Apocalipse 13 - A marca da besta e a santidade da igreja


Introdução

1. A dificuldade em interpretar Apocalipse

           Sem dúvida o livro de Apocalipse é o de maior dificuldade interpretativa de toda a Bíblia. Parece até que as pessoas querem olhar para o texto interpretando-os imprimindo suas impressões no texto ao invés de permitir que ele lhes fale de modo exegético. A dificuldade de compreender apocalipse não está apenas no entendimento dos leigos, os próprios eruditos do novo testamento divergem bastante quanto a muitos pontos. Muita coisa então poderia ser colocada quanto a isto, no entanto, para resumir poderíamos dizer que sua interpretação de Apocalipse se dará muito possivelmente a partir da base que você tem do significado do que é ‘profecia’.
O escritor do Apocalipse baseia-se no conceito vétero-testamentário de “profecia” para definir sua atividade. Nesse sentido, profecia é:

Uma mensagem recebida diretamente de Deus. Essa era a principal característica dos verdadeiros profetas em relação aos falsos (Jr 23,18-22). Eles entravam no “conselho” do Senhor. Esse conselho é composto pela Trindade e os seres celestiais que estão na presença de Deus e pode ser visto nas cenas dos capítulos 4 e 5 do Apocalipse. É ali que João, como profeta, se encontra (4,1). Portanto, o profeta é, fundamentalmente o que recebe “de Deus” sua mensagem. Por isso, ela é importante e não pode ser alterada (22,18-19). Além de provir de Deus, a profecia nos tempos neotestamentários é centralizada em Jesus (19,10). O espírito, o centro da profecia é o “testemunho de Jesus”. Ela visa fornecer uma mensagem sobre Jesus Cristo, e não “satisfazer” nossa curiosidade quanto ao futuro.

Uma mensagem que aponta para a vinda final de Jesus Cristo. Ela segue aqui a perspectiva pela qual o Velho Testamento era interpretado: cristologicamente, isto é, vendo nele predições que apontavam para Jesus Cristo (Lc 24,44). O Apocalipse segue essa linha apresentando uma visão “cristológica” da história, afirmando que Jesus controla a história e indicando que os eventos relativos a sua segunda vinda “estão próximos” (1,3). Na realidade, para o Novo Testamento, desde que Jesus encarnou e ressuscitou, ele “já está chegando”. É por isso que o escritor pode falar do julgamento sobre Roma como algo muito próximo. Porém o livro não fala de acontecimentos “particulares”, mas de ações de Jesus que se darão como conseqüência de sua segunda vinda.

Uma mensagem que chama ao arrependimento. Essa é uma das principais características da profecia. Na realidade, ela é uma palavra que tem uma forte ênfase no “presente”, no comportamento do povo. Para criticar a prática pecaminosa, o profeta volta-se para o “passado” e encontra nele as orientações de Deus dadas no Pentateuco (quando o profeta vive nesse período), ou nas palavras de Jesus (quando o profeta é cristão). A partir daí faz advertências para que se abandone a prática do pecado, pois se não houver arrependimento, Deus irá punir tal comportamento no “futuro”. Portanto, a profecia fala do futuro como conseqüência da vida do povo no presente. É nesse contexto que o profeta fala às igrejas nos capítulos 2 e 3 chamando-as ao arrependimento e advertindo-as quanto ao futuro (2,5.16. 21-23; 3,3). (Estudos no livro de Apocalipse. Rev. João Cesário Leonel Ferreira).
           Com essa perspectiva de profecia o autor de Apocalipse busca então alertar com relação ao sofrimento que haveriam de passar buscando fortalecê-los, animá-los diante das perseguições, incentivando-os a uma vida santa para a glória de Deus.

2. O sensacionalismo das atuais teorias

           Recentemente tem havido uma nova onde de alarde com relação a chamada marca da besta. As teorias que se levantam assumem nova roupagem, mas não são novidades, no passado remoto muitos se alardaram de que a marca da besta estivesse representada de outros modos como um perigo iminente à igreja.

·        O código de barras. Pode parecer ridículo para nós hoje, mas já houve uma época que alguns cristãos que quiseram identificar o código de barras como sendo a marca da besta.
·        
Cartão VISA. 
           Há outros exemplos do passado que nem merecem ser mencionados. Atualmente há muitos que querem identificar a marca da besta com um chip a ser implanta na mão. Mas como começou tudo isso. Começou a ideia norte americana do Governo Obama de um aparelho dispositivo subcutâneo. 

Esse mecanismo [...] consiste em um transponder (um dispositivo de comunicação eletrônico) de rádio frequência para identificação do paciente e de informação em saúde. A finalidade desse dispositivo eletrônico que será implantado sob a pele das pessoas é a coleta de dados médicos em pacientes tais como reinvidincações de dados, levantamento do paciente, padronização de arquivos que permita a partilha e análise de dados de ambientes de dados diferentes facilitando o uso dos registros de saúde eletrônicos e quaisquer outros dados apropriados pelo secretário de saúde.  {...} Será então de fato um microchip implantado sob a pele e terá a finalidade de controlar o que é ou não permitido em cuidados médicos no território americano. 

           Contudo, vejamos o que a palavra de Deus nos diz nesse texto a respeito desse assunto, e a despeito de nossa criatividade para formular teorias devemos ficar com a interpretação correta a aceitar a autoridade das Escrituras a esse respeito.


I – o Significado da primeira besta, v. 1-10.

           A profecia relatada aqui por João está baseada nos texto de Daniel 7.1-7. Ele toma elementos daquela profecia e utiliza para se referir ao que estava acontecendo em sua época, e que de certo modo também serve para todas as épocas, inclusive para o futuro. Mas o que de fato ele diz não pode ser dissociado de Daniel 7.
           Cada um dos animais representam sucessivamente um império. O leão representa o império babilônico, o urso representa o império medo-persa, esse foi sucedido pelo império greco-macedônico, de Alexandre, o Grande, representado na visão pelo leopardo. O quarto e último império é representado por um animal diferente de todos os outros, parece não definido, e trata-se obviamente do império romano. João diz ver um único animal (v.1), uma besta que reuni as características de todos outros três mencionados por Daniel. Então as visões de Daniel tratam de impérios, governos humanos; e a mesma coisa trata a visão de João, um império ímpio por meio do qual poderia ser notável as características do anticristo, um poder que opõe ao Cristo e Sua igreja. Então, quando João faz referência à besta que emerge do mar estar a denunciar que a igreja estar sendo perseguida pelo poder constituído do Estado, está a denunciar o poder político, militar, econômico, a estrutura governamental como sendo instrumentalizada pelo dragão (o diabo) para perseguir a igreja do Senhor.
           Lembremos então que o líder desse grande sistema mundial, que é anticristão em sua essência independentemente ser é uma sociedade com governo totalitário como nos países comunistas ou com governo democrático estão influenciados pelo líder de seus corações, Satanás.
           A besta portanto, já veio e está em atuação a muito tempo e sempre estará até Cristo retornar. Não se trata então de uma profecia de algo ocorrerá no futuro.
Mas no versículo 3 há uma indicação de algo que ainda irá acontecer. Essa cabeça golpeada, ferida pode ser identificada como o Anticristo, aquele que será um tipo de governante a serviço do diabo e será vitorioso até que o Senhor volte e finalize seu poderio.
           No v. 7 diz que foi dado a essa besta o poder de pelejar sobre os santos e vencer.  Quando isso aconteceu? Naqueles momentos em que a igreja sofreu perseguição, alguns com bens confiscados, outros presos e torturados, muitos mortos nas arenas romanas como mártires.


II – A reação da igreja diante da primeira besta, v.10b.

           A mensagem profética que se encontra aqui é que devido a atuação da besta que emerge do mar, muitos sofrerão o espólio de seus bens, ficarão mais pobres do que de fato já eram, no entanto, são conclamados a permanecerem fieis em meio a tudo o que poderá ocorrer e que já começava  acontecer.
           Permanecendo em fidelidade eles vencerão a besta (Ap 15.2) que antes vencera-os (15.7); então cantarão o cântico da vitória (15.3-4).
Sendo a primeira besta um tipo de poder à uso do maligno, facilmente podemos concluir que a segunda é um outro tipo de poder.


III – O significado da segunda besta, v. 11-18.

           Como diz o versículo 11 a segunda besta parece cordeiro, mas falava como dragão. É indicado com isso que em sua aparência há semelhança de Deus, mas sua essência é maligna porque serve ao dragão. Fica fácil de perceber que aqui está o poder religioso. As religiões que prometem aproximar o homem de Deus, mas que na verdade comprometendo-os com o engano os afasta mais ainda do Senhor. Contudo, não são os falsos profetas externos à igreja do Senhor que mais deve nos preocupar, mas aquele que muitas vezes está no meio dos que proferem ser verdadeiros cristãos.
           Aqui é o alerta de João para que eles se acautelassem dos falsos profetas. Ele diz que essa besta chega a fazer sinais, até descer fogo do céu. Há aqui uma discussão se isso aconteceu literalmente ou se tratava de um tipo de truque realizado por sacerdotes pagãos daquela época que apregoavam o culto ao imperador romano. Independentemente da resposta que tenhamos não será difícil a nós percebermos que muitos desses supostos sinais de nossos dias nada tem a ver com o Senhor.
           Lembremos que os falsos profetas poderão falar de Jesus, falar algumas verdades até, mas a mentira, o engano, a malignidade da intenção de seus corações sempre estarão também presentes. Portanto, para identifica-los estejamos atentos à sua pregação, e rejeitemos veementemente ao encontrarmos heresia.
           Finalmente chegamos aos versículos 16 a 18. E qual a linguagem que João utiliza? Mais uma vez está baseado no Antigo Testamento. Observem Dt 6.4-8: “Ouve, ó Israel; o Senhor nosso Deus é o único Senhor. Amarás, pois, ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todas as tuas forças. E estas palavras, que hoje te ordeno, estarão no teu coração; e as ensinarás a teus filhos, e delas falarás sentado em tua casa e andando pelo caminho, ao deitar-te e ao levantar-te. Também as atarás por sinal na tua mão e te serão por frontais entre seus olhos”.

[...] quando ele fala da Lei de Deus na testa diante de nossos olhos, ele está falando figuradamente que devemos amar a Deus “de todo o teu entendimento”. (Mt 22.37) E quando Deus fala de sua Lei atada em nossa mão, ele está falando figuradamente do dever de amá-lo “de todas as tuas forças”. (Dt 6.5)
Esse é o pano de fundo para a visão da marca da besta. Os servos da besta não tem a Lei de Deus atada na testa (mente) ou na mão (força). Eles não prestam obediência a Deus e sim a besta. O objetivo do Apocalipse não era alertar sobre um chip que só viria séculos depois. Era alertar sobre o perigo de prestar obediência e culto aos imperadores de Roma. Era alertar sobre o perigo de substituir os mandamentos de Jesus Cristo pelos mandamentos de deuses pagãos. Quando João mandou seus destinatários não fossem marcados pela besta, isso realmente era uma possibilidade a eles. Não seria possível somente para nós mais de dois mil anos depois, mas era algo para aqueles que estavam sendo perseguidos e caçados por Roma. Aqueles que se recusavam a adorar Nero eram brutalmente perseguidos. Não podiam levar suas vidas normalmente. Não podiam comprar ou vender. Perdiam a casa, a família, os bens, a honra e até a própria vida.

           E quanto ao número da besta? 666 é realmente um número demoníaco? Acredito que às vezes as pessoas dão demasiada importância a isso, engenhosamente veem 666 em muitas coisas.
           João diz: “Aqui está a sabedoria, aquele que tem entendimento calcule o número da besta, pois é número de homem”. Ele diz isso porque estava fazendo uma denúncia e para evitar falar abertamente do imperador usa um código que era compreensível aos cristãos. Ele usa o que se chama de GEMATRIA, que aplicar a cada letra um número que lhe corresponde, ele então faz a soma de determinadas letras de uma palavra. Essa palavra pode ter sido NERO CÉZAR, que no grego é “Neron Kaisar”, transliterado para o hebraico, as letras que corresponde no hebraico somadas os números que elas representam é igual a 666. O mesmo é válido para “imperador Domiciano”, que reinava na época Apocalipse foi escrito e que era um perseguidor tão ferrenho do cristianismo quanto foi Nero.


IV – A reação da igreja diante da segunda besta.

           Lembremos que nós também somos marcados, marcados pelo Senhor. Nós temos nossos nomes escritos no Livro da Vida não temos a marca da besta (v.8), contudo precisamos provar isso, viver de acordo com essa verdade. Fronte, testa, conforme Dt 6.4-6 traz a ideia de intelecto, vontade, centro dos nossos desejos e intenções; e desse modo devemos viver: não nos conformando com esse século, mas nos transformando pela renovação da nossa mente (cf. Rm 12.2). E mãos, que aponta para trabalho, ações, para tudo aquilo que devemos e podemos fazer para expansão do reino de Deus. Então que tudo o que você pensa e faz esteja escravizado aos interesses do Senhor.


Conclusão


           Cuidado meus irmãos com sensacionalismo antibíblico, cuidado com interpretações sem rigor exegético, cuidado mensagens de muitos cristãos que até não mal intencionados, mas não estão entendo o que de fato as escrituras revelam. Se a marca da besta fosse apenas um chip não seria difícil de evitar. Devemos crer apenas o que a Palavra de Deus nos autoriza a crer. Não permita que uma desnecessária preocupação esse respeito tire o foco da marca de Cristo em você. O fim virá, o que há de ser será, apenas esteja em fidelidade ao Senhor e não se engane com bobagens.

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