Gênesis 2.4 - 3.24 A QUEDA DO HOMEM

Introdução 

           Quando se fala de pecado, e do primeiro pecado do homem especificamente, as pessoas são levadas a trazer à mente aquilo que socialmente absorveram como sendo mais marcante. Por isso e por fruto de educação teológica católica romana as pessoas tendem a trazer à mente que o primeiro pecado do homem teve alguma referência à questão sexual. Nada mais enganoso a respeito.
           Outra observação a ser feita é a dificuldade de encararmos nossos pecados. Para ilustrar um pastor relatou que foi procurado em gabinete por uma pessoa de sua congregação: “Outro dia um senhor veio ao meu gabinete e por quase meia hora me falou de sua mulher insuportável. Escutei com paciência. Depois lhe pedi: Amigo, fale agora mais 20 minutos sobre os seus próprios erros! O homem emudeceu. Cinco minutos de constrangedor silêncio, então pediu um copo de água. Fui buscar a água e ele a tomou. Depois, mais um período de silêncio. Por fim ele falou: Pastor, vamos falar de algo mais agradável!”
           Passemos então a analisar o texto em questão e prestemos atenção sobre o que ele nos diz sobre o pecado. 


I – A VIDA DO HOMEM ANTES DO PECADO, Gn 2.15, 20, 24.  

E tomou o Senhor Deus o homem, e o pôs no jardim do Éden para o lavrar e o guardar.
E chamou Adão o nome de sua mulher Eva; porquanto era a mãe de todos os viventes.
Portanto deixará o homem o seu pai e a sua mãe, e apegar-se-á à sua mulher, e serão ambos uma carne.

           Antes do pecado o homem vivia em estado harmônico perfeito em todos os seus relacionamentos. A comunhão com Deus era plena. Em termos teológicos dizemos que ele se encontrava em um estado de inocência. Não havia pecado, apenas a possibilidade de pecar. O homem se encontrava em um teste de fidelidade diante de Deus, e nesse teste ele tinha a liberdade de não pecar, foi o único momento da história humana que ele verdadeiramente teve livre-arbítrio, pois não tinha natureza pecaminosa que o levasse inevitavelmente ao pecado.
           Há também neste texto um mandato cultural no que diz respeito ao trabalho, e o homem era plenamente realizado em seu trabalho, v. 15. O trabalho tem origem na determinação divina para o homem, e portanto, naquele estado em que o pecado não interferia havia plena realização no que tange também ao trabalho. Hoje evidentemente as coisas são diferentes, conquanto o trabalho traga realização para alguns, trará infortúnios para outros.  
           Há também no v. 15 uma implicação para a atualidade no que diz respeito à ecologia. “Guardar” pode muito bem nos trazer a ideia de preservação ambiental. Nós cristãos não costumamos pensar muito a respeito de ecologia, mas devemos lembrar que mais do que qualquer outros deveríamos ser ecologicamente corretos, pois entendemos que o Senhor nos outorgou a responsabilidade de cuidar da criação. 
           No v. 20. Vemos que o homem também foi posto em estado de autoridade para com as demais criaturas de Deus. No costume hebraico a ideia de dar nome implica autoridade por parte daquele que nomeia. Tudo isso ressalta o homem como coroa da criação e Deus.
           Há o início da instituição família e a perfeita harmonia entre os cônjuges: “uma só carne”. Esta expressão significa mais do que relação sexual, tem a implicação de comunhão. Como não poderia ser diferente sem o pecado, havia plena compreensão entre o casal, plena realização psicológica, sentimental e sexual (o texto bíblico nada diz a respeito explicitamente, mas podemos presumir).


II – O PECADO ORIGINAL, OU PRIMEIRO PECADO, 3.1-9.

Ora, a serpente era mais astuta que todas as alimárias do campo que o SENHOR Deus tinha feito. E esta disse à mulher: É assim que Deus disse: Não comereis de toda a árvore do jardim?
E disse a mulher à serpente: Do fruto das árvores do jardim comeremos,
Mas do fruto da árvore que está no meio do jardim, disse Deus: Não comereis dele, nem nele tocareis para que não morrais.
Então a serpente disse à mulher: Certamente não morrereis.
Porque Deus sabe que no dia em que dele comerdes se abrirão os vossos olhos, e sereis como Deus, sabendo o bem e o mal.
E viu a mulher que aquela árvore era boa para se comer, e agradável aos olhos, e árvore desejável para dar entendimento; tomou do seu fruto, e comeu, e deu também a seu marido, e ele comeu com ela.
Então foram abertos os olhos de ambos, e conheceram que estavam nus; e coseram folhas de figueira, e fizeram para si aventais.
E ouviram a voz do Senhor Deus, que passeava no jardim pela viração do dia; e esconderam-se Adão e sua mulher da presença do Senhor Deus, entre as árvores do jardim.
E chamou o Senhor Deus a Adão, e disse-lhe: Onde estás?

           O ser humano é posto em teste, havia a ordem para eles não comerem da árvore do conhecimento do bem e do mal (2.16, 17). Naquele teste Adão estava representando todo o gênero humano. 
           No entanto, são tentados. O Diabo por meio da serpente encontra uma brecha, uma forma de pôr dúvida na mente de Eva a respeito da bondade de Deus. Tenta-os insinuando que não deviam mais se contentar com a condição de criatura, que deveriam saber tanto quanto o criador. 
           Com o pecado consumado, vemos nos v. 8-13 que houve quebra de comunhão com Deus. Adão e Eva não mais conseguem confiar na misericórdia e no amor de Deus. E Isto é o que ocorre com quem decide tomar as rédeas da vida e do mundo em suas próprias mãos, não mais consegue confiar senão em si mesmo. Em vez de confiança há medo de Deus. Adão e Eva se escondem. Melhor se pudessem fugir da presença de Deus. Mas não há possibilidade de fuga: o ser humano deve, como imagem de Deus, responder a Deus pelos seus atos. O homem tenta empurrar a responsabilidade para a companheira e, no fundo, para o próprio Criador que lhe deu esta mulher; a mulher tenta empurrar a culpa para a serpente que Deus criou. O mesmo acontece hoje, com muita frequência tentamos justificar nossos pecados, seja buscando racionalizar que temos razão, seja culpando as circunstâncias do momento do pecado, seja colocando a culpa em outra pessoal.
           Consequências da queda segundo a doutrina reformada: 1. Todos os seres humanos a partir de Adão nascem com a culpa de seu pecado. 2. Todos os seres humanos passam a nascer pecadores, herdam uma natureza pecaminosa. Já não é possível viver sem pecar.


III – AS CONSEQUÊNCIA DO PECADO, 3.14-24.

Então o Senhor Deus disse à serpente: Porquanto fizeste isto, maldita serás mais que toda a fera, e mais que todos os animais do campo; sobre o teu ventre andarás, e pó comerás todos os dias da tua vida.
E porei inimizade entre ti e a mulher, e entre a tua semente e a sua semente; esta te ferirá a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar.
E à mulher disse: Multiplicarei grandemente a tua dor, e a tua conceição; com dor darás à luz filhos; e o teu desejo será para o teu marido, e ele te dominará.
E a Adão disse: Porquanto deste ouvidos à voz de tua mulher, e comeste da árvore de que te ordenei, dizendo: Não comerás dela, maldita é a terra por causa de ti; com dor comerás dela todos os dias da tua vida.
Espinhos, e cardos também, te produzirá; e comerás a erva do campo.
No suor do teu rosto comerás o teu pão, até que te tornes à terra; porque dela foste tomado; porquanto és pó e em pó te tornarás.
E chamou Adão o nome de sua mulher Eva; porquanto era a mãe de todos os viventes.
E fez o Senhor Deus a Adão e à sua mulher túnicas de peles, e os vestiu.
Então disse o Senhor Deus: Eis que o homem é como um de nós, sabendo o bem e o mal; ora, para que não estenda a sua mão, e tome também da árvore da vida, e coma e viva eternamente,
O Senhor Deus, pois, o lançou fora do jardim do Éden, para lavrar a terra de que fora tomado.
E havendo lançado fora o homem, pôs querubins ao oriente do jardim do Éden, e uma espada inflamada que andava ao redor, para guardar o caminho da árvore da vida.

            Nos vv. 24 e 23 lemos: expulsou o homem e o lançou fora do jardim do Éden. Parece até manchete de jornal sobre mais um sem-terra. E não seria este casal o primeiro entre os sem-terra, mesmo estando só no mundo. Foram despejados e o caminho de volta está definitivamente interditado (v. 24).
           v. 19b: porque tu és pó e ao pó tornarás! Está aqui a realidade da morte física como consequência do pecado. E a realidade da morte levanta perguntas em nós a respeito de nossa finitude: O que eu sou? Para onde irei? Qual a razão da minha existência? A estas perguntas muitos filósofos se debruçaram, mas é a Revelação divina que traz a resposta definitiva.
           Os vv. 17 a 19 apontam para outra realidade cheia de aflição: No suor do rosto comerás o teu pão, o sofrimento humano como consequência do pecado. Não é esta a experiência de 90% da humanidade que, em fadigas mil, mal obtém o seu sustento? Do pai de família que levanta da mesa com fome e vai ao serviço, a fim de que os filhos tenham mais para comer? Do agricultor que trabalhou de sol a sol e vê sua safra frustrada? Da mulher, com 4 filhos, abandonada pelo marido?
           Por falar em marido, o v. 16 diz à mulher: ele reinará sobre ti. Que contraste com Gn 2.24! É indescritível: Antes do casamento se amavam como dois passarinhos. No início da primeira gravidez da esposa ele dizia: Se pudesse sentir por ti este mal-estar! Mas agora, qual déspota, domina a esposa que, em vez de auxiliadora (Gn 2.18), se transformou em escrava submissa. Seu desejo orientado para o marido não é satisfeito, mas tratado com esporas. E não há delegacia da mulher que resolva ou abrande este fato. Apenas pode constatá-lo.
           Numa madrugada de segunda-feira uma mulher já está lavando roupa, quando o filho chega em casa, voltando do prostíbulo onde passara a noite com amigos. Diz a mãe: Meu filho, quando você nasceu eu pensei que as dores de parto fossem a maior dor que passaria por você. Mas esta noite descobri que não o foi. Por que, meu filho, preciso passar tanta dor? (v. 16). Dor, angústia desespero, aflição passam a ser constitutivos da existência humana.


IV – A PROMESSA DA REDENÇÃO, V. 15.

           Temos aqui o que é chamado de proto-evangelho, ou primeiro evangelho.
"Porei inimizade entre ti e a mulher, entre a tua descendência e o seu Descendente. Este te ferirá a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar”. Gênesis 3.15
           A mais antiga promessa - o texto de Gênesis 3.15 pode ser considerado a mais antiga promessa de Deus ao homem caído. Depois do pecado e antes de qualquer outra providência histórica, o Senhor Deus prometeu ao homem e à mulher que o seu resgate viria do seu Descendente. 
           Na verdade, essa não foi uma promessa diretamente dada a Adão, senão à serpente e por detrás dela a Satanás, visto ser o complemento da palavra de maldição àquele que fora o incitador do pecado. 
           Foi assim que a redenção deu o seu primeiro sinal de vida dentro da história humana, afirmando ao homem que Deus, apesar do pecado do homem, haveria de providenciar o resgate do mesmo. Esse é o centro de toda a vida cristã e o foco do relacionamento de Aliança entre Deus e o homem. 


Conclusão

          O homem foi expulso do paraíso, mas Deus veio a este homem caído e o resgatou em Cristo, Na sua morte a cortina que separava o Santo dos Santos do Lugar Santo, foi rasgada de cima abaixo (Mt 27.51). “Portanto, irmãos, temos plena confiança para entrar no Santo dos Santos pelo sangue de Jesus, por um novo e vivo caminho que ele nos abriu por meio do véu, isto é, do seu corpo. Temos, pois, um grande sacerdote sobre a casa de Deus. Sendo assim, aproximemo-nos de Deus com um coração sincero e com plena convicção de fé, tendo os corações aspergidos para nos purificar de uma consciência culpada, e tendo os nossos corpos lavados com água pura. Apeguemo-nos com firmeza à esperança que professamos, pois aquele que prometeu é fiel” (Hb 10.19-23).

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