Marcos 16.14-20


Introdução

           Finalmente chegamos ao término do Evangelho de Marcos. Desde 2012 que temos refletido neste evangelho. Este texto nos fala das últimas palavras do Senhor Jesus antes de sua ascensão aos céus. Aqui ele dá a ordem de anunciarem o evangelho, lhes fala de sua exigência para com os ouvintes do evangelho e dá garantias do poder espiritual para a pregação do mesmo.


I – A ordem final de nosso Senhor aos apóstolos, v.14 e 15.

           Pelo v. 14 fica entendido que os discípulos apesar dos testemunhos da ressurreição estavam ainda incrédulos, e, portanto, também relaxados, inertes quanto à missão de anunciar as boas novas. Eles haviam resistido então ao testemunho de Maria Madalena (v.10 e 11), aos dois homens (v. 12 e 13) e até mesmo a aparição do próprio Senhor (cf. Mt 28.16; Jo 20.27). É de espantar então a incredulidade deles. Ao mesmo tempo nos mostra o quão especial é a fé. Ela não se origina meramente por algo miraculoso que tenhamos visto, não meramente por conta de uma visão, com certeza alguém não passa a crer porque lhe é provado racionalmente alguns fatos. Fé está além dessas coisas. A fé no Cristo ressuscitado vem por meio de um encontro com o próprio Cristo ressuscitado. Vem do alto, de uma ação do Espírito Santo. Daí Adholf Pool afirmar: “Ninguém – por mais que esteja cercado de uma nuvem de testemunhas e milagres – crê no ressurreto sem tornar-se também um ressuscitado. Na Páscoa, no fundo, só se crê por meio de uma Páscoa experimentada pessoalmente”. (Pool, 1998).
           Antes de serem enviados, há a mudança neles quanto à fé na ressurreição do Senhor, porque seriam enviados a proclamar a mensagem mais especial de todas. Não para falar de rancor ou de vingança para com aqueles que mataram o seu senhor, não para irem aos gentios com palavras de ressentimento ou discriminação, mas onde quer que se encontrasse um filho de Adão, independentemente de quaisquer questões exteriores seja de etnia, condição social ou filosofia de vida; por está ali um iníquo cujo coração é pervertido pelo pecado e que necessita do redentor, a eles deveriam ir.

Falta em tudo isto qualquer indício de vingança. “Evangelho” é boa notícia, não mensagem de ameaça (cf. 1.1). O Jesus terreno já era a mão de paz de Deus estendida. Ela foi ferida e recusada. Porém o ressuscitado agora é a mão de reconciliação, cheia de cicatrizes, que Deus novamente estende para a sua criação desviada. Ele não a recolhe nunca e em nenhum lugar, “até à consumação do século” (Mt 28.20). De acordo com Rm 10.21, ele a estende “todo o dia”, ou seja, durante todo o tempo da salvação. O mundo cativado por Satanás ficará sabendo que recebeu um Senhor incrivelmente bondoso, e é capacitado as submeter-se a ele, invocando o seu nome (At 2.21). (Pool, 1998).

           O Senhor também rompeu a dureza dos nossos corações, e como consequência dessa ação soberana do Senhor em nós também devemos estar indo, devemos estar falando dessa mão estendida da graça e perdão do Senhor a todos, pois todos são necessitados.


II – A condição a quem houve o evangelho, v.16.

           Primeiramente ouvir o evangelho de Cristo é um privilégio, mas este privilégio exige uma resposta. Ao evangelho deve a corresponder a fé. Não há salvação à parte da fé no salvador. Há duas correlações aqui, fé e salvação, e, incredulidade e condenação. A oferta de Cristo é uma vida gloriosa, sendo ele a razão de sua vida, o Senhor absoluto dela. No entanto ele também fala de condenação para aqueles que desprezam essa oferta. Que ninguém vos engane com algum tipo de doutrina que exclua a existência de um tormento eterno. Todos que persistem em sua iniquidade e partem desse mundo sem Cristo viverão esse tormento que recebe o nome tão impopular de “inferno”. E o inferno é a manifestação da ira divina sobre o pecador, por isso a salvação é salvação da ira divina, 1 Ts 1.10 nos diz Jesus é que “nos livra da ira vindoura”.
           Desse modo, aquele que anuncia o evangelho, deve anuncia-lo em sua inteireza, deve, portanto, também falar de condenação, pois do contrário estaria sendo negligente com a verdade divina e não seria demonstração de amor para com aquele que ainda não comprometeu sua vida com Cristo.
           Mas Jesus também fala do batismo. Mas note que ele diz que quem não crer é que será condenado, não quem não for batizado. No entanto, o batismo é consequência natural da vida na fé salvadora. O batismo não é uma opção para aquele que responde ao evangelho com fé e arrependimento, é um dever, uma obediência ao Cristo que ordenou como existência concreta de sua igreja na terra. É uma demonstração pública da fé que não deve ficar no âmbito da particularidade, mas ser testemunhada.
           Mais uma vez reforço, que o cristão deve levar o batismo a sério, é um mandamento de nosso Senhor, e a negligência a ele constitui pecado. Jesus não colocou como prerrogativa você ter anos de experiência na igreja e elevada maturidade espiritual para poder ser batizado, o batismo é para todo aquele que crer.


III – A promessa de ajuda especial aos pregadores do evangelho, v.17-20.

           Duas observações não podem ser negligenciadas neste texto a respeito dos milagres mencionados por ele: primeiramente está presente a condição da fé, não meramente de uma fé miraculosa, embora obviamente seja necessária, mas a referência é à fé salvadora. A todos os que creem na mensagem do evangelho, se comprometerem com Cristo, forem, por conseguinte, batizados estarão sendo usados por Deus na realização de maravilhas, dos sinais ou milagres. A segunda observação é que a concessão deste poder que o Espírito santo operará é para o objetivo específico da proclamação do evangelho, não está aqui uma promessa de milagre meramente pelo milagre, mas para confirmar a mensagem como sendo divina. Os sinais hão de acompanhar aqueles que creem e estão indo.
           Queremos neste escopo recusar dois extremos: o primeiro daqueles que embora estejam bem intencionados afirmam que não há milagres hoje, por conta de o evangelho já está bem difundido, e, de acordo com o texto, segundo estes, a promessa era só para os primeiros tempos da igreja. Outro extremo que deve ser recusado é daqueles que entendem que a coisa mais importante é pessoas serem curados de suas moléstias, e para esses não importa se tais pessoas serão salvas ou não. Estes últimos fazem seus shows com supostos milagres, mas não pregam o evangelho de Cristo.
           Com qual posição então podemos ficar? Deus é soberano e pode sim, e realiza, milagres dentro de seus propósitos soberanos. Mas não está sujeito às nossas vaidades de marcarmos dia e hora para que ele opere milagres. Ademais, devemos admitir que já não há tanta necessidade deles no presente em alguns contextos com o objetivo de confirmar a mensagem do evangelho.
           É prometido à igreja o poder no Espírito Santo de expulsar demônios, em nome de Jesus. A centralidade sempre é Cristo. O objetivo sempre é libertação para uma vida com Cristo. Em Atos há vários textos a respeito (5.16; 8.7; 16.16ss).
4 Mas os que andavam dispersos iam por toda a parte, anunciando a palavra.
5 E, descendo Filipe à cidade de Samaria lhes pregava a Cristo.
6 E as multidões unanimemente prestavam atenção ao que Filipe dizia, porque ouviam e viam os sinais que ele fazia;
7 Pois que os espíritos imundos saíam de muitos que os tinham, clamando em alta voz; e muitos paralíticos e coxos eram curados. (Atos 8.4-7).
           É prometido à igreja também para o eficaz anúncio do evangelho a outros povos o falar em línguas, tanto línguas inteligíveis de outras nações, quanto línguas não compreendidas pela cultura humana, “línguas dos anjos” no dizer no apóstolo Paulo (1 Co 13.1). Os apóstolos em Atos 2, anuncia o evangelho em vários idiomas diferentes que não falavam, ( ver 2.5 e 6).
          O v. 18 continua com as promessas dos sinais, mas sempre nessa perspectiva da obra missionária.

Finalmente, nunca esqueçamos o fato que a igreja de Cristo, neste mundo, por si mesma já é um milagre permanente. A conversão e a perseverança na graça, por parte de cada membro, servem de sinais de maravilhas tão grandes quanto a ressurreição de Lázaro dentre os mortos. (Ryle, 2007, p. 2019).

           O v. 19 faz a afirmação de que Jesus foi ascendido ao céu e assentou-se à destra de Deus. Para o entendimento judaico isto é muito vívido, traz a ideia de autoridade de Jesus. É o mesmo que dizer que ele tem o mesmo poder que o Pai, tem a mesma autoridade. É a ele, àquele que está assentado no trono a quem servimos e proclamamos! Está agora com o Pai levando avante a maravilhosa obra salvadora, como nos diz Hb 7.25: Ele vive para interceder por nós.


Conclusão

1. Uma vez que fomos tocados pela mensagem de Cristo não podemos permanecer parados, tornamo-nos os enviados que devem estar testemunhando que Cristo é tudo para nossas vidas.

2. Nele nós encontramos a plena realização que redundará em alegria espiritual. Mas quando nos sobrevém momentos de tristeza podemos clamar a ele que nos ajude em nossa falta de fé (v. 14), e então podemos prosseguir tal qual o eunuco em At 8,26-39, que seguiu o seu caminho cheio de júbilo.


3. Lembremos que como proclamadores do evangelho o Senhor nos acompanha nesta jornada, e o mundo e as criaturas esperam por nossas palavras e ações. Não esmoreçamos, mas sejamos fiéis colaboradores na seara do Senhor.

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