Marcos 15.20-41 - Por mim morreu na cruz

Introdução

           O cristianismo tem muitos símbolos: pão, peixe, pomba são alguns. No entanto nenhum é tão significativo quanto à cruz. O que na época de Jesus era símbolo de vergonha e humilhação é o que mais nos representa hoje. O que faz da cruz um símbolo tão maravilhoso? A resposta ao tempo que é simples é também perplexa. Foi nela que o Deus encarnado – Jesus Cristo – morreu vicariamente pelo seu povo. Obviamente que nem todos conseguem entender ou aceitar tal ideia.

Para a maioria das pessoas tal ideia é loucura e escândalo. O grafite de Alexamenos que tinha um homem crucificado com a cabeça de um asno tinha a seguinte inscrição debaixo do grafite: ‘Alexamanos, adora seu Deus!’. A implicação de tal desenho e afirmação é que um deus que se agradou em se encarnar e morrer numa cruz romana só poderia ser um asno/louco, consequentemente todos os que adoram esse deus são burros!
Na mitologia pagã, os deuses estavam sempre irados, por isso era necessário sacrifícios constantes para apaziguar a ira descontrolada deles. Era inconcebível a ideia de que um deus seria tão rico em amor e misericórdia que ele próprio providenciaria o sacrifício perfeito para apaziguar uma ira santa e perfeita. (http://sdgestudosmarcos.blogspot.com.br/2012/08/o-dia-em-que-deus-morreu-na-cruz.html)

           Já houve até teólogos que quiseram supor que Jesus não morreu verdadeiramente, pois encontram dificuldade de correlacionar isso com a sua natureza divina. No entanto, a despeito de qualquer compreensão teológica fiquemos com a simplicidade das afirmações da Palavra de Deus de Cristo totalmente homem e totalmente Deus morreu para nos conceder a salvação. E este relato maravilhoso que nos traz o texto em questão.


Elucidação

           O relato da crucificação e também o relato da ressurreição de Jesus é o ápice dos evangelhos. Ao iniciar a exposição em Marcos havia em mim a ansiedade de chegar a esse momento tão glorioso, que é tratar o texto que nos fala tão vividamente do sacrifício de Jesus pelos seus. Portando, que cada um de nós possamos lembrar e de modo individual: Cristo morreu por mim.



I – Humilhado pelos homens, v. 20-32.

           v. 20 Chegou então o grande momento. Jesus é conduzido ao cumprimento de sua condenação sob a zombaria dos soldados. Já havia posto em sua cabeça uma coroa de espinhos, já o haviam espancado e de forma zombeteira se ajoelhado diante dele. Então o conduzem para fora dos muros de Jerusalém, para o lugar chamado Gólgota, que recebeu esse nome por ser um pequeno monte com uma aparência de uma caveira. O trajeto até lá foi com certeza outro suplício, o fato de Simão ter sido recrutado para levar a cruz é porque Jesus já não suportava mais, afinal ele estava sendo chicoteado. Podemos imaginar os escárnios na rua de pessoas prontas a exacerbar sua malignidade.
           Como revela o v. 23 ao chegar ao lugar da crucificação deram-lhe a beber um vinho misturado com mirra.Mirra é o sumo desidratado da casca de uma árvore balsâmica árabe, e geralmente era usada como incenso. Ela deixava a bebida amarga e tinha um efeito calmante e anestésico”. (Pohl, 1998 ).
           O fato de Jesus recusar ter os seus sentidos anestesiados leva-nos a refletir sobre sua firmeza em receber do Pai todo o castigo que nos era devido.
           v. 24 A humilhação de Jesus se estendeu a perder suas vestes, foi pendurado na cruz seminu. O costume romano era de o crucificado ser pendurado nu, no entanto o mais provável é que no caso de prisioneiros judeus recebiam a condescendência devido o escrúpulo judaico de ter de cobrir as partes íntimas do condenado.
           Como era de costume escrever na cruz a acusação pela o qual o condenado estava ali, como forma de intimidação Pilatos mandou escrever em letras hebraicas, aramaicas e gregas, JESUS NAZARENO, O REI DOS JUDEUS, conforme João 19.19. Tal título na cruz não agradou aos sacerdotes, mas Pilatos o manteve. Tal inscrição era de fasto zombeteira, e realmente os judeus não o receberão como rei, não receberam-no como Messias, não entenderam e ou não quiseram aceitar a realidade do reino pregado por Cristo. Ele não fundou seu reino com o sangue dos seus súditos, mas com o seu próprio. Naturalmente um Senhor tão diferente incomoda os senhores deste mundo, mas ele também conquista sempre de novo servos que o amam mais que a própria vida” (Ap 12.11). (Pohl, 1998).
           Somam-se a isto a zombaria registradas nos versículos 29 a 32 por parte de pessoas que estavam passando pelo local, pois o Gólgota localizava-se próxima a um local de passagem de transeuntes. O gesto de menear a cabeça é um gesto de escárnio. Os fariseus e sacerdotes obviamente não deixarem de sua contribuição. Até mesmo os ladrões que com ele estavam sendo crucificados, possivelmente aqueles ladrões eram membros do grupo zelotes, homens que lutavam contra o domínio romano de modo violento. Então a zombaria deles poderia ser que não consideravam Jesus digno de estar ali juntamente com eles.
           Aquele momento tão humilhante diante dos homens, que poderiam ver nele um líder fracassado, um herege condenado, não era um momento de festa para hostes demoníacas, porque a aparente derrota de Jesus era o seu grande triunfo, e a grande derrota do diabo e suas hostes. Embora o momento mais triste no sentido de que o próprio Filho de Deus estava em dor, em agonia indizível, pois não apenas os tormentos físicos estavam sobre ele, mas todo o peso da justiça divina, os nossos pecados, ele contado com malfeitores, estava ali condenado entre ladrões e assassinos; mas este momento tão vergonhoso aos olhos humanos era um momento de grande glória pois era a grande vitória de nosso Senhor Jesus sobre o diabo e trazia consigo a certeza maravilhosa de nossa vitória. Há um texto de Apocalipse que fala disso:
“Então ouvi uma voz do céu, proclamando: Agora veio a salvação, o poder, o reino do nosso Deus e a autoridade do seu Cristo, pois foi expulso o acusador de nossos irmãos, o mesmo que os acusa de dia e de noite, diante de nosso Deus. Eles, pois, o venceram por causa do sangue do Cordeiro e por causa da palavra do testemunho que deram e, mesmo em face da morte, não amaram a própria vida” (Ap 12.10, 11).
            Mas além do sofrimento infligido a Cristo pela humilhação por parte das pessoas há muito mais doloroso, que é ser abandonado na Cruz pelo seu próprio Pai.


II – Abandonado por Deus, v. 33-41.

           v. 33 Este evento que ocorre aqui é de relevância, independentemente do que ele tenha sido em sua essência. Alguns acreditam que se tratava de um eclipse solar, outros que foi um evento miraculoso, seja qual opção corresponda a verdade o importante naquele momento específico aquilo foi carregado de significação. O simbolismo para aquelas pessoas, até atualmente permanece a mesma ideia, do que estava acontecendo era de que a escuridão traz consigo impressões de perigo e terror, denota aspecto do eu é assustador. Desse modo está na noite é estar sob o juízo divino. Haver trevas naquele momento é uma forma então de ser demonstrado que Deus se voltou contra seu Filho Amado no sentido de exercer nele sua justiça.
           O sofrimento de Jesus na cruz foi de grande intensidade, Adolf Pool, em seu Comentário de Marcos traz algumas especificações:

A dor dos ferimentos feitos pelos pregos não diminuía. A distensão dos membros causava câimbras, começando nos braços e vindo para o meio do corpo. O torturado podia firmar-se nos pés para minorar a tensão nos braços por algum tempo, mas isto demandava muito esforço. Logo o corpo cedia novamente. Mais tarde ele tentava subir de novo, e assim ia para cima e para baixo. Finalmente, as pernas fraquejavam. As câimbras atingiam os músculos da respiração. O agonizante ficava sem ar. Caía a pressão sangüínea, diminuía o nível de oxigênio no sangue e aumentava o de gás carbônico. A sede se tornava um suplício, o coração batia mais forte. O suor escorria pelo corpo. Insetos pousavam sobre as feridas abertas. A temperatura do corpo subia. A irrigação de sangue da cabeça e do coração ficava cada vez mais fraca, até que o coração falhava e a cabeça se inclinava para a frente, sobre o peito (cf. Speidel, p 138; Blinzler, p 185s). Os romanos geralmente deixavam os cadáveres pendurados até que as aves de rapina os tivessem devorado. (Pool, 1998).

           v. 34 Diante de tudo o que ocorre Jesus exclama: “Deus meu, Deus meu, porque me desamparaste?” Devemos pesar esta exclamação contra o fundo de confissões como Jo 8.29; 10.30: “O Pai não me deixa só” e “Eu e o Pai somos um” para compreendermos quão profundo foi sofrimento de Jesus na cruz. Um dos mais terríveis sentimentos que alguém pode sentir é o de desamparo, saber que está só contra tudo e contra todos. Embora possamos viver algumas circunstâncias na qual nos sintamos sós sem que pessoas possam nos ajudar, nunca poderemos afirmar que fomos abandonados pelo Senhor. No entanto por amor a mim e a você ele abandonou Jesus na cruz. Um abandono de uma entrega para o cumprimento do castigo. Acredito que esta foi a maior dor sentida por Jesus naquele momento, a dor da solidão, da ausência de comunhão com o Pai, pois sobre ele estava nossos pecados e sobre nossos pecados nele a justiça divina.
           Outro evento de grande importância quando Jesus morre é o que é exposto no v. 38. O véu do santuário sendo rasgado é testemunho divino que agora aquele local onde os judeus acreditavam ser tão especial e que Deus ali estava, o Templo, perde todo seu sentido. O acesso a Deus não mais poderia ser concebido por mediador sacerdotal humano, Cristo é o único mediador. Todo lugar agora é lugar de culto, a todos que creem em Cristo é concedido o acesso à presença divina. Desse modo, tentar estabelecer cerimoniais judaicos nas igrejas cristãs, mediante levantamento de altares, oferecimento de sacrifícios e centralização em um sacerdócio humano não é melhor do que tentar costurar o véu do Templo.
           Com tudo aquilo é tão interessante o reconhecimento de um oficial do exército romano de que aquele crucificado se tratava do Filho de Deus. Um estrangeiro, um gentio é o primeiro a fazer essa confissão após a crucificação. Aquele que estava distante foi aproximado de Deus pela morte de Cristo. Que você também possa diante desse texto ter o mesmo reconhecimento, não apenas em teoria, mas em verdadeira contrição espiritual poder ser impacto com o pensamento: Cristo morreu por mim, Deus em Cristo estava na cruz por mim, meus pecados foram punidos em Jesus. Diante disso o mínimo a ser feito é uma entrega total de sua vida a ele.
           A morte de Jesus na cruz não ficou sem testemunho (v.40-41), as mulheres que ali estavam relataram posteriormente tudo aos discípulos, por isso podemos ter este reato e os outros dos demais evangelhos em detalhes. Embora entre os judeus naquele contexto o testemunho feminino não fosse válido, o Espírito Santo inspirou os autores a mencioná-las como forma de demonstrar a libertação da Senhor Jesus na vida delas em todos os aspectos, pois como é dito no v. 40 aquelas mulheres o acompanhavam e serviam, ou seja, eram apoiadoras ativas de seu ministério terreno, o que era algo muito radical para o contexto machista de então.
           Que você também ao ser impactado pela morte de Jesus por você se torne uma testemunha dessa obra maravilhosa e proclame o evangelho da salvação.
           Diante de um texto como este que você possa refletir e tomar uma atitude.


Aplicação

1. Observe 2 Co 5.19-21: “19 a saber, que Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo, não imputando aos homens as suas transgressões, e nos confiou a palavra da reconciliação.
20 De sorte que somos embaixadores em nome de Cristo, como se Deus exortasse por nosso intermédio. Em nome de Cristo, pois, rogamos que vos reconcilieis com Deus.
21 Aquele que não conheceu pecado, ele o fez pecado por nós; para que, nele, fôssemos feitos justiça de Deus.
           Assim sendo, tome você sua decisão hoje! Entenda que aquela obra de Jesus na cruz pode um efeito na sua vida hoje!

2. Que refletir sobre a morte de Jesus te leve a atitudes concretas de obediência. Que te leve sempre a viver em adoração a Ele. O texto de Hebreus 13.12-15 diz: “E por isso também Jesus, para santificar o povo pelo seu próprio sangue, padeceu fora da porta. Saiamos, pois, a ele fora do arraial, levando o seu vitupério. Porque não temos aqui cidade permanente, mas buscamos a futura. Portanto, ofereçamos sempre por ele a Deus sacrifício de louvor, isto é, o fruto dos lábios que confessam o seu nome”.
           Que o fruto de lábios que confessam Cristo esteja sempre presentes em sua vida!


Conclusão

            Lembrar que Cristo morreu por mim é lembrar que ele venceu o diabo por mim:
“...tendo cancelado o escrito de dívida que era contra nós e que constava de ordenanças, o qual nos era prejudicial,  removeu-o inteiramente, encravando-o na cruz; e, despojando os principados e as potestades, publicamente os expôs aos desprezo, triunfando deles na cruz” (Cl 2.14-15). Na cruz Jesus desfez as obras do diabo (1 Jo).
           Lembrar que Cristo morreu por mim é lembrar que me justificou, cancelou minha dívida com Deus, jamais poderei ser condenado, porque Jesus morreu por mim. É lembrar que ele me reconciliou com Deus e me deu paz.
           Assim sendo, a cruz de Cristo é a minha morte para o pecado, a minha mensagem, a minha glória!



RYLE, J. C. - Meditações no evangelho de Marcos. Editora Fiel, 2 edição, São Paulo, 2007.
POHL, Adolf - O Evangelho de Marcos, Comentário Esperança. Editora Evangélica Esperança, Curitiba, PR, 1ª edição, 1998.
RIENECKER, Fritz & ROGERS, Cleon – Chave linguística do Novo Testamento grego. Editora Vida Nova, São Paulo, SP, 3ª edição, 1995.



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