). Quanto a questão do descanso ele afirmou que Deus trabalha todos os dias (Jo 5.16-18), não permitindo uma interpretação literal da ideia do descanso divino (Êx 31.17).
Ocorre no Novo Testamento e na tradição da igreja uma gradual mudança do dia de sábado para o domingo como dia de celebração oficial da igreja ao Senhor.

a) Jesus convida todos ao verdadeiro descanso, que não é em um dia, mas nele  (Mt 11.28- 30).

b) Jesus ressuscitou em um dia de domingo (Jo 20.1,19).

c) A prática dos irmãos primitivos era reunir-se aos domingos para a celebração da Santa Ceia (At 20.7).

d) Uma vez que desfrutamos de Cristo em nossas vidas o apóstolo Paulo diz que o cristão não pode ser julgado por causa de comidas, festas, sábados, ou seja, meros atos externos de religiosidade, pois os preceitos do A. T. eram sombras da comunhão que havia de vir (Cl 2.16,17).


III – O Sábado hoje para a igreja.

Nem legalismo, nem antinomismo.
Legalismo é um equívoco de que as pessoas imaginam agradar a Deus por meio da obras, desse modo, para a questão abordada, seria considerar um dia santo no sentido literal, sem observar seu conteúdo moral e de lição espiritual, e imaginar que meramente observá-lo seria agradável ao Senhor. Não é isso o que a Palavra nos ensina sobre o quarto mandamento. Ao invés de trazer paz o legalismo aprisiona a consciência da pessoa. O Adventismo do Sétimo Dia é um exemplo atual de doutrina herética quanto a guarda do sábado.
O antinomismo por sua vez é dizer que nada neste mandamento é útil a nós por ser do Antigo Testamento e sermos da Nova Aliança em Cristo Jesus. É outro equívoco, pois pela graça o cristão precisa se preocupar em obedecer o quarto mandamento.
O caminho para a obediência do quarto mandamento é a fé que atua pelo amor (Gl 5.6).


Conclusão

1. Quais têm sido suas prioridades aos domingos? Obedecer à lei do Senhor é importante ou algo pelo que se pode “passar por cima”? O que você pode fazer para organizar suas atividades de modo a ter o domingo dedicado a Deus?

2. Santificar o domingo não é santificar o dia em si, mas dentro do possível, em uma sociedade moderna como a nossa, na qual muitos precisamos trabalhar aos domingos, reservar tempo para adorar ao Senhor e também valorizar o momento do descanso como dádiva divina.

3. Santificar o domingo é consagrar a Deus as primícias de nosso tempo. Não significa viver ativismo desenfreado nesse dia, mas tê-lo como momento de ouvir a Palavra, de edificação.

4. Para a igreja enquanto comunidade local é bom lembrar que fidelidade não é quantidade, mas qualidade, ou seja, viver o domingo como Dia do Senhor não significa viver ativismo.


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