Gênesis 6 A ira e a graça de Deus

 
Introdução
           Há uma dualidade no evangelho que muitas vezes é desequilibrada por aqueles que o transmitem. Refiro-me à realidade da ira divina e de Sua graça. Alguns por se apegarem a doutrina da graça de modo exacerbado negligenciam que a Palavra também revela a ira divina. Outros, em uma visão distorcida conseguem enxergar apenas a ira de Deus e não compreendem sua graça. Ambas as polaridades da relação de Deus conosco estão presentes na Palavra. A ira divina é expressão de sua santidade, de sua justiça; a graça também expressa sua santidade, portanto, quando dizemos que são polaridades opostas nos referimos à ação de Deus para com o homem, não que haja contradição no ser de Deus. Os salvos em Cristo estamos livres da ira eterna do Senhor, mas se permanecermos em nossos pecados sem arrependimentos podemos sofrer sua justiça sobre nós. Que possamos vivenciar a bênção da graça, não as consequências da justiça divina sobre nossos pecados.

 

Elucidação
            Este capítulo nos traz um relato de como estava a sociedade humana em seus primórdios anterior ao dilúvio.

 

 
I - A ira de Deus sobre a humanidade pré-diluviana, v. 1-7.
1 Como se foram multiplicando os homens na terra, e lhes nasceram filhas,

2 vendo os filhos de Deus que as filhas dos homens eram formosas, tomaram para si mulheres, as que, entre todas, mais lhes agradaram.

3 Então, disse o SENHOR: O meu Espírito não agirá para sempre no homem, pois este é carnal; e os seus dias serão cento e vinte anos.

4 Ora, naquele tempo havia gigantes na terra; e também depois, quando os filhos de Deus possuíram as filhas dos homens, as quais lhes deram filhos; estes foram valentes, varões de renome, na antiguidade.

5 Viu o SENHOR que a maldade do homem se havia multiplicado na terra e que era continuamente mau todo desígnio do seu coração;

6 então, se arrependeu o SENHOR de ter feito o homem na terra, e isso lhe pesou no coração.

7 Disse o SENHOR: Farei desaparecer da face da terra o homem que criei, o homem e o animal, os répteis e as aves dos céus; porque me arrependo de os haver feito.
 

            O capítulo 6 inicia relatando a reprovação do Senhor ao que estava ocorrendo. Os v. 1 e 2 nos dizem que os filhos de Deus tomaram para si as filhas dos homens. Algumas pessoas intepretam a expressão "filhos de Deus" como uma referência aos anjos que assumiram forma humana e tiveram relações sexuais com mulheres. Esta interpretação no entanto é bastante fantasiosa, pois Jesus afirma que os anjos no céu não pussuem sexualidade (Mt 22.30). Desse modo, a interpetação mais plausível é que se trata da mistura da linhagem de Set e de Caim. Os filhos de Deus então eram os descendentes de Set, e as filhas dos homens eram mulheres descedentes de Caim. O que está sendo relatado aqui é a união reprovável pelo Senhor dos que temem a Deus com aqueles que não o temem. Também no N.T. vemos a Palavra reprovar essa união: "Não vos prendais a um jugo desigual com os infiéis; porque, que sociedade tem a justiça com a injustiça? E que comunhão tem a luz com as trevas?" (2 Coríntios 6.14). Mas é evidente que aqueles que já tinham cônjuge não regenerado quando de sua conversão deve esforçar-se ao máximo para preservar seu matrimônio. Em 1 Co 7 é dito que o marido não crente é santificado pelo convívio com a esposa crente e a esposa não crente é santificada pelo convívio com o marido crente, caso não fosse assim os filhos seriam impuros, mas ao contrário, são santos (1 Co 7.10-14).

            No texto de Gênesis também é dito que a violência passou a ser algo predominante. Alguns homens descendentes das famílias mistas da linhagens de Set e Caim tiveram elevada estatura e tornaram-se famosos, a fama deles advinha de uma postura violenta. A terra estava corrompida e cheia de violência (v.11). Vemos aqui por esse texto duas verdades sobre o pecado:

a) O pecado é progressivo. O crescente pecado na humanidade pré-diluviana nos mostra que o pecado tende a crescer na sociedade quando se despreza os meios da graça comum de Deus. O Senhor por meio de homens justos como Noé lhes anunciava o que era correto. Mas desprezavam a repreensão divina, por isso diz o Senhor: "O Meu espírito não agirá apra sempre com o homem, pois este é carnal" (v.4).

b) O pecado atrai a ira divina. No texto vemos a justiça divina sendo aplicada gradualmente. Ele diminue o tempo de vida do ser humano para 120 anos (v.4) e depois revela seu propósito justo de punir a humanidade (v.5, 6 e 13). A Bíblia utiliza uma linguagem bem humana para se referir à Deus para que possamos entender a mudança que ocorreu desde a criação quanto ao relacionamento de Deus com o homem. Estritamente falando não há arrependimento em Deus. "Também a Glória de Israel não mente, nem se arrepende, porquanto não é homem, para que se arrependa" (I Samuel 15:29); "...porque os dons e a vocação de Deus são irrevogáveis". (Romanos 11:29).

            O Senhor revelou ao seu servo Noé que puniria a humanidade com o dilúvio. Atualmente as pessoas gostam de pensar em Deus apenas como aquele que abençoa, e não é raro vermos cristãos proferindo bênçãos de Deus para os ímpios. Isso deve estar em nós como desejo de nossos corações, que tais pessoas se arrependam de seus pecados e possam então ususfruir das dádivas divinas. Mas também temos que anunciar que a ira divina paira sobre a cabeça do ímpio, em Romanos 1.18 está escrito: "A ira de Deus se revela do Céu contra toda impiedade e perversão dos homens que detêm a verdade pela injustiça". Não esqueça, Deus é contra o ímpio, ainda que pela sua graça comum lhe conceda as bênçãos naturais, o Sol, o ar, o alimento, a saúde. E porque não dizer também a prosperidade?

            Mas a graça de Deus também é revelada nesse texto.




II - A graça de Deus para a humanidade pré-diluviana, v. 8-22.
8 Porém Noé achou graça diante do SENHOR.

9 Eis a história de Noé. Noé era homem justo e íntegro entre os seus contemporâneos; Noé andava com Deus.

10 Gerou três filhos: Sem, Cam e Jafé.

11 A terra estava corrompida à vista de Deus e cheia de violência.

12 Viu Deus a terra, e eis que estava corrompida; porque todo ser vivente havia corrompido o seu caminho na terra.

13 Então, disse Deus a Noé: Resolvi dar cabo de toda carne, porque a terra está cheia da violência dos homens; eis que os farei perecer juntamente com a terra.

14 Faze uma arca de tábuas de cipreste; nela farás compartimentos e a calafetarás com betume por dentro e por fora.

15 Deste modo a farás: de trezentos côvados será o comprimento; de cinqüenta, a largura; e a altura, de trinta.

16 Farás ao seu redor uma abertura de um côvado de altura; a porta da arca colocarás lateralmente; farás pavimentos na arca: um em baixo, um segundo e um terceiro.

17 Porque estou para derramar águas em dilúvio sobre a terra para consumir toda carne em que há fôlego de vida debaixo dos céus; tudo o que há na terra perecerá.

18 Contigo, porém, estabelecerei a minha aliança; entrarás na arca, tu e teus filhos, e tua mulher, e as mulheres de teus filhos.

19 De tudo o que vive, de toda carne, dois de cada espécie, macho e fêmea, farás entrar na arca, para os conservares vivos contigo.

20 Das aves segundo as suas espécies, do gado segundo as suas espécies, de todo réptil da terra segundo as suas espécies, dois de cada espécie virão a ti, para os conservares em vida.

21 Leva contigo de tudo o que se come, ajunta-o contigo; ser-te-á para alimento, a ti e a eles.

22 Assim fez Noé, consoante a tudo o que Deus lhe ordenara.

            O conceito da graça divina aparece já no capítulo 3 de Gênesis, mas aqui no v. 8 do cap. 6 aparece pela primeira vez na Bíblia a palarva "graça". "Noé achou graça diante do Senhor" (v.8). Embora ele fosse um homem justo, não foi escolhido por Deus por conta de sua justiça, mas porque aprouve ao Senhor. Em sua graça Deus escolheu Noé para preservar o gênero humano e estabelece uma aliança com Ele de característica unilateral. Nesses versículos pode ser notado algumas características da graça divina. O Senhor age soberanamente condenando quem quer e continua sendo justo e santo. Também salva a quem quer (v. 17 e 18). O texto não fala sobre o procedimento dos familiares de Noé, de suas noras por exemplo, mas não importa, é por graça que entram na arca, é por graça que são salvas. E o Senhor é soberano em Sua graça.

            Quanto a Noé vemos que o Senhor lhe concedeu em sua graça a bênção da sua presença. Ele andou com Deus (v.9): Assim como aconteceu com Enoque: Ele obedecia a Deus, ele amava a Deus, e ele conhecia a Deus. Se relacionava com Ele. Pela fé Noé obedeceu a Deus em tudo, e assim construiu a Arca, e por isso há acerca dele uma menção elogioso em Hb 11:7:" "Pela fé, Noé, divinamente instruído acerca de acontecimentos que ainda não se viam e sendo temente a Deus, aparelhou uma arca para a salvação de sua casa; pela qual condenou o mundo e se tornou herdeiro da justiça que vem da fé". Quem crê obedece!

            Noé não se deixou influenciar pelo deboche dos ímpios, não seguiu a maioria para o mal, mas creu ainda que ridicularizado. A graça do Senhor o capacitou.


            Pela graça divina ele foi instrumento para salvação de sua família. Lutou pelos seus. De igual modo devemos agir, lutar pelos nossos familiares, influenciá-los para o bem para que sejam livres do pecado e de suas consequências.



Aplicações
1. Jovens, é extremamente importante que ao procurar alguém para casar, levem em consideração a obediência à Palavra. Relacione-se com alguém que ama ao Senhor, que se submete a Ele assim como você o faz.

2. Ao anunciar o evangelho você pode falar sim da ira divina. Se você fala de forma amorosa, embora a verdade possa ser difícil de ouvir, mas as pessoas perceberão nisso o seu amor.

3. Que pela graça do Senhor tenhamos uma fé viva. Tiago diz: "Porque, assim como o corpo sem espírito é morto, assim também a fé sem obras é morta". Se você à semellhança de Noé crer contra as circunstâncias, então também à semelhançça dele obedecerá contra as circunstâncias.

4. Que você possa louvar à Deus pela Sua graça manifesta em sua vida!




Conclusão
            A ira divina é uma realidade, mas a graça também. Que como Noé possamos valorizar a graça divina pondo em prática sua vontade revelada. Que sejamos instrumentos do Senhor em prol de nossa família e para anunciar Jesus como aquele que perdoa e livra o homem da reta jutiça de Deus sobre sua vida.

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