Marcos 14.43-52 A prisão de jesus


Introdução

           Há alguns anos atrás, as grandes emissoras de TV, tais como National Geographic, SBT e Globo, divulgaram a descoberta do Evangelho de Judas como algo que traria uma revolução no cristianismo. Esse ‘novo evangelho’ passou a ser conhecido como ‘o evangelho proibido’, pois nele era revelado que Judas Iscariotes não foi um traidor e um terrível pecador, mas que, na verdade, ele foi o maior e mais exemplar discípulo de Jesus.
           Com isso foi vendida a ideia de que talvez afinal Judas tenha sido um bom discípulo e que os outros textos que falam do caráter de judas de modo negativo foram um mal entendido dos discípulos mesclado com um pouco de ressentimento por não compreender os planos de Jesus. Tal ideia desconsidera a inspiração das Escrituras e é totalmente distante da verdade bíblica.
           Judas foi sim o pior exemplo de pessoa, aquele que passou três anos diretos com Jesus, comendo, dormindo, ministrando com Jesus e ouvindo-o.
           Esse texto nos fala desse momento tão crucial da traição de Judas, da prisão de Jesus. Mas o foco não está em Judas, o foco está em Jesus. Marcos não voltará a falar de Judas, não voltará a fazer menção ao beijo da traição, Jesus continuará sendo o centro de tudo. Que os holofotes estejam sempre voltados para a soberania de deus neste momento tão importante.


Elucidação

           Continuamos dentro do Jardim do Getsêmani com o nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo. Como vimos no sermão anterior as horas de agonia e aflição levaram Jesus a vigiar e orar, vencendo assim a grande tentação. Jesus venceu a tentação e está pronto para enfrentar Seus inimigos. Essa é a última noite de Jesus com Seus discípulos. E que noite é essa! Essa noite é uma noite histórica! Essa é uma noite de festa, uma noite de aflição, uma noite de fraqueza, uma noite de triunfo, uma noite de conspiração, uma noite de traição,  uma noite de fuga e uma noite de compaixão!




I – O traidor é manifestado, v. 43-45.

           v.43 ‘ENQUANTO ELE AINDA FALAVA, APARECEU JUDAS, UM DOS DOZE
           A essa altura, Jesus provavelmente já estava com os outros discípulos que haviam ficado na entrada do jardim. Marcos gosta de identificar o traidor como ‘um dos Doze’ para ressaltar e enfatizar quão terrível e profunda foi essa traição. Ele pertencia a um dos Doze, Judas teve um incomparável privilégio.
Até mesmo a vida de Judas pode nos ensinar algumas lições:
1 - As maiores oportunidades nunca irão converter um pecador. 
2 - Os maiores privilégios nunca darão vida ao pecador que está morto em suas transgressões. 
3 – Por melhor que sejam as suas companhias elas não poderão salvar uma alma do inferno. 
4 - A melhor pregação no mundo não pode criar vida e fé, por si mesma, na alma. A salvação pertence à obra regeneradora do Senhor!

           Judas teve todas as oportunidades, estava perto de Jesus, ouvia Jesus, conversava com ele. Mesmo assim o Senhor não teve espaço em seu coração.
           ‘UMA MULTIDÃO ARMADA DE ESPADAS E VARAS’ [μετὰ μαχαιρῶν καὶ ξύλων] – Essa multidão vem armada com: ESPADAS [Gk. μάχαιρα] – essa era uma espada menor e afiada, usada para ataque e corte. Muito usada pelos soldados romanos. VARAS [Gk. ξύλον] – pedaço de pau ou bastão de madeira. Essa era a arma usada pelos guardas do Templo.

           João 18:3 Então Judas foi para o olival, levando consigo um destacamento de soldados [coorte – décima parte de uma legião = 600 homens, ou seja, 60 homens] e alguns guardas enviados pelos chefes dos sacerdotes e fariseus, levando tochas, lanternas e armas.

           Essa milícia foi enviada pela liderança de Israel. Essa multidão não é um grupo de pessoas qualquer, mas sim um grupo enviado pelo Sinédrio. O Sinédrio representava todo o povo em assuntos políticos e religiosos. Esses são os grupos religiosos que Jesus havia falado que O rejeitariam (8:31). 

           ‘SAUDAR COM UM BEIJO’  [Gk. ὃν ἂν φιλήσω αὐτὸς ἐστιν] – “O beijo era um sinal de afeto especial entre membros da família, bons amigos, e um sinal de honra e afeto entre um discípulo e seu mestre.” (Craig Keener, The IVP Bible Background Commentary – New Testament, IVP, pg.177). Homens na antiga [e moderna] Palestina costumavam cumprimentar um ao outro com um beijo na face. Esse era a maneira comum de saudar um venerável rabino e teria parecido um saudar de paz para os outros discípulos.” (Zondervan llustrated Bible Backgrounds Commentary, pg 166).
           Com esse código utilizado por Judas notamos primeiramente que Jesus tinha uma aparência simples, não se vestia de forma pomposa, não havia algo nele fisicamente que o destacasse dos outros discípulos, por isso a necessidade de ser identificado antes pelo próprio Judas para que os guardas não prendessem a pessoa errada.
           Além disso podemos notar naquele beijo o ápice da hipocrisia de judas. ‘Beijou’ - a palavra grega carrega aqui um prefixo sinalizando uma intensidade na ação (καταφιλέω). Essa palavra pode se referir tanto a vários beijos como a um beijo com mais carinho e afeto. Essa é a palavra usada na parábola do filho pródigo. Judas não deu só um beijinho superficial, mas ele deu, provavelmente, um abraço apertado e um beijo.  
           Como um artista ele faz de conta, de forma perfeita, que ele tinha carinho pro Cristo.
           Muitas pessoas hoje agem semelhantemente a Judas: se aproximam de Jesus, o chamam de mestre e o beijam. Aproximam-se de Jesus, mas tal aproximação não provém da ação do Espírito Santo, mas pela emoção e pressão do momento. Chamam Jesus de mestre, mas relativizam sua mensagem, não querem negar a s mesmo, tomar a cruz e perder a sua vida por causa do evangelho. Beijam Jesus, mas o beijo é para conseguir algo em troca. Isso tudo é hipocrisia. Que o Senhor nos livre de tal coisa. Que vivamos o verdadeiro amor ao nosso Senhor. Como nos diz Romanos 12.9: “O amor deve ser sincero [sem hipocrisia]. Odeiem o que é mau; apeguem-se ao que é bom”.



II – Jesus é preso, v. 46-49.

           OS HOMENS AGARRARAM JESUS” (NVI) ou “E LANÇARAM-LHE AS MÃOS” (ACF)
           [Gk. οἱ δὲ ἐπέβαλον τὰς χεῖρας αὐτῷ] - O verbo nesse contexto tem o sentido de colocar a mão de forma firme e até mesmo agressiva sobre um criminoso. Devido ao ódio e ao temor que Ele fugisse. Então podemos imaginar que não foi uma cena tranquila, os soldados agiram com brutalidade. Mas diante disso tudo não esqueçamos: Ele não é agarrado e preso por causa da força e da esperteza de Seus adversários! Mas porque Ele entrega a Sua própria vida. O nosso Salvador dá a Sua própria vida em submissão à perfeita vontade de Deus! Como nos diz João 10:17, 18:  “Por isso é que meu Pai me ama, porque eu dou a minha vida para retomá-la. 18 Ninguém a tira de mim, mas eu a dou por minha espontânea vontade. Tenho autoridade para dá-la e para retomá-la. Esta ordem recebi de meu Pai”.
           No texto paralelo do Evangelho de João é revela que antes de eles prenderem Jesus ocorre algo que demonstra quem de fato estava no controle daquela situação.

João 18:1-8 
1 Tendo Jesus dito estas palavras, saiu juntamente com seus discípulos para o outro lado do ribeiro Cedrom, onde havia um jardim; e aí entrou com eles.
2 E Judas, o traidor, também conhecia aquele lugar, porque Jesus ali estivera muitas vezes com seus discípulos.
3 Tendo, pois, Judas recebido a escolta e, dos principais sacerdotes e dos fariseus, alguns guardas, chegou a este lugar com lanternas, tochas e armas.
4 Sabendo, pois, Jesus todas as coisas que sobre ele haviam de vir, adiantou-se e perguntou-lhes: A quem buscais?
5 Responderam-lhe: A Jesus, o Nazareno. Então, Jesus lhes disse: Sou eu. Ora, Judas, o traidor, estava também com eles.
6 Quando, pois, Jesus lhes disse: Sou eu, recuaram e caíram por terra.
7 Jesus, de novo, lhes perguntou: A quem buscais? Responderam: A Jesus, o Nazareno.
8 Então, lhes disse Jesus: Já vos declarei que sou eu; se é a mim, pois, que buscais, deixai ir estes...

           Jesus não estava se escondendo como um ladrão, mas um dos motivos dEle estar no Getsêmani era para Ele ser encontrado por Judas.

           No v. 4 é mostrada a soberania e valentia de Jesus. É Ele quem se entrega. Ele não correu e nem se escondeu, mas saiu para encontra-los, mostrando-nos quem está no controle de tudo!
           A resposta deles no v. demonstra que eles têm Jesus como um homem normal de Nazaré.
           "Sou eu", disse Jesus. A resposta de Jesus revela quem Ele realmente é: SOU EU = YHWH.
(E Judas, o traidor, estava com eles).
           v. 6 Ao som do nome verdadeiro de Jesus eles caíram – as palavras de Jesus são como uma espada que quebra os joelhos desses homens e eles se prostram diante dEle. O mesmo Jesus que tem poder sobre a tempestade, sobre demônios e sobre a morte, tem o poder de colocar os mais bravos soldados no chão ao som da Sua voz. É importante notarmos que Judas está no meio deles, mostrando que o poder de prender Jesus não estava com Judas.
           Jesus não só demonstra Seu soberano poder e autoridade como também Seu profundo amor e cuidado. Ele pergunta quem eles estão procurando para deixar claro que eles devem prender somente Jesus. O nosso Salvador mostra mais uma vez Sua misericórdia e graça para com Seus discípulos.

           O texto de João mostra detalhes que marcos não relata, como o nome de quem utilizou da espada e o nome da pessoa ferida.
           Jo 18.10:  Então, Simão Pedro puxou da espada que trazia e feriu o servo do sumo sacerdote, cortando-lhe a orelha direita; e o nome do servo era Malco”.

           Dentro do grupo dos discípulos, havia um homem chamado Simão, o zelote (3:18). Era normal que os zelotes carregassem espadas, portanto ele era, provavelmente, o dono das espadas. Era também normal o uso de espadas para defesa pessoal [havia muitos bandidos nas estradas]. Pedro, o valentão do grupo, achou que era importante que tivesse uma em suas mãos.
Mais uma vez revela-se aqui a falta de domínio próprio de Pedro. Mateus e Lucas nos relatam que, antes do ataque, houve uma pergunta: Lc 22:49: “Ao verem o que ia acontecer, os que estavam com Jesus lhe disseram: "Senhor, atacaremos com espadas?"
Pedro não conseguiu esperar a resposta de Jesus! Isso demonstra falta de domínio próprio. Ele estava sendo controlado pela carne e não pelo Espírito!
           A Bíblia no exorta muito sobre a importância do domínio próprio: Pv 25:28: Como a cidade com seus muros derrubados, assim é quem não sabe dominar-se”; Pv 16:32: Melhor é o homem paciente do que o guerreiro, mais vale controlar o seu espírito do que conquistar uma cidade”; Pv 29:11: “O tolo dá vazão à sua ira, mas o sábio domina-se”; Pv 29.22: “O homem irado provoca brigas, e o de gênio violento comete muitos pecados;  Tg 1:19-20: Meus amados irmãos, tenham isto em mente: Sejam todos prontos para ouvir, tardios para falar e tardios para irar-se, pois a ira do homem não produz a justiça de Deus”.  
           Jo 18:11 Jesus, porém, ordenou a Pedro: "Guarde a espada! Acaso não haverei de beber o cálice que o Pai me deu? "

Ele ordena Pedro a guardar a espada por três motivos:
1 – “Todos que empunham a espada, pela espada morrerão” – Violência naquela hora geraria mais violência. Pena de morte para assassinato!
2 – “Posso pedir a meu Pai e Ele enviaria doze legiões de anjos” – Seria tolice atacar, quando Jesus simplesmente poderia ter toda aquela multidão massacrada pelos seus anjos.
3 – “Para o cumprimento das Escrituras” – Eles não devem lutar, pois as Escrituras não profetizaram sobre retaliação da parte do Servo Sofredor.
O nosso Senhor nos mostra que as armas da nossa guerra são espirituais.
           v. 48 “SAÍSTES COM ESPADAS E VARAPAUS A PRENDER-ME, COMO A UM SALTEADOR?” -- Jesus mostra quão covardes e quão cheios de injustiça são esses homens!
           SALTEADOR (Gk. λῃστής) – Jesus é cercado e preso como um marginal e saqueador. “λῃστής é uma palavra tão pejorativa que ninguém usaria para si mesmo.” (R.T. France, TNIGTC on Mark, Eerdmans, pg 594)

           v.49 “TODOS OS DIAS EU ESTAVA COM VOCÊS, ENSINANDO NO TEMPLO, E VOCÊS NÃO ME PRENDERAM
           Jesus mostra toda a hipocrisia desses homens. Jesus abre as cortinas do palco para que todos vejam quão hipócritas e quão cheios de perversidade são esses homens.
           É como que ele estivesse dizendo: “Onde vocês estavam na segunda-feira, na terça e na quarta? Pois eu estava lá no templo ensinando!

           “MAS AS ESCRITURAS PRECISAM SER CUMPRIDAS
Toda aquela situação era parte do perfeito plano de Deus!
** Aquela era a hora da prisão, a hora de ser levado como um criminoso, não era a hora de retaliar e lutar, era a hora em que todos iam abandoná-Lo, pois tudo aquilo já havia sido estabelecido por Deus! Is 53:7: “Ele foi oprimido e afligido, contudo não abriu a sua boca; como um cordeiro foi levado para o matadouro, e como uma ovelha que diante de seus tosquiadores fica calada, ele não abriu a sua boca”.



III – Jesus é abandonado por todos, v. 50-52.

           Exatamente como o nosso Senhor Jesus havia falado algumas horas antes (14.27-31), aqueles que haviam prometido total aliança e perseverança agora fogem!
           Cadê a valentia? Onde está a fidelidade? Cadê aquela força prometida?  Cadê a bravura?
           Que nós possamos olhar para esse versículo e, ao invés de julgar com grande severidade esses homens, possamos clamar pela graça e misericórdia de Deus! Assim como eles, em muitos momentos de nosso modo particular também podemos em hora está demonstrando valentia e outra estarmos sendo covardes abandonando o Senhor me meio à tribulação.
Mas como é glorioso saber que Ele jamais nos desampara. Em Hb 13:5-6 o autor de Hebreus cita Dt 31.6-8: “De maneira nenhuma te deixarei, nunca jamais te abandonarei. Assim, afirmemos confiantemente: O Senhor é o meu auxílio, não temerei. O que me poderá fazer os homem?"
           O texto ainda nos mostra um relato curioso de um jovem que estava seguindo-o Jesus coberto apenas por um lençol, e que fugiu quando foi descoberto.
           A grande maioria dos comentários fala que esse jovem é o autor do livro (João Marcos), pois em nenhum outro evangelho nós encontramos esse relato.
           Embora ele tenha fugido naquele momento, mas a fuga em si não era o problema.
           Jesus perguntou a multidão quem eles estavam procurando para que os seus homens pudessem escapar (Jo 18:3-8). O jovem fugiu, pois era a única coisa a ser feita. Ele fugiu, pois ele sabia que só Jesus poderia andar naquele caminho. Ele fugiu, pois ele sabia que ele seria mais útil para o Reino vivo do que morto.



Conclusão

           Com qual personagem desse relato atualmente você tem mais se assemelhando?
1) Você tem se assemelhado com Judas? Se aproximou de Jesus pelas emoções, chama Ele de ‘mestre’, mas odeia os Seus ensinos. Chama Jesus de ‘mestre’, mas nunca vai à Palavra durante o dia para ouvir os Seus mandamentos. Beija Jesus no domingo, mas durante a semana o trai com tudo e todos. Demonstra bela afeição no domingo, mas durante a semana a cobiça reina em seu coração.

2) Com a multidão que foi prender Jesus? Alguns têm ido à igreja há algum tempo e ainda continuam hostis às coisas de Deus. Rejeitam a verdade de Deus e são influenciados pelos outros.

3) Você tem se assemelhado a Simão? Tem andado descontrolado, sem domínio próprio – brigando, discutindo, falando palavras indecentes, agressivo com tudo e todos. Às vezes tendo zelo pela coisa certa, mas sem o conhecimento correto.

4) Você tem se assemelhado com o Jovem coberto com o lençol? Tem seguido de perto o nosso Senhor e Salvador. Tem estado acordado e vibrante na jornada espiritual.

5) Você está parecido com Cristo? Esse é o personagem que todos nós devemos buscar ser iguais! Vigiando, orando, se submetendo a vontade de Deus, cheio de misericórdia, valente, sem temor dos sofrimentos que o Pai lhe impõe...
I Co 11:1: “Tornem-se meus imitadores, como eu o sou de Cristo”.
I Pe 2:21 “Para isso vocês foram chamados, pois também Cristo sofreu no lugar de vocês, deixando-lhes exemplo, para que sigam os seus passos”.


           Que como igreja nós todos possamos seguir os passos do nosso Senhor e Salvador Jesus! Uma igreja cheia de verdadeiros imitadores de Cristo!

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