Marcos 9.14-29 - A QUEM BUSCAREI? BUSCAREI AQUELE QUE PODE ME OUVIR

Introdução

           Dentre tantas as reflexões que podemos fazer na atualidade sobre a vida da igreja de Cristo encontram-se algumas perguntas constrangedoras a serem respondidas. Por que a igreja se mostra tão incapaz diante da necessidade espiritual no contexto no qual ela está inserida? Por que a espiritualidade dos cristãos em sua maioria tem se encontrado tão medíocre e os mesmos destituídos de poder espiritual? Por que tanta decepção com a igreja por parte daqueles que dela se aproximam? E como viver uma vida de fé de forma genuína diante de um contexto deturpador do que é fé e do que seja vida com Deus? Não tencionamos dar todas as respostas dessas e outras perguntas que podem ser feitas, longo e árduo seria este trabalho, mas por enquanto vejamos o que nos diz este texto.


Elucidação 

           Em nosso texto os discípulos de Jesus estão voltando da transfiguração, no monte Tabor. É uma descida de mais ou menos 3 km. Ao chegar em baixo veem a multidão que tinha vindo aos discípulos que ali estavam. Havia ali um menino que precisava de ajuda, pois não podia falar, dominado por um espírito mau (pneu/ma a;lalon). O pai já tinha recorrido aos discípulos, mas não houve libertação. Os escribas estavam aproveitando para travar discussão com os discípulos. E Jesus chega no momento exato desta discussão. O texto nos leva a refletir na busca por alívio de um pai, na decepção sofrida diante da impotencialidade dos discípulos, na própria falta de fé desse pai e finalmente nos traz a dica de Jesus para que seus discípulos possam estar vencendo suas debilidades diante dos desafios espirituais, diante da ofensiva maligna.


I – A FÉ INOPERANTE DOS DISCÍPULOS, V. 14-18.

           Vemos nesses versículos que os discípulos estavam em discussão com os escribas. Obviamente esses escribas estavam interessados no fracasso dos discípulos. Os discípulos na verdade estavam perdendo tempo frivolamente em tal discussão. Estavam com certeza muito interessados em dar explicações, quem sabe envolvidos em debate teológico infrutífero, e o pior, talvez também motivados por razões nada louváveis. No contexto próximo vemos no v. 34 o quanto eles almejavam a fama, o sucesso, o poder; e aquele episódio foi bastante humilhante para eles. Então se esforçavam pra explicar o fracasso de não terem conseguido expulsar o demônio daquele rapaz.  
           Semelhantemente às vezes estamos como igreja ficando apenas na teoria, gastamos tempo com discussão teológica de temas não fundamentais à fé, enquanto há muitas pessoas oprimidas pelo diabo necessitando de socorro espiritual. Acabamos então exercendo uma fé inoperante, e perdidos muitas vezes em uma espiritualidade vazia, falta-nos a condição de sermos instrumentos do Senhor, o que sobra é a inútil tentativa de explicar, de tentar nos autojustificar em nossa mediocridade.
           No v. 18 o texto nos relata que o menino apresentava sintomas epiléticos. Devido a isso há aqueles que não acreditam se tratar aqui de uma possessão demoníaca. Na verdade o menino estava possesso por demônio, e como característica apresentava sintomas epiléticos. A opressão maligna em termos de possessão é uma verdade bíblica, e não pode ser desconsiderada, embora saibamos que muitas vezes as pessoas queiram ver possessão onde não existe. Mas nos fala o texto do fracasso dos discípulos: “mas eles não conseguiram, não puderam” - Eles não têm a força para lidar com este caso. (Veja Mt 17.16; Lc 9.40). Isto foi uma tragédia. Imagine você crendo que tinha recebido um poder especial para expulsar demônios e curar pessoas, de repente não funciona. Você se acha capaz, mas, de fato, não é. Isso aconteceu aqui. O poder não estava nos discípulos, mas no Senhor que “empodera” os discípulos. Estavam também com certeza tomados pela vergonha e sensação de impotência diante daquele quadro, eles tinham recebidos da parte do Senhor poder para expulsar demônios: “Então, designou doze para estarem com ele e para os enviar a pregar e a exerce autoridade de expelir demônios” (Mc 3.14-15). Mas agora é demonstrada a sua incapacidade, a fé deles mostra-se ineficaz, inoperante. Bastou Jesus se afastar um pouco e os discípulos encontraram-se em apuros. Acontecerá o mesmo conosco se esquecermos que o poder não é nosso, que dependemos d’Ele, que sem Ele nada podemos fazer.
           Assim como se decepcionaram com os discípulos muitos se decepcionarão hoje com os discípulos atuais de Jesus. Alguns dos que procuram a igreja desejam encontrar um lugar onde haja paz. Outro deseja ardentemente ser aceito, ser amado. Procuram, enfim, auxílio de múltiplas maneiras. E o que acontece? Qual é a situação da Igreja? Procuram paz e encontram desunião, intrigas até entre nós pastores. Procuram amor e encontram desconfiança. Procuram alento e encontram meramente palavras sem ação. Procuram uma práxis e encontram teoria. Queira Deus que estas não sejam as únicas coisas que se descobre na Igreja. Mas, se olharem apenas para nós o resultado sempre será: ... e não puderam, porque não podemos mesmo. Sabemos que muitos hoje se encontram decepcionados com a igreja, em sentido de comunidade local, e há de fato razões para isso; e quanto mais os cristãos estiverem distanciados da semelhança de Cristo, mais decepcionante a igreja será.


II – A FÉ VACILANTE DO PAI DO MENINO, V. 19-27.

           Como mostra a expressão de Jesus no v. 19 mesmo os discípulos são tidos como faltosos na fé. O que fica claro é que o poder do Senhor não depende da fé ou da falta de fé que as pessoas apresentam. Ele é o Senhor, acima de tudo e de todos. E a ele podemos sempre recorrer.
           v. 22 “Mas se o senhor pode” – Jesus tinha pedido (versículo 21), a história do caso, como um médico faria hoje em dia. O pai contou e acrescentou os detalhes sobre o fogo e a água. O fracasso dos discípulos, não tinha destruído totalmente a sua fé no poder de Jesus, embora a forma condicional “se tu podes alguma coisa” declara que a fé daquele homem ainda é vacilante, imatura. Havia esperança, mas a confiança ainda era muito míope, diferente do leproso de que disse: “Senhor, eu sei que o senhor pode me curar se quiser” (Mc 1.40). Com Jesus a condição que devemos expressar não é “se tu podes”, mas “se tu queres”. 
No v. 23 que traz a mensagem de que todas as coisas são possíveis a quem crê, mas o poder não está no pai (que crê) mas em Jesus. Assim como o poder não está na fé, mas no Senhor em quem a fé se apega. Por isso não dá pra colocar a “fé para trabalhar”, “trabalhar a fé” como se grita aos microfones hoje em dia. A fé é fé. Dom do Espírito Santo e sozinha nada pode. A fé confia no Senhor, que sim, pode todas as coisas. 
           As pessoas são tendenciosas a crer em tanta coisa. Crêem em si mesmas, crêem em outras pessoas, no progresso, na vitória do bem que está em algum lugar dentro do homem, crêem em tudo de forma enganosa.  Mas basta tão somente crer em Jesus. O caso é que percebemos que a fé em Deus não pode ser substituída por fé em nenhuma coisa deste mundo. E nós encontramos desculpas. Um diz: “Eu sou um homem inteligente e este negócio de crer não combina bem com a minha inteligência! Afinal sou um homem esclarecido! Não, não posso crer!” Outro talvez diga: “Eu gostaria de crer, mas lamentavelmente não tenho vocação religiosa”. Um conhecido pregador e teólogo, Dietrich Bonhoeffer, diz sobre isso que não se trata de não poder crer, e sim, unicamente de não querer crer. Crer significa confiar em Deus incondicionalmente. E nós sempre de novo queremos impor condições. Fé é confiar inteiramente em Deus. Mas ainda assim, aparentemente paradoxalmente, a verdadeira fé não é obra humana, mas graça divina, que se encontrará no homem pela ação do Espírito Santo na sua vida.
           A atitude de condições impostas explicita falta de fé. No contexto evangélico muito já falou de fazer prova de Deus, mas muitas vezes isso está denotando a falta de fé da pessoa. Para nós o maior problema não é debilidade da fé, mas a falta de sinceridade de admiti-la. Que você possa ser sincero(a) com o Senhor e confessar a ele a debilidade de sua fé.


III – A INSTRUÇÃO DE JESUS PARA UMA VIDA VITORIOSA NA FÉ, V. 28-29.

           Nos v. 28 e 29: Temos aí um acréscimo à cura descrita acima, uma espécie de instrução aos discípulos. É uma cena curiosa e de difícil explicação. Os discípulos querem entender o motivo do seu fracasso. Jesus responde que essa casta, tipo, no grego GENOS não poderia sair senão por meio de oração. Algumas traduções bíblicas acrescentam jejum, mas os manuscritos mais antigos não têm o termo que se refere ao jejum, portanto as melhores traduções desse texto são aquelas que mantêm apenas “oração”. O que seria essa casta? O que Jesus de fato afirmou para os discípulos? Tratava-se de uma espécie de demônio especialmente difícil de expulsar? Deve ser dada uma receita adicional para o exorcismo desta casta? Respondermos que não, pois se assim fosse não estaria de acordo com o tema central do texto: Tudo é possível ao que crê. 
           Como interpretar esses versículos finais? A explicação mais plausível é a que Barth oferece: Fé, nas narrativas de cura, é o pedir confiante. Neste sentido fé e oração se interpenetram mutuamente. A atitude de fé te realiza na oração que pede confiantemente. O evangelista, portanto, retoma, com a instrução aos discípulos (v.29), mais uma vez ao tema dos versículos 23 e 24, ou seja, ao tema da fé. (Barth, p.190).
           Portanto, uma vida vitoriosa na fé é aquela que vive uma verdadeira espiritualidade, nos alimentado espiritualmente com a Palavra, buscando ao Senhor em oração, vivendo a espiritualidade não do “vale” (geografia do local onde estavam os nove discípulos) em discussões infrutíferas, mas vivendo com momentos de comunhão com o Senhor enfatizado por Jesus aqui na vivência da oração constante, a espiritualidade do monte, onde se encontrava Pedro, Tiago e João com Jesus (9. 2-8). 


Aplicações

1. Assim também pode acontecer nos dias de hoje: (a) discípulos incrédulos, incapazes de uma intercessão eficaz, essa é nossa realidade. A Palavra de Deus nos diz que não sabemos orar como convém. “Também o Espírito, semelhantemente, nos assiste em nossa fraqueza; porque não sabemos orar como convém, mas o mesmo Espírito intercede por nós sobremaneira, com gemidos inexprimíveis”. (Rm 8.26)
(b) pessoas vacilantes ao apresentar suas necessidades diante de Deus. Há muita falta de fé, de confiança real, verdadeira, de um colocar-se incondicionalmente nas mãos do Senhor, no entanto, quando a pessoa de fato crer que Jesus pode, quando há uma entrega total e incondicional ao Senhor, há mudança radical na vida da pessoa, Jesus liberta, assim como libertou aquele rapaz da opressão maligna. Jesus desceu de sua glória para habitar entre nós e continuar fazendo o impossível para nos libertar e dar vida em plenitude.

2. Qual a sua dor? Apresente-a diante de Deus na honestidade e transparência de sua pequena fé. Não tente aparentar bravura quando está quebrantado, demonstrar valentia, quando está fraco. Quanto a essa questão da nossa fraqueza não tentemos vencê-la através de ainda mais atividades e novos empreendimentos, se ativismo significasse poder espiritual a igreja de nossos dias seria muito cheia do poder, no entanto não é isso o que acontece. Que possamos confiar inteiramente naquele que nos aceita apesar dos nossos constantes fracassos. Oremos sem cessar e com toda humildade: Creio Senhor, ajuda-me na minha falta de fé!

3. Que promessa magnífica! Tudo é possível ao que crê. Na fé podemos participar na vitória daquele que é o Senhor da vida. Na fé todas as forças da morte que diariamente nos atacam não prevalecerão contra nós. Na fé somos vencedores. Paulo chega a dizer que somos mais que vencedores por meio daquele que nos amou (Rm 8.37). 


Conclusão

           Diante de tantas dúvidas existenciais nos corações daqueles que servem ao Senhor, diante dos fracassos que vivenciamos como igreja e individualmente, diante dos sofrimentos que nos sobrevém de todos os tipos; devemos a semelhança daquele pai buscar aquele que traz paz ao coração, que em sua presença e em dependência na iluminação do Espírito Santo para compreender Sua Palavra podemos então viver como igreja vitoriosa, e isto não significa igreja que faz estardalhaço, que aparece na mídia, mas que vence o pecado a transmite a mensagem de Cristo aos oprimidos. 

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