MINISTÉRIO PASTORAL FEMININO E PRAGMATISMO DAS IGREJAS CONTEMPORÂNEAS


PREFÁCIO

           A questão do ministério pastoral feminino é um tema atual e que toca a vida prática da igreja. Procurei então abordar este assunto sabendo que muitos não concordarão com as conclusões às quais chegaria, independentemente de quais fossem elas, isso se deve à natureza polêmica do tema. Meu intento diante de um assunto tão vasto foi examinar a questão biblicamente, para descobrir se há fundamento bíblico para a aceitação do ministério pastoral feminino, e como em sua história a igreja o encarou, e se a aceitação em nossos dias se baseia em seguir os ditames das Escrituras ou em algo mais.
           Há pessoas que dirão que este é um assunto de pouca importância para a igreja. No entanto, é algo que fala da vida prática dos crentes em Cristo no que diz respeito ao desenvolvimento dos seus dons, particularmente daqueles necessários para pastorear vidas. Assim sendo, é um assunto de grande relevância.
           Escolhi pesquisar este assunto devido minha própria necessidade de me posicionar mais firmemente a respeito, até então confesso não ter pensado seriamente sobre este tema da teologia bíblica. Procurei na medida do possível utilizar uma linguagem simples, mas não simplória, de modo que a leitura seja agradável a todos, tanto a estudantes de teologia como a leigos.
           Na pesquisa bibliográfica tive oportunidade de examinar material igualitarista, daqueles que enxergam igualdade entre os gêneros em todos os sentidos e negam a submissão feminina, a liderança masculina no lar e na igreja, bem como apóiam o pastorado feminino. Pesquisei também material complementarista, ou seja, daqueles que apóiam o ponto de vista oposto, isto é, submissão feminina, diferença entre os gêneros, liderança masculina no lar e na igreja e que consequentemente discordam do ministério pastoral feminino. Além da pesquisa bibliográfica tive oportunidade de realizar algumas entrevistas com pastores batistas, entrevistas presencial nas quais puderam expressar verbalmente e por escrito seus pontos-de-vista.
           Esforcei-me por ser o mais indutivo possível, partindo dos textos, analisando a prática se estão em consonância com os mesmos para somente então chegar às minhas conclusões.

  

I. HISTÓRIA DO MOVIMENTO FEMININO E SEU REFLEXO NA IGREJA

           Para entendermos o pensamento do nosso tempo sobre o ministério pastoral feminino é necessário avaliarmos o pragmatismo existente dentro das práticas das igrejas, bem como a história do movimento feminista. Por enquanto, vejamos como ocorreu o caminhar dos direitos da mulher em nossa sociedade ocidental e que reflexos isso produziu na teologia evangélica assim como nas igrejas cristãs.

1. As origens do movimento feminista
           Em uma sociedade de cultura machista e patriarcal, a mulher era considerada na prática como inferior aos homens. Houve épocas em que elas não tinham os mesmos direitos civis, não votavam nem podiam ser votadas. Uma maioria esmagadora não tinha profissão. Estavam sempre sujeitas a algumas autoridades, quando solteiras deviam obediência aos pais, casavam geralmente muito jovens, então passavam a estar sob uma nova autoridade, o marido. Seu papel social era de mãe e esposa. Seus erros sempre eram considerados como intoleráveis pela sociedade, ainda que homens estivessem incorrendo nos mesmos sem sofrerem maiores danos.
           É contra toda esta situação que a partir do século dezoito algumas mulheres intelectuais começaram a lutar pelos direitos da mulher. A primeira destas foi Mary Woclstonecraft, que escreveu “A vindication of the rights of woman” (A vindicação dos diretos da mulher). Outras foram: Olimpe de Gouges, que publicou um panfleto intitulado “Le droits de La femme” (Os diretos da mulher); Judith Surgent Murray, “On the equalith of the sexes” (Sobre a igualdade dos sexos). Outras pensadoras foram Frances Wright, Sarah Grinke, Sojorner Truth, Elizabeth Cady Stanton, Susan B. Anthony e Hariet Taylor. O filósofo John Stuart Mill também colaborou com o movimento feminista.
           No século XIX, precisamente no ano de 1848 em uma convenção em Sêneca Faulls, Nova York, houve a ratificação do importante documento feminista “Declaração dos sentimentos”. Esta declaração lutava pelos direitos da mulher de galgar posições na sociedade quanto a empregos melhores e receber salário igual ao dos homens pelo trabalho que realizavam. Denunciavam que estavam excluídas de algumas profissões como teologia, medicina e advocacia e não podiam freqüentar as universidades. As autoras desta declaração também denunciavam o duplo padrão de moralidade que havia na sociedade que condenava as mulheres a penas públicas, enquanto os homens não sofriam os mesmos castigos em crimes de natureza sexual. Tais reivindicações evidentemente eram muito justas, e com o tempo elas foram conseguindo algumas conquistas. Passou a haver algumas mudanças na condição legal da mulher dentro do casamento, nos anos 30 começaram a entrar no mercado de trabalho com força competitiva.
           Chegando ao século XX encontramos uma das mais importantes pensadoras do feminismo, Simone deBeauvoir. Ela escreveu “Le deuxiene sexe” (O segredo do sexo), em 1949. Segundo esta filósofa as mulheres foram até então medidas a partir do homem, não com referência a si mesmas. O mundo era dos homens, e confinaram a mulher ao seu mundo reduzido de “cozinha, igreja e filhos”, segunda ela, a mulher estava destinada a existir somente para conveniência e prazer dos homens.
           As mulheres necessitavam por assim dizer de uma libertação na sociedade. Precisavam definir a si mesmas, ter o controle de suas vidas. O mesmo apregoou nos anos 60 a jornalista americana Betty Friedan, que denunciava que as mulheres de seu tempo havia se tornado infantis e frívolas. Ensinadas a buscarem a satisfação apenas como esposas e mães. Afirmou que a mulher estava vivendo um dilema, “um problema sem nome”.
           Foi no final dos anos 60 que a feminista Kate Miller chamou o tal problema sem nome de “patriarcado”. Palavra que vem do grego, pater, que significa pai, e arche, que significa governo. Segundo Miller o patriarcado, este domínio social do macho sobre a fêmea, inferior e subserviente, deveria ser destruído para que pudessem se sentir plenas e íntegras.

2. Movimento feminista dentro da igreja
           A primeira influência do movimento feminista dentro da igreja no que tange à erudição acadêmica ocorreu por meio de Katherine Bliss com seu livro “O trabalho e o status da mulher na igreja” (1952). Sua denúncia era que frequentemente as mulheres exerciam papel de menor importância nas atividades eclesiásticas e evidentemente eram excluídas da liderança e de atividades como ensino, pregação, administração e evangelismo, embora tivessem dons para exercer também essas funções. Defendeu que a igreja deveria reavaliar sua posição sobre o papel da mulher, inclusive sobre sua ordenação.
           A obra de Bliss influenciou algumas ativistas cristãs daquela época que estavam a lutar pelos direitos civis e políticos da mulher. Foram publicados periódicos evangélicos sobre a “síndrome das mulheres limitadas aos papéis da casa e esposa”. Segundo as ativistas cristãs as mulheres ansiavam participar da vida da igreja de modo mais significativo, não era suficiente estarem em atividade concernente à realização de bazares, coleta de dinheiro para os mais necessitados, arrumar a mesa da Santa Ceia, etc.
           No ano de 1961 houve um Concílio Mundial de Igrejas, dentre outros assuntos, a ordenação feminina foi debatido. Foi distribuído um panfleto com o título “Quanto à ordenação das mulheres”, que chamava atenção para um reexame dos papéis da mulher dentro da igreja. A conclusão era que a mulher na igreja precisava de libertação. Era sem dúvida uma influência direta do movimento feminista secular. Este pensamento atingiu a igreja católica, e igrejas evangélicas como metodistas, batistas, episcopais, presbiterianas e congregacionais.

3. Primeiros argumentos em prol da ordenação feminina
           Os feministas cristãos estavam a lutar por uma mudança radical na história da igreja no que concerne à mulher e seus papéis, assim sendo um dos seus argumentos foi justamente acusar as bases históricas da igreja de ter errado proibindo a ordenação feminina. Desse modo, pais da igreja como Clemente de Alexandria, Orígenes, Ambrósio, Crisóstomo, Tomás de Aquino, Lutero, Calvino e outros foram acusados de serem machistas e terem sido influenciados por uma cultura patriarcal na interpretação das Escrituras, e assim viam a mulher como intelectualmente inferior ao homem.
           Outro ataque se deu contra a hermenêutica de sua época e de anteriores com relação aos textos a respeito do papel da mulher. Segundo as feministas os teólogos (homens) distorceram as Escrituras para seus próprios interesses. É curioso notar esta desconfiança para com homens compromissados com a verdade escriturística como os acima expostos.
           A tese mais importante do movimento feminista cristão dos anos 60 era idêntica ao pensamento secular das feministas de então, as mulheres são iguais aos homens em suas emoções, psique, e intelecto, qualquer diferença apresentada seria fruto de condicionamentos culturais, a mulher era igual ao homem inclusive biologicamente.
           Junto com a ordenação para atividades eclesiásticas vieram para basilar tal perspectiva uma mudança na teologia, para se alinhar ao ponto de vista feminista.

4. Uma teologia feminista
           Na realidade a ordenação feminina era apenas parte de uma agenda maior do movimento feminino. Entendiam que a mulher não deveria mais identificar a sim mesma a partir do homem, mas em relação a outras mulheres.
           Na década de 70 o movimento feminista em geral começou se aproximar de movimentos radicais em prol do lesbianismo. Não demorou muito para que surgisse dentro das igrejas grupos de lésbicas “cristãs” que pressionavam para a ordenação de mulheres, lésbicas, e o casamento gay, assim a aceitação de homossexuais como membros ativos da igreja. Kate Miller foi quem deu a maior contribuição para a entrada do lesbianismo no movimento feminista com seu livro “Sexual Politics”, publicado em 1970.
           Para seus propósitos entendiam que a Bíblia até então fora interpretada de forma masculina. A própria Bíblia era um livro que refletia o patriarcado dominante das culturas israelita e grega de sua época, escrita por homens sob o ponto de vista masculino. Desse modo havia necessidade de novas versões que eliminassem o machismo nela exposto, como a referência a Deus de forma masculina, quando na realidade, segundo as feministas, Ele é um espírito sem gênero. Então, versões “inclusivas” das Escrituras não mais se referem a Deus como Pai e chamam Jesus de “a criança de Deus”, em vez de Filho de Deus. No mercado mundial circula dezenas de versões desse tipo. Aqui mesmo no Brasil temos algumas versões inclusivas menos radicais.
           As feministas cristãs passaram na verdade a fazer também uma reinterpretação do cristianismo. Admitindo que a principal característica da mulher é gerar a vida, chegam a conclusão que a religião é melhor administrada por elas do que pelos homens, que é guerreiro, mata e tira a vida. O que elas passaram a fazer foi adotar e cristianizar os cultos pagãos de fertilidade, nos quais celebram as estações do ano, a fertilidade da terra, as colheitas e a geração da vida.
          O passo mais radical do movimento feminino em sua face religiosa deu-se no ano de 1998 nos Estados Unidos. Mais de 800 feministas, gays e lésbicas reuniram-se para discutir a pessoa de Deus, tendo obviamente como ponto de partido suas ideologias. As conclusões a que chegaram são alarmantes, para dizer o mínimo: o Deus de Israel a quem os autores bíblicos chamaram de Javé, na verdade é a deusa grega Sofia. Jesus Cristo não era Deus, mas a encarnação dessa deusa Sofia. Esta deusa é identificada com o ego feminino e pode ser encontrada dentro de qualquer mulher. Nesta nefasta reunião foi até celebrada uma “Ceia” na qual os elementos tradicionais pão e vinho foram substituídos por leite e mel. Conclamaram as igrejas tradicionais a pedirem perdão por se referirem a Deus sempre no masculino, abençoaram os gays e lésbicas e amaldiçoaram os que são contra o aborto.
           Sem dúvida alguma os genuínos cristãos que hoje concordam com a ordenação feminina ao ministério pastoral não estão de acordo com a agenda feminista em suas aberrações como acima foi exposta. Porém, é necessário enfatizar que muitos argumentos utilizados para a defesa da ordenação feminina ao pastorado eram e são utilizados também para a defesa do homossexualismo e lesbianismo na igreja. Ou seja, abre portas sem precedentes.



II. O PAPEL DO HOMEM E DA MULHER NA CRIAÇÃO

                                  Também Deus disse: Façamos o homem à nossa imagem, conforme à nossa semelhança; tenha ele domínio sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus, sobre os animais domésticos, sobre toda a terra e sobre todos os répteis que rastejam pela terra. Criou Deus, pois, o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou. E Deus abençoou e lhes disse: Sede fecundos, multiplicai-vos, enchei a terra e sujeitai-a; dominai sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus e sobre todo animal que rasteja pela terra. (Gn 1.26-28)                                     

           O papel do homem e da mulher dentro da família já ficou estabelecido no momento da criação dos mesmos. No texto citado, fica evidente que ambos foram criados à imagem de Deus, que, portanto, são iguais em dignidade e importância. Também fica é anunciado que cabia a ambos a responsabilidade de dominar sobre todas as formas de vidas já criadas e que deveriam multiplicar para encher a terra. É necessário, no entanto, percebermos que na criação a liderança masculina é revelada como um princípio de Deus para a humanidade como necessária para haver perfeita harmonia nos relacionamentos humanos. Foi Deus quem estabeleceu a liderança masculina. Há algumas razões pelas quais fica evidente que Deus estabeleceu a liderança masculina antes da Queda. 

1. A ordem da criação
“Então, formou o Senhor Deus ao homem do pó da terra e lhe soprou nas narinas o fôlego de vida, e o homem passou a ser alma vivente” (Gn 2.7).                           
           Este texto nos fala da criação do homem, e somente depois trás um relato da criação da mulher (Gn 22.18-23 (extrapola o intento desta pesquisa tratar o porquê há dois relatos sobre a criação do homem). No entanto, é suficiente a aceitação incontestável de que o homem foi criado primeiro. Essa ordem é importante e o apóstolo Paulo chega a usá-la como justificativa teológica para tratar do papel do homem e da mulher na igreja.

2. A representação
           Foi concedido a Adão o papel representativo da raça humana diante de Deus, em vista disso quando Eva peca o gênero humano ainda não é visto como caído, isto só ocorre no momento do pecado de Adão. É dito em 1 Co 15.22: Porque, assim como, em Adão, todos morrem, assim também todos serão vivificados em Cristo”. Foi à ele que Deus chamou para prestação de contas, não a Eva (Gn 3.9).

3. A nomeação
           Deus colocou como missão para Adão nomear suas criaturas (Gn 2.19-20). Percebemos na Bíblia que aquele que nomeia exerce autoridade sobre o que recebe nome. Vemos Deus mudando o nome de Abrão para Abraão (Gn 17.5); Nabuconodosor, rei da Babilônia, deu novos nomes a Daniel e seus três amigos (Dn 1.1-7). A cultura antiga prontamente entendia esse conceito e certamente as Escrituras ao relatar que Adão nomeou sua auxiliadora que Deus lhe deu revela com isso a autoridade dele sobre ela (Gn 2.23).

4. O propósito
           Deus criou Eva para que fosse auxiliadora de Adão: “Disse mais o Senhor Deus: Não é bom que o homem esteja só; far-lhe-ei uma auxiliadora que lhe seja idônea” (Gn 2.18). Auxiliadora não significa inferior, mas tem o sentido de ajudadora. Embora admitamos que um auxiliador possa estar em condições de igualdade ou de superioridade da pessoa auxiliada, no contexto de Gênesis a idéia denota autoridade, e Adão neste caso tinha uma auxiliadora de menor autoridade do que ele.

5. O mistério
“Eis porque deixará o homem a seu pai e a sua mãe e se unirá à sua mulher, e se tornarão os dois uma só carne. Grande é este mistério, mas eu me refiro a Cristo e à igreja” (Ef 5.31, 32).
           O relacionamento conjugal de certo modo simboliza o relacionamento do Senhor com a igreja. Neste relacionamento a igreja deve viver submissa a Cristo, pois é o seu Senhor, semelhantemente Deus estabeleceu que a mulher deve viver em seu relacionamento conjugal submissa ao seu marido: “Porque o marido é o cabeça da mulher, como também Cristo é o cabeça da igreja...” (Ef 5.23).



III. TEXTOS BÍBLICOS UTILIZADOS NO DEBATE SOBRE MINISTÉRIO PASTORAL FEMININO

1. (Jz 4.4-10) - O caso de Débora no Antigo Testamento
                                  Débora, profetisa, mulher de Lapidote, julgava a Israel naquele tempo. Ela atendia debaixo da palmeira de Débora, entre Ramá e Betel, na região montanhosa de Efraim; e os filhos de Israel subiam a ela a juízo. Mandou ela chamar a Baraque, filho de Abinoão, de Quedes de Naftali, e disse-lhe: Porventura, o Senhor, Deus de Israel, não deu ordem dizendo: Vai, e leva gente ao monte Tabor, e toma contigo dez mil homens dos filhos de Naftali e dos filhos de Zebulom? E farei ir a ti para o ribeiro Quisom a Sísera, comandante do exército de Jabim, com os seus carros e suas tropas; e o darei nas tuas mãos. Então, lhe disse Baraque: Se fores comigo, irei; porém, se não fores comigo, não irei. Ela respondeu: certamente, irei contigo, porém não será tua a honra da investida que empreendes; pois às mãos de uma mulher o Senhor entregará a Sísera. E saiu Débora e se foi com Baraque para Quedes. Então, Baraque convocou a Zebulom e a Naftali em Quedes, e com ele subiram dez mil homens; e Débora também subiu com ele. (Jz 4.4-10).
           Alguns igualitaristas recorrem ao relato de Débora no Antigo Testamento para provar que a Bíblia aprova a mulher em papel de liderança na igreja de Deus. O capítulo 4 de Juízes nos trás este relato, que vale apena ser analisado.
           Os argumentos igualitaristas são que Débora julgava o povo naquela época, liderou o povo em Batalha contra Sísera, comandante do exercito do rei de Canaã. Logo, assumia um papel de liderança no Israel daquela época.
           Devemos observar que o livro de Juízes é claro em suas palavras que naquele tempo não havia rei em Israel: “Naqueles dias, não havia rei em Israel; cada um fazia o que achava mais reto” (Jz 21.25). Desse modo, jamais pode ser utilizado o argumento de que Débora governava o povo. Outra forma de entendermos isso é observarmos a palavra hebraica utilizada para julgava em Jz 4.4: “Débora, profetisa, mulher de Lapidote, julgava a Israel naquele tempo”. O verbo hebraico shaphat, “julgar”, não significa nesse contexto reger ou governar, mas decidir controvérsia, deliberar com sabedoria nas questões civis, políticas, domésticas e religiosas entre as pessoas. Fica claro pelo versículo seguinte que o seu julgamento era algo particular, não um julgamento político para toda a nação.
           Quanto à liderança em batalha olhemos para o texto atentamente para ver quem liderou o povo, Débora ou Baraque. Vemos que ela insistiu que ele deveria lidera o povo em batalha, como era ordem divina, v. 6, ela foi à batalha, mas como diz o texto: “subiu com ele” v. 9-10, ou seja, sob a sua liderança. E a Bíblia ainda diz que os homens foram após ele, não após Débora, v. 14. O que fica claro então é que Débora serviu de encorajamento para Baraque, que estava pecando por não assumir sua posição de líder como homem.
           É dito também que Débora era profetisa, v. 4, mas o papel de profetisa não era de uma atividade docente, ela apenas transmitia as mensagens de Deus.

2. As profetisas
           Segundo os igualitaristas os exemplos de profetisas no Antigo Testamento como Miriã, Débora e Hulda podem ser tomados como exemplos para a aceitação de mulheres na liderança hoje.
           É importante entender que a função do profeta era de entregar a palavra do Senhor, sem nada a ela acrescentar, enquanto que aos sacerdotes cabia a responsabilidade de ensinar ao povo de Deus os seus estatutos e seus mandamentos.
“... e para ensinardes aos filhos de Israel todos os estatutos que o SENHOR lhes tem falado por intermédio de Moisés” (Lv 10.11).
                                  A verdadeira instrução esteve na sua boca, e a injustiça não se achou nos seus lábios; andou comigo em paz e em retidão e da iniquidade apartou a muitos. Porque os lábios do sacerdote devem guardar o conhecimento, e da sua boca devem os homens procurar instrução, porque ele é mensageiro do SENHOR dos Exércitos (Ml 2.6, 7).
           Assim como no Antigo Testamento no Novo Testamento as mulheres podem profetizar, porém não lhes é autorizado assumir o papel de mestres, não podem à semelhança dos sacerdotes no Antigo Testamento ensinarem ao povo de Deus, (1 Co 11.5; 1 Tm 2.12; 3.2; Tt 1.6).

3. Em Atos dos Apóstolos
                                  Mas o que ocorre é o que foi dito por intermédio do profeta Joel: E acontecerá nos últimos dias, diz o Senhor, que derramarei do meu Espírito sobre toda a carne; vossos filhos e vossas filhas profetizarão, vossos jovens terão visões, e sonharão vossos velhos; até sobre os meus servos e sobre as minhas servas derramarei do meu Espírito naqueles dias, e profetizarão. (At 2.16-18).
            Baseados neste texto aqueles que defendem a ordenação feminina afirmarmam que no Pentecostes foi abolida toda distinção de gênero, pois o texto afirma que o Espírito, conforme a profecia que se encontra em Joel 2.28-29, haveria de ser derramado sobre “filhos e filhas, servos e servas”, e todos, independentemente de gênero receberiam os dons espirituais para capacitar a igreja ao serviço.
           Devemos, no entanto, observar o texto com mais atenção, ele afirma que independentemente de gênero pessoas terão sonhos e visões, e profetizarão, no entanto, estes dons não estão no Novo Testamento ligados às exigências para o presbiterato ou pastorado. A concessão de dons carismáticos não traz consigo a exigência ou autorização para a ordenação ao ministério. E conquanto o Novo Testamento mencione profetizas (At 21.9; 1 Co 11.5), é ressaltado que elas deveriam orar e profetizar com a cabeça coberta, expressão cultural da época para testificar que elas estavam se submetendo à autoridade (1 Co 11.3-15). Ademais, o “profetizar” no Novo Testamento não se refere a ensino oficial nem doutrinário da igreja.
          As mulheres foram fundamentais nos primeiros dias da igreja primitiva, e pela graça de Deus recebem dons do Senhor juntamente com os homens, sem restrições. Isto, porém, não implica ordenação para elas.
“Ele, pois, começou a falar ousadamente na sinagoga. Ouvindo-o, porém, Priscila e Áquila, tomaram-no consigo e, com mais exatidão, lhe expuseram o caminho de Deus.” (At 18.26)
           Aqueles que defendem o ministério pastoral feminino afirmarão que este texto é uma prova de que havia ministério feminino na igreja do Novo Testamento, pois supõem que Priscila juntamente com seu marido Áquila ao exporem o caminho de Deus a Apolo estavam em pleno exercício do seu ministério, logo, Priscila exercia ministério do ensino. Ora, esse argumento é falaz porque quando atentamos para o texto percebemos que a exposição que eles fizeram a Apolo foi em particular não em público. A proibição bíblica defendida pelos complementaristas é de que as mulheres não podem ensinar à igreja reunida para cultuar, formada por homens e mulheres. A instrução particular, como crentes que estão em conversa cotidiana acerca do Senhor nada encontra de empecilho nas Escrituras.
           Outro argumento utilizado aqui é que, quando algumas vezes que é mencionado o casal, Priscila é mencionada antes de Áquila. Os igualitaristas então afirmam que tal ordem dos nomes significa que Priscila tinha proeminência na igreja, era a líder da equipe ministerial. A verdade é que é difícil afirmar o que a ordem dos nomes significa aqui. Wayne Grudem em seu livro “Confrontando o feminismo evangélico” chega a citar F. F. BRUCE (1973, p. 271) para discutir esta questão:
                                  Paulo geralmente coloca Prisca (Priscila) antes de Áqüila, seu marido; talvez porque tivesse ela a personalidade mais notável dos dois, embora alguns tenham inferido que o nível social dela era superior ao dele. Ela pode ter pertencido [...] a uma nobre família romana, enquanto ele era um judeu oriundo do Ponto, no norte da Ásia Menor” (GRUDEN, WAYNE, 2009, p. 87).
           Desse modo é muito difícil afirmar ao certo o sentido do nome de Priscila vir mencionado antes do de Áquila. É bom lembrar que em 1 Co 16.19 Paulo menciona Áquila primeiro, e com certeza este é um texto com conexão ministerial: As igrejas da Ásia os saúdam. No Senhor, muito vos saúdam Áqüila e Priscila e, bem assim, a igreja que está na casa deles”.



4. (Rm 16.1-2) - Febe como líder
“Recomendo-vos a nossa irmã Febe, que está servindo à igreja de Cencréia, para que a recebais no Senhor como convém aos santos e a ajudeis em tudo que de vós vier a precisar; porque tem sido protetora de muitos e de mim inclusive” (Rm 16.1-2).
           Estranhamente há quem interprete o que Paulo diz acerca de Febe sobre ela ter sido protetora de muitos, inclusive dele, como tendo sido líder na igreja. Ora, isso é estranho haja vista que o próprio Paulo chega a afirmar que nem mesmo os apóstolos de Jerusalém tinham autoridade sobre ele (Gl 1.11-12; 2.6).
           Ademais os léxicos traduzem o verbo “prostátis” como “protetora, benfeitora, guardiã”, traz o sentido de uma mulher que estava sempre pronta a socorrer, algo bem próximo de um ministério diaconal, aliás, é bem possível que ela tenha sido diaconisa.

5.  (Rm 16.7) - Era Júnias uma apóstola?
         Romanos 16.7 diz: “Saudai Andrônico e Júnias, meus parentes e companheiros de prisão, os quais são notáveis entre os apóstolos e estavam em Cristo antes de mim”.
           Frequentemente os apoiadores do ministério pastoral feminino utilizarão este texto para provar que Júnias era a esposa de Andrônico e também apóstola, e afirmam também que ele era apóstolo. Tendo Júnias como base seria então legal falar de pastora, haja vista que houve apóstola. Duas coisas precisam ser aqui esclarecidas, primeiro; se Júnias de fato era uma mulher, e segundo; se essa pessoa assim como Andrônico eram apóstolos.
          O texto diz que eles eram notáveis entre os apóstolos. O sentido de “entre os apóstolos” não significa que eles fossem apóstolos, mas sim, que eles eram bem conhecidos dos apóstolos. Assim sendo, mesmo Júnias sendo mulher não seria apóstola, assim como Andrônico não o era. Ademais, Júnias, no grego é iounian, e segundo o “Novo Testamento grego analítico” esta palavra é um substantivo no caso acusativo, no gênero masculino, no número singular. Logo, Júnias era um homem, amigo e companheiro de Andrônico na obra missionária, portanto, este texto não pode ser usado com legitimidade pelos igualitaristas.

6. (1 Tm 2.11-15) - Devem as mulheres ficarem caladas nas igrejas?
                                  A mulher aprenda em silêncio, com toda a submissão. E não permito que a mulher ensine, nem exerça autoridade de homem; esteja, porém, em silêncio. Porque, primeiro, foi formado Adão, depois, Eva. E Adão não foi iludido, mas a mulher, sendo enganada, caiu em transgressão. Todavia, será preservada através da sua missão de mãe, se ela permanecer em fé, e amor, e santificação, com bom senso. (1 Tm 2.11-15).
           Este possivelmente é o texto mais conhecido e debatido acerca do ministério pastoral feminino. É fundamental para o argumento complementarista, e os igualitaristas tentam de vários modos comprovar que a interpretação correta do mesmo não proíbe o ministério ordenado das mulheres.
           Um dos argumentos igualitaristas sobre esse texto é que ele não é válido para os nossos dias porque Paulo está proibindo algumas mulheres que estavam ensinando falsa doutrina na igreja de Éfeso e portanto, refere-se apenas àquele contexto. Ora, não há nenhum indício na epístola que corrobore com este ponto de vista, pelo contrário, todas as vezes que Paulo fala acerca de hereges se refere unicamente a homens:
“...tendo rejeitado a boa consciência, vieram a naufragar na fé. E dentre esses se contam Himeneu e Alexandre, os quais entreguei a Satanás, para serem castigados, a fim de não mais blasfemarem” (1 Tm 1.19b, 20).
“Além disso, a linguagem deles corrói como câncer; entre os quais se incluem Himeneu e Fileto. Estes se desviaram da verdade, asseverando que a ressurreição já se realizou, estão pervertendo a fé a alguns” (2 Tm 2.17-18).
           Assim sendo, o argumento de que mulheres estavam ensinando heresia na igreja de Éfeso é insustentável.
          Outro argumento igualitarista para este texto é que as palavras traduzidas por “homem” e “mulher” têm o sentido de marido e esposa, como ocorre em outros textos. Porém convém observar que quando as palavras podem ser traduzidas por “marido” e “esposa” elas vêm acrescidas de um pronome possessivo, ou então claramente o contexto é referente ao casamento. Vejamos alguns exemplos:
1 Coríntios 7.2 (NTLH): “cada homem deve ter a sua própria (heuatou) esposa, e cada mulher, o seu próprio (idion) marido”.
1 Coríntios 7.12: “se algum homem tem mulher incrédula” (o contexto claramente se refere a casamento.
Efésios 5.22: “As mulheres sejam submissas ao seu próprio (idiois) marido, como ao Senhor”
          O contexto de 1 Timóteo 2 trata evidentemente de homem e mulher genericamente, ademais seria um tanto estranho Paulo fazer uma proibição apenas para as mulheres casadas, o que implicaria que as solteiras poderiam exercer autoridade de homem, desse modo Paulo escreve a respeito de todos, casados e solteiros.
           É dito ainda que na expressão “não permito” no versículo 12 Paulo utiliza um verbo no presente de indicativo ativo, que pode muito bem ser traduzido por não estou permitindo agora, pois o presente do indicativo ativo se refere a ação de quem está praticando o ato naquele momento, no caso em questão, a ação de Paulo de não permitir que as mulheres ensinassem. E a justificativa dada pelos igualitaristas é que as mulheres não estavam em condição intelectual de ensinar o evangelho, mas logo estivessem qualificadas teriam a devida autorização para tal. Este argumento se aceito, então deveríamos também considerar como temporário e não válido para os nossos dias todos os textos em que Paulo utiliza o presente do indicativo para proibir ou exortar em uma situação específica, não considerando como válido para os nossos dias, mas com certeza ninguém contestará a validade atual de textos como 1 Timóteo 2.1: “Antes de tudo, exorto (parakalô, presente do indicativo) que se use a prática de súplicas, orações, intercessões, ações de graças em favor de todos os homens”; Romanos 12.1: “Rogo-vos (parakalô, presente do indicativo), pois, irmãos, pelas misericórdias de Deus, que apresenteis o vosso corpo por sacrifício vivo, santos e agradável a Deus, que é o vosso culto racional”. Em ambos os casos a exortação de Paulo é válido para todas as épocas, assim como o que ele coloca em 1 Tm 2.12.  O mandamento de Paulo de que as mulheres não poderiam falar na igreja não é uma proibição temporária.
           Vejamos então outro texto que proíbe as mulheres de exercerem o ministério ordenado de ensino da Palavra de Deus:
                                  Os espíritos dos profetas estão sujeitos aos próprios profetas; porque Deus não é de confusão, e sim de paz. Como em todas as igrejas dos santos, conservem-se as mulheres caladas nas igrejas, porque não lhes é permitido falar; mas estejam submissas como também a lei o determina. (1 Coríntios 14.34).
           Os igualitaristas acusam os complementaristas de serem inconsistentes por não obedecerem plenamente a proibição paulina de que as mulheres devam permanecer caladas nas igrejas.
           Os complementaristas não podem ser tidos como incoerentes a guisa desse texto, pois a proibição aí expressa não é referente a não poder falar nada. É mais do que evidente no próprio texto que não há nenhuma proibição ao exercício feminino no louvor, na oração ou por meio de qualquer fala que não seja o ensinamento das Escrituras. O texto em seu contexto fala da ordem no culto, de que uns profetizavam e outros deveriam julgar a profecia. Em tal julgamento o ensinamento estará contido, como expressamente proíbe que as mulheres ensinem na igreja, tal proibição refere-se então à interpretação da profecia.
           Há um argumento igualitarista que afirma que o texto em questão por tratar da ordem no culto não pode ser inferido para o mais na igreja, apenas para o culto, sendo assim, seria aceitável, por exemplo, uma presidência de igreja feminina. Ora, este argumento é autodestrutivo, pois a igreja melhor se manifesta em sua essência justamente no culto. A própria palavra “eklesia” que é traduzida por igreja tem o sentido de “assembléia, reunião”.


IV. A QUESTÃO CULTURAL NO NOVO TESTAMENTO

1. Como Jesus tratou as mulheres
           Contrariando a cultura de seu tempo Jesus tratou as mulheres de modo digno a surpreender não apenas a elite religiosa de sua época, mas também seus próprios discípulos. Era indigno a um homem, especialmente um profeta, e Jesus era reconhecido como profeta pelo povo, conversar publicamente com uma mulher, e muito especialmente sendo esta mulher conhecida como sendo alguém a viver em lascívia. Vemos no capítulo 4 de João Jesus conversando com alguém assim, desse modo quebrando esta barreira, assim como quebrando a barreira de dialogar com uma pessoa da região de Samaria. Jesus também teve mulheres como ajudadoras em seu ministério. Se dispôs a ir à casa de Marta e Maria para ensiná-las, episódio que leva alguns igualitaristas a pensarem que legitima então as mulheres ensinarem na igreja, haja vista que Jesus as ensinou, estaria indiretamente abrindo precedentes para elas ensinarem a outras pessoas que não fossem mulheres também. Jesus, sem sombra de dúvida, tratou as mulheres muito diferente dos seus contemporâneos.
           Os igualitaristas, então, argumentam que em Jesus foi iniciado um processo de emancipação feminina. E se não colocou mulheres em seu ministério era porque a sociedade ainda não estava pronta para suportar tamanho radicalismo, mas suas atitudes deixam claro que nada impede que no futuro as mulheres não poderiam ocupar liderança na igreja. É estranho usar tal argumento, haja vista que Jesus nunca deixou de fazer aquilo que teria que ser feito por causa da sociedade ainda não estar pronta. Mais radical do que ter admitido uma mulher em seu colégio apostólico foi ter chamado a classe religiosa dominante, fariseus, saduceus e escribas, de raça de víboras, sepulcros caiados, hipócritas, filhos do diabo, etc. Respondemos a tal argumento que se Jesus tencionasse que mulheres deveriam ocupar liderança sobre homens em sua igreja ele sem dúvida teria sim colocado apóstola em seu ministério, nenhum contexto histórico-social seria capaz de impedir seu radicalismo, que sempre estivera presente em atitudes e palavras.
           Jesus libertou as mulheres, e esta é uma expressão muito utilizada pelos igualitários. Mas ao afirmar que Jesus libertou as mulheres não podemos de modo algum entender que ele agiu conforme a agenda feminista de épocas recentes. Ele de fato aceitou que mulheres aprendesse aos seus pés, seu ministério era sustentado financeiramente por mulheres ricas, e até mesmo em sua ressurreição as primeiras testemunhas eram mulheres. Porém, ele em momento algum disse a elas que não deveriam ser submissas a seus maridos, nem tampouco recrutou alguma delas para seu colégio apostólico. Ele libertou as mulheres, mas as libertou como libertou os homens, como libertou as crianças, como libertou todo aquele que confessa seus pecados e o recebe como seu Senhor e Salvador, Jesus as libertou da escravidão do pecado, as libertou para a vida eterna. Ele não cumpriu uma agenda social feminista, mas cumpriu uma agenda espiritual para o Reino de Deus.

2. Havia apóstolas no Novo Testamento?
           Há aqueles que afirmam peremptoriamente que havia apóstolas no Novo Testamento, e citam exemplos como Febe e Júnias. Como ficou demonstrado acima, não se tratava em hipótese alguma de apóstolas. Ademais, quando foi necessário haver uma substituição apostólica para a vacância de Judas, os apóstolos poderiam muito bem aproveitar a oportunidade de pelo menos apresentar uma mulher como candidata, se de fato houvera sido essa a intenção de Jesus. No entanto, nenhuma é mencionada como candidata ao apostolado, assim como o Novo Testamento não faz nenhuma menção de apóstola ou de qualquer mulher que exercesse ministério de Ensino da Palavra.

3. O parecer do apóstolo Paulo
           Alguns afirmarão que o apóstolo Paulo proibiu as mulheres de falarem na igreja por ser machista e estar grandemente influenciado pela cultura machista e patriarcal de sua época. Não nego que o apóstolo viveu em uma cultura machista, mas nego com base na inspiração das Escrituras, de sua inerrância e infalibilidade que aquilo que Paulo escreveu não apenas expressava sua opinião, mas era a vontade de Deus revelada ao seu povo de como a igreja deveria proceder quanto à ordenação de líderes para Sua igreja. Afirmar que Paulo escreveu meramente uma opinião machista é indiretamente negar a inspiração bíblica e desobedecer ao que ele escreve é não aceitar plenamente a autoridade das Escrituras.
           A bem da verdade, Paulo proibiu que as mulheres ensinassem na igreja não com base em “seu suposto machismo”, mas utilizou um argumento teológico para tal. Vejamos o texto: “A mulher aprenda em silêncio, com toda a submissão. E não permito que a mulher ensine, nem exerça autoridade de homem; esteja, porém, em silêncio. Porque, primeiro, foi formado Adão, depois, Eva” (1 Tm 2.11-13). Paulo utiliza claramente de argumentação teológica para coibir o ministério ordenado feminino. Ele retrocede à criação para provar que a liderança deve estar no gênero masculino, não por ser um produto de cultura de época, mas por ser um princípio divino tanto no lar como para a igreja. Portanto, afirmar que Paulo disse o que disse, meramente influenciado pelo seu contexto cultural é negar o próprio texto que não menciona o costume da época. Paulo poderia perfeitamente apelar como base para sua argumentação para aquilo que era aceitável na sociedade, mas ele volta-se para como as coisas eram no princípio.

4. Ministério feminino e seu contraponto com a escravidão
           Outro argumento que leva em conta a questão cultural utilizado frequentemente pela corrente igualitarista é que no Novo Testamento não há uma proibição taxativa para a escravidão, porém, o evangelho coloca princípios, como a igualdade entre as pessoas em Cristo, baseados em textos como Gl 3.28: “Dessarte, não pode haver judeu nem grego; nem escravo nem liberto; nem homem nem mulher; porque todos vós sois um em Cristo Jesus”, para afirmar que assim como foi minada as bases da instituição escravocrata, também no que concerne ao ministério feminino, já que entendem homens e mulheres são iguais, também concede abertura para que no futuro a igreja admitisse o ministério feminino ordenado. Mas algumas observações então devem ser feitas.
Primeiro: Deus nunca ordenou a escravidão, e também por isso a Sua Lei a delimita e regulamenta. Ainda no Antigo Testamento vemos o Senhor usar de Sua graça legislando a favor dos escravos, colocando um limite de duração para sua servidão (Dt 15.12-18; Lv 25.39-43). Por outro lado Ele ordenou a liderança espiritual dos homens, e em momento algum delimitou o tempo de duração dessa liderança.
Segundo: Paulo diz aos escravos em 1 Coríntios 7.21: “Fostes chamado, sendo escravo? Não te preocupes com isso; mas, se ainda podes tornar-te livre, aproveita a oportunidade”. No entanto, em momento algum ele incentiva as mulheres a aproveitar oportunidades de se desvencilhar da autoridade do marido ou do presbítero da igreja.



V. REQUISITOS PARA O MINISTÉRIO PASTORAL

                                  Fiel é a palavra: se alguém aspira ao episcopado, excelente obra almeja. É necessário, portanto, que o bispo seja irrepreensível, esposo de uma só mulher, temperante, sóbrio, modesto, hospitaleiro, apto para ensinar; não dado ao vinho, não violento, porém cordato, inimigo de contendas, não avarento; e que governe bem a própria casa, criando os filhos sob disciplina, com todo o respeito (pois se alguém não sabe governar a própria casa, como cuidará da igreja de Deus?); não seja neófito, para não suceder que se ensoberbeça e incorra na condenação do diabo. Pelo contrário, é necessário que ele tenha bom testemunho dos de fora, a fim de não cair no opróbrio e no laço do diabo. (1 Tm 3.1-7).
           A Palavra de Deus mostra claramente que para aqueles que almejam o ministério pastoral se faz necessário a presença de alguns requisitos em sua vida. Alguns desses requisitos podem estar presente na vida de qualquer cristão independentemente de gênero, porém, há outros que indubitavelmente será impossível estar presente nas mulheres. Vejamos então quais são:

1. Apto para ensinar
          Já ficou demonstrado a proibição bíblica de as mulheres ensinarem na igreja congregada formada por homens e mulheres. Biblicamente, elas não podem exercer na igreja autoridade sobre os homens no que tange ao ensino da Palavra e a governo da igreja. Se biblicamente elas não podem ensinar aos homens na igreja fica então evidente a impossibilidade de elas cumprirem esse requisito para o exercício do ministério pastoral.
2. Que governe bem a própria casa
          O pastor tem a atribuição de governo, de exercício de autoridade na igreja. De igual modo, a Palavra coloca o homem no lar como sendo o líder da família, é ele quem deve governar a família e isto é um mandamento bíblico (Cl 3.18; 1 Pe 3.1). Se a mulher não pode de modo algum governar a própria casa sem que esteja pisando a autoridade de seu marido, como pois ela poderá governar a igreja de Deus?
          Além destes dois requisitos acima mencionados que logicamente impedem que as mulheres exerçam o ministério, não encontramos nenhum exemplo bíblico de mulheres que exerciam ministério ordenado da pregação da Palavra nas Escrituras e nenhuma abertura para que viesse a suceder tal prática para as épocas pós-testamentárias. Absolutamente não há como defender coerentemente o mistério pastoral feminino com base nas Escrituras.



VI. AS IGREJAS CONTEMPORÂNEAS SOB INFLUÊNCIA PÓS-MODERNA

           As igrejas dos nossos dias vivem dentro de um contexto sócio-cultural pós-moderno. O pós-modernismo invariavelmente influenciará todas as instituições de nossa época, e lamentavelmente a igreja não está imune a ele. Características do pós-modernismo são o relativismo da verdade, a pluralidade religiosa, o pensamento débil, etc. No relativismo da verdade, é proclamada que não existe uma verdade fixa e universal, a verdade é produto da cultura. E quem então poderá afirmar que uma cultura “A” de fato está com a razão em detrimento daquilo apregoado pela cultura “B”? Os indivíduos entendem então que tem o direito à sua própria verdade. O que conta então são os sentimentos e a aceitação daquilo que é agradável, não a verdade objetiva, esta aliás para o pós-modernista não existe, ainda que ele não tenha este entendimento intelectual, viverá isto na prática. Exemplo disto no que concerne à igreja é que diante da mensagem do evangelho as pessoas dizem “esta é a sua verdade” ou acerca da Bíblia “esta é a sua interpretação” sentindo-se então à vontade para rejeitar a verdade revelada de Deus.
           No arcabouço do pós-modernismo está o pragmatismo que apregoa a importância dos resultados, os fins é o que de fato conta independentemente dos meios. Para o pragmático, deve ser considerado verdadeiro, e deve ser aceito as idéias, crenças ou hipóteses que dão certo, que funcionam.


1. Uma igreja pragmática
           O reflexo na igreja do pragmatismo que faz parte do pensamento pós-moderno dos nossos dias é a adoção por parte de muitos, daquilo que produz resultado para encher os templos. Com esta meta em vista será adotada as estratégias mais estranhas e absurdas para atrair as pessoas à igreja. No âmbito neopentecostal o sincretismo religioso estará presente, a mistura de práticas do catolicismo romano, do espiritismo, do candomblé e evangélicas estarão presentes ao mesmo tempo para satisfação das massas que estão em busca de crescimento financeiro, solução de problemas familiares, cura de enfermidades e alívio de sofrimento. Dentro desse contexto, expressões constrangedoras como “arrependimento”, “confissão de pecados”, “santificação”, “compromisso com Jesus”, “sofrer por amor a Cristo”, “salvação”, “inferno” e semelhantes, estão descartadas, pois não cabe em seu marketing. O evangelho então pregado não é o evangelho do Senhor Jesus Cristo e aqueles que estão buscando tais igrejas não estão buscando ser discípulos de Cristo e as mesmas igrejas não são de fato igrejas de Cristo.
           Fora do ambiente neopentecostal, mas também influenciado por eles encontramos igrejas históricas que adotam o pragmatismo em sua agenda litúrgica. O culto muitas vezes é realizado com uma centralidade humana, o louvor nestes cultos deve estar dentro de um padrão que agrade a platéia, a pregação não necessita necessariamente ser de uma exposição bíblica, o importante é falar sobre “os cinco passos que produzem vitória ou crescimento na vida”. A Teologia nessas igrejas é humanista, não teocêntrica, logo, é desconcertante falar de soberania divina em sentido absoluto, é desconcertante falar de predestinação, de decreto divino. Há uma influência pragmática muito grande também no que diz respeito ao ministério pastoral.
           Os pastores nessas igrejas em sua maioria buscam viver um sucesso ministerial. No entendimento deles sucesso ministerial é pastorear uma igreja com muitos membros, na qual a entrada financeira seja de alto valor. Em busca desse suposto sucesso se fará de tudo para agradar ao povo de “sua” igreja, desde a realização de um culto centralizado no homem, no qual de fato Deus não é glorificado, onde a Palavra de Deus pouco ou nada dela é pregada, até a consagração de pastoras que a igreja esteja acompanhando a moda de sua época. Para eles a igreja tem que ser moderna, não pode ficar com pensamentos retrógrados.

2. Ministério feminino: fruto do pragmatismo
           Por que as pessoas aceitam o ministério pastoral feminino?  Qual é de fato a base para sua aceitação? Em última instância a maioria das pessoas dará respostas que se baseiam na realidade da igreja dos nossos dias, enquanto pouquíssimas de fato buscarão basear sua aceitação nas Escrituras.
           A igreja influenciada pelo movimento feminista admitirá o ministério pastoral feminino não porque seja bíblico, mas porque se torna então uma igreja mais eclética e fácil de ser aceita pela sociedade. Trata-se apenas de ceder ao apelo social de conceder espaço às mulheres em todos os sentidos. Facilmente será usado argumento acerca da capacidade feminina, de sua sensibilidade, de sua humildade em servir; mas novamente a aceitação estará baseada em outra coisa que não as Escrituras.
           Algumas mulheres aceitam serem pastoras e algumas igrejas vêem isto como sendo muito interessante por serem esposas de pastores e portanto estarão auxiliando seus maridos no ministério. É a busca pela facilitação no serviço do Reino de Deus, é a tendência para admitir aquilo que dar certo para o serviço da igreja. Mas perguntamos: É correto aceitar o que dá certo, mas que não é bíblico? Outrosim as esposas podem auxiliá-los excepcionalmente sem necessariamente também serem pastoras, e também por terem seus maridos pastores não devem sofrer a pressão da igreja para que estejam envolvidas em todas as atividades da igreja. Exigir isto delas é injusto e opressivo, é uma atitude de desamor da igreja para com elas, pois devemos desenvolver nossos dons com amor voluntário, não por constrangimento.
           Sem dúvida há uma crise de vocação em nossos dias e algumas pessoas poderão dizer que se os homens não estão respondendo ao chamado divino para o ministério, então as mulheres o fazem. Tal argumento é até mesmo indigno para as mulheres, não as trata com justiça e respeito, pois as coloca meramente como “tapa buracos”. Coloca-se a possibilidade, à parte do que diz as Escrituras, que se há na igreja uma crise, se há falta de homem para o exercício do ministério ordenado, então é totalmente aceitável que uma mulher seja consagrada ao ministério pastoral. Porém, mais uma vez vemos um argumento com base pragmática, que dispensa a fé na providência divina, e busca a solução diante de uma crise contrária à orientação bíblica.
           Afirmo então que o ministério pastoral feminino nada mais é do que uma novidade pós-moderna pragmática sem suficiente base nas Escrituras. As igrejas que estão aderindo a esta novidade que contraria os princípios bíblicos estão pecando por deliberadamente ir contrário à vontade revelada do Senhor para Sua igreja.



VII. PASTORAS EM ATIVIDADE

           Ao concordar que o ministério feminino é antibíblico, logo, estamos diante de um problema prático, pois a maioria das denominações consta com pastoras em seu rol de ministros. No Brasil, em nível nacional, dentre essas denominações encontram-se a Convenção Batista Brasileira, a Convenção Batista Nacional, a Convenção Batista Independente, a Assembléia de Deus e várias “igrejas” neopentecostais, e pequenas igrejas pentecostais, onde esta prática se faz muito acentuada. Algumas perguntas precisam ser respondidas. Como tratar as pastoras que estão em atuação? Seu ministério deve ser reconhecido? Como elas se sentem diante dessa questão e diante da crítica complementarista ao seu ministério?
           Acredito que independentemente de quaisquer posições teológicas a respeito desse tema todos os pastores devem olhar as pastoras com o respeito cristão que lhes é devido. A posição daqueles que não concordam com o ministério pastoral feminino não deve ser de segregação, acredito que esta seria uma atitude anti-cristã. Podemos conviver em harmonia mesmo havendo discordância teológica a respeito desse tema. Cada pastor tem a plena liberdade de permitir ou não pastoras pregando no púlpito da igreja à qual ele está responsável. De igual modo os igualitários devem respeitar a posição complementarista. Obviamente um dos lados do debate está certo e o outro errado, mas este debate, tanto em sua forma acadêmica, quanto na prática da igreja deve ser realizado em amor cristão.
           A segunda pergunta aqui exposta não pode ser menosprezada a questão de pequena importância, e na verdade extrapola o intento deste escrito sua abordagem, defendo apenas que cada pastora ou candidata ao ministério pastoral tenha plena liberdade de expressar sua opinião, especialmente em ambiente acadêmico de seminário maior de teologia.

1. Vocacionada para o ministério?
           Um argumento muito comum dos igualitaristas é que se uma mulher é chamada para o ministério certamente recebeu dons da parte de Deus para seu exercício e portanto, ninguém tem o direito de bloquear o exercício desses dons. As pastoras em atuação certamente testemunharão acerca de seu chamado e muitas delas são servas de Deus sinceras e desejam agradar ao Senhor. Algumas colocações então devem ser dadas consoantes a esta realidade contemporânea da igreja. Estou convencido de que a Palavra de Deus designa o ministério ordenado do pastoreio das ovelhas do Senhor a homens a quem o Senhor escolhe e capacita. Os textos bíblicos já discutidos provam isso. Sendo assim, pergunto: Como então Deus vocacionaria mulheres a desobedecerem à sua Palavra? A resposta a esta questão é que elas não foram vocacionadas pelo Senhor. Assim como muitos homens se enganam pensando ter um chamado de Deus para o ministério, o mesmo ocorre com todas as mulheres que adentram ao ministério. O seu suposto chamado pode ter sido um chamado para ela servir no Reino de Deus em outra atividade ministerial que não seja o pastorado.  Defender o pastorado feminino meramente baseado em um chamado subjetivo é colocar a experiência pessoal acima das Escrituras, atitude comum de uma cultura pós-moderna e pragmática. No entanto, certamente estará presente argumentos na defesa do ministério feminino apontando a eficiência de algumas pastoras, seu desempenho ministerial bem sucedido, o fato de elas serem boas pregadoras, de serem usadas por Deus para abençoar muitas vidas, porém mais uma vez isto é apenas apontar para os resultados, portanto um argumento pragmático, que é como segue:
1. A pastora Eugênia (nome fictício) tem um ministério muito abençoado.
2. Um ministério abençoado tem a aprovação de Deus.
3. Logo, Deus aprova ministério pastoral feminino.
           Ministério abençoado no conceito pós-moderno é ministério com grande vantagem financeira, onde a pessoa tenha elevado status, e a igreja tenha sua bancada lotada. Biblicamente, porém, isto é sem fundamento. O apóstolo Paulo sofreu muito; foi apedrejado, traído por falsos irmãos, humilhado, sofreu naufrágio, foi preso; no entanto não há dúvida de que seu ministério foi abençoado no sentido bíblico do termo.          


VIII. A MULHER NO SERVIÇO DO REINO DE DEUS

1. Uma grande contribuição ao reino
           Dede o início da igreja neotestamentária a mulher esteve presente na igreja de forma marcante. Esteve presente no ministério de Jesus, assim como em sua ressurreição. Ademais ele veio ao mundo por meio de uma mulher. Na história da igreja vemos sua presença marcante na obra missionária. Na grande obra missionária dos irmãos morávios havia em seu meio muitas mulheres como missionárias. No final do século XVIII e início do XIX houve um avivamento na Inglaterra e nos Estados Unidos, dentre os líderes cristãos daquela época encontramos João Wesley. Este homem teve uma mãe notável, Susana Wesley, uma serva fiel do Senhor que passava muitas horas em oração. Costumava dirigir uma reunião de oração à qual comparecia umas duzentas pessoas.
           No século XIX duas escritoras foram usadas por Deus de modo singular ao escreverem livros que impactavam as pessoas a buscarem uma vida de santidade. Trata-se de Phoebe Palmer e Hannah Whital Smith. A primeira escreveu “The Way of Holiness” (O caminho da santidade), e a segunda “O segredo de uma vida feliz”.
           Dos missionários enviados à china, dois terços eram de mulheres, e lá foram usadas por Deus para a redenção de muitas vidas.
           São apenas alguns exemplos, a história da igreja está repleta deles, que provam o quanto as mulheres foram úteis no serviço do Reino de Deus, de modo especial na obra missionária.   
           E quanto aos nossos dias, alguém poderia perfeitamente formular a pergunta do que é bíblico conceder espaço a mulher na igreja.

2. A mulher na igreja hoje
           Primeiramente se faz necessário a observação que a classe feminina é a grande maioria na igreja dos nossos dias. Mas afinal, o que seria indiscutivelmente bíblico na atuação feminina na igreja, o que elas podem fazer?
           O ministério feminino não ordenado tem bastantes oportunidades de a mulher servir ao Senhor na igreja. Ela poderá servir como diretora de educação cristã, superintendente da Escola Bíblica Dominical, missionárias, diretora de conjuntos de louvor como coral, direção do louvor no culto dominical, diaconato, tesoureira, secretária da igreja, aconselhamento formal, leitura pública das Escrituras, oração pública, dirigente de Círculo de Oração, etc. Ou seja, a mulher não necessita ser pastora para servir ao Senhor, há muitas oportunidades de trabalho na igreja.
           Há algumas perguntas que poderiam ser consideradas polêmicas que necessitam de respostas. São elas: As mulheres podem ensinar a Bíblia para homens, se pode, em quais casos? As mulheres podem pregar? Podem ser diaconisas?
          O contexto de 1 Tm 2.12 é o proceder correto no culto público. Vemos na Bíblia momentos nos quais mulheres ensinaram ocasionalmente a homens em particular. Desse modo nenhum impedimento bíblico há para o ensino ocasional em particular. Não vejo nada que impeça a mulher de ensinar a Bíblia em um seminário de teologia, pois neste ambiente embora os presentes constituam a igreja, não se trata de um culto público, a igreja não está reunida para cultuar.
           Em momento algum vemos pregadoras nas Escrituras. Deus sempre nomeou homem para pregar a Palavra. No Antigo Testamento, Miriã, Débora e Hulda eram profetisas, mas não pregaram. No Novo Testamento não havia apóstolas e os pastores (presbíteros) foram sempre do gênero masculino. A instrução para o futuro é que eles deveriam ordenar homens para a função da pregação e ensino da Palavra: “E o que minha parte ouvistes através de muitas testemunhas, isso mesmo transmite a homens fiéis e também idôneos para instruir a outros” (2 Tm 2.2). “Por esta causa, te deixei em Creta, para que pusesses em ordem as coisas restantes, bem como, em cada cidade, constituísses presbíteros, conforme te prescrevi: alguém que seja irrepreensível, marido de uma só mulher...” (Tt 1.5-6). Há momentos em que biblicamente as mulheres têm autorização para ensinar, quando o público for constituído por mulheres ou a reunião for tipicamente feminina na qual a mensagem é voltada para as mulheres, desde que esteja sob a autoridade do pastor ou presbítero que delimitando sua atuação, e poderá fazer as devidas correções se necessárias forem.
             Quanto se as mulheres podem ser diaconisas é necessário termos baste cautela a respeito.

3. Mulheres como diaconisas
           Na instrução sobre as qualidades exigidas para o diaconato o apóstolo Paulo fala a respeito de mulheres: “Da mesma sorte, quanto a mulheres, é necessário que sejam elas respitáveis, não maldizentes, temperantes e fiéis em tudo” (1 Tm 3.11). Há quatro interpretações debatidas para esta assertiva. Primeira, “quanto a mulheres” está se referindo às mulheres dos diáconos. É pouco provável que esta seja a interpretação correta, pois ele utiliza a expressão “é necessário”, utilizada também para introduzir as qualificações dos presbíteros e dos diáconos (v. 2 e 8). Segunda, Paulo pode estar se referindo a todas as mulheres da igreja. Também pouco provável, por que afinal ele colocaria instruções para todas as mulheres justamente entre as instruções para os diáconos? Terceira, ele se refere às assistentes dos diáconos. É a interpretação mais plausível, porque certamente havia mulheres piedosas que ajudavam os diáconos em suas atividades. A quarta interpretação é que ele se refere a diaconisas. Possivelmente não está correta porque Paulo não emprega o termo apropriado para descrever a função daquelas mulheres, ele não as chama de diaconisas.
           Independentemente de qual interpretação de fato seja a correta, fato é que havia mulheres que exerciam uma ativada de assistência na igreja. E com certeza poderiam fazer um trabalho diaconal para com as outras mulheres, melhor do que os homens. A atividade delas de fato era uma atividade diaconal. O diácono não é responsável pelo ensino da Palavra de Deus à igreja, nem tampouco é responsável pela administração da igreja. Nas igrejas então que estiverem dentro desses parâmetros não vejo nenhum impedimento para que haja diaconisa ordenada, uma vez que não há unanimidade quanto ao texto de 1 Tm 3.11. Ademais, é muito provável que de fato Febe tenha sido uma diaconisa, se não foi diaconisa ordenada, mas com certeza exerceu uma atividade diaconal: “Recomendo-vos a nossa irmã Febe, que está servindo à igreja de Cencréia, para que a recebais no Senhor como convém aos santos e a ajudeis em tudo que de vós vier a precisar; porque tem sido protetora de muitos e de mim inclusive” (Rm 16.1-2).



IX. MULHERES, MINISTÉRIO FEMININO E A HISTÓRIA DA IGREJA

           A tradição cristã, e a história da igreja devem ter um valor para nós, não um valor normativo acima da Palavra como faz a Igreja Católica Romana. É importante ressaltarmos que somente a partir do século XX o ministério feminino começou a ser levado em conta. Caso o ministério feminino fosse aprovado por Deus, significaria que durante dezenove séculos a igreja encontrava-se em pecado a respeito desse assunto por não admitir o admiti-lo, ou então, ela estava correta e o ministério feminino é uma novidade de nossa época pós-moderna, que logo então a igreja é que se encontra em pecado nesse item no presente. Fato é que não podemos menosprezar dezenove séculos de produção teológica da igreja com seus credos e seus teólogos de renome. Vejamos então um pouco de história no que diz respeito ao ministério feminino e às mulheres.

1. A igreja antiga
           Evidentemente que na igreja antiga não encontramos muita discussão a respeito desse tema, podemos fazer referência a rápidas citações de alguns teólogos. CIPRIANO (9 vols.) 5:546 em meados de 258 declara: “Uma mulher deve ficar calada na igreja” (DORIANI, DAN, 2009, p. 155). Segundo Dan Doriani (op. cit.) Tertuliano embora tenha concedido algum direito ministerial às mulheres limitou sua participação pública ensinando que elas deveriam estar sob obediência. Já Orígenes foi mais radical:
                                  Se a filhas de Filipe profetizaram, pelo menos elas não falaram em assembléias, pois não encontramos esse fato como evidência em Atos dos Apóstolos. Muito menos no Antigo Testamento. Diz-se que Débora foi profetisa... Não há prova de que Débora tenha entregado mensagens ao povo, como fizeram Jeremias e Isaías. Hulda, que foi profetisa, não falou ao povo, mas somente a um homem, que a consultou em sua casa. O próprio evangelho menciona uma profetisa Ana... mas ela não falou publicamente. Mesmo se for concedido a uma mulher o... profetizar, assim mesmo ela não é permitida falar numa assembléia. (DORIANE, DAN, 2009, p. 155).

2. Jerônimo
           Jerônimo, que viveu de 331 a 420, teve duas discípulas de destaque, Paula, uma aristocrata romana enviuvada que aprendeu hebraico magnificamente, e veio a ensinar mulheres em um mosteiro próximo ao de Jerônimo. A outra era Marcella, que após ficar viúva se dedicou a castidade e ao ascetismo. Estava sempre aprendendo com Jerônimo e foi muito útil na luta contra hereges desafiando-os até para debates públicos. Ela reconhecia a autoridade de Jerônimo e sempre fazia referência a ele, o próprio embora admirasse sua discípula em momento algum tencionou ordená-la ao ministério do ensino.

3. Crisóstomo
           Crisóstomo (345-407) assume uma posição de que as mulheres deveriam ficar caladas na igreja, e fala acerca delas com expressões que discordamos, chega mesmo a dizer que as mulheres são inferiores aos homens, menospreza sua inteligência e capacidade de liderança. Levado pelo zelo escriturístico afirma absurdos que não podemos concordar.

4. A Idade Média
           Neste período encontramos uma figura interessante, uma abadesa ou prioresa beneditina, Hildegard, no século 12 (1099-1179). Esta mulher foi conselheira de quatro papas, dois imperadores e o patriarca de Jerusalém. Aos quarenta e três anos afirmou ter tido uma visão e ouvido uma voz que a mandou falar e escrever. Podemos afirmar que a discussão acerca da ordenação de mulheres se inicia quando Hildegard começou a publicar suas visões.
           O grande teólogo Tomás de Aquino (1225-1274) se colocou contrário ao exercício da mulher ensinar as Escrituras. Sobre Tomás de Aquino Dan Doriani escreve: “Ele diz que mulheres dificilmente tem mão firme, que são facilmente influenciadas, que não perseguem conselhos da razão” (DORIANE, DAN, 2009, P. 161). Mas o mesmo autor explica que a intenção de Tomás de Aquino era também mostrar que muitas mulheres fogem a essa generalizações.
           Duns Scotus (c. 1266-1308), ao concordar que as mulheres não devem ser ordenadas ao ministério não apresenta nenhuma prova para tal, apenas confia cegamente que a igreja está certa ao agir assim, ou seja, que certamente a igreja está agindo de acordo com a vontade de Deus. Ele na realidade acreditava que até seria benéfico à igreja mulheres no ministério, contudo entendia que a vontade de Cristo era justa.
           Havia a proibição de as mulheres ensinarem oficialmente na igreja na Idade Média, porém os movimentos sectários como valdenses e hussitas davam permissão as mulheres para ensinar e ou pregar. Os valdenses embora não admitissem que as mulheres de seu movimento pregavam, permitia que ensinassem, o que em sua prática acabava sendo o mesmo. Os hussitas admitiam as mulheres como pregadoras.

5. Na Reforma
           Embora as bases teológicas da Reforma tenha sido a sola Scriptura, sola fidei, sola gratia, temas secundários da teologia afetavam diretamente a vida de todas as pessoas. E evidentemente a questão do ministério feminino teve de ser pensado.
           Para Lutero (1483-1546) as mulheres não poderiam exercer ministério ordenado. Além de sua argumentação bíblica de que 1 Timóteo 2 proíbe as mulheres de ensinar no culto público e de o homem ser o cabeça da mulher como diz 1 Coríntios 11.3, ele enfatizou que as mulheres não poderiam pregar por ter menos capacidade e raciocínio lógico que os homens. Ademais, ele também ensinou que o pecado entrou no mundo por culpa de Eva, não de Adão, e que portanto, a sujeição da mulher faz parte do castigo dado por Deus a ela. O homem é o líder no lar e na igreja porque foi Deus quem ordenou quem assim fosse.
           João Calvino (1509-1564) era da posição de que as mulheres foram criadas para obedecer e falava de algum tipo de inferioridade delas. Os exemplos bíblicos nos quais é encontrado mulheres governando ou profetizando ele afirma que os mesmos serviam para humilhar os homens e que Deus em sua soberania tinha este direito de em dados momentos quebrar sua própria regra. Dede o início a sujeição da mulher era natural, se tornou desagradável a ela a partir do pecado.

6. Os puritanos
           Com os puritanos ocorre um pouco de evolução quanto ao tratamento justo pra com as mulheres. Embora alguns deles realmente ensinassem que os homens são superiores, a maioria deles enfatizou que os homens lideram devido a necessidade de ordem. Deus organizou a sociedade de modo que possa governar o mundo por meio de magistrados e súditos, ministros e igrejas, esposos e esposas, pais e filhos, mestres e servos. Ensinavam o respeito para com a consciência das mulheres, e não viam nenhum problema de os homens consultar suas esposas em suas decisões.
           A segunda esposa de George Fox, Margaret Fell, publicou em 1666 um folheto com o título: “A fala de mulheres justificada, provada e permitida pelas Escrituras”, era então um panfleto protofeminista.

7. No século XIX
           Neste século paralelamente às lutas sociais pelos direitos da mulher, transformações ocorreram também na igreja. As mulheres começaram a ter mais oportunidade como dar aulas, participar de atividades sociais, escrever hinos e trabalhar em campos missionários. Inicialmente trabalhavam com mulheres, mas aos poucos devido à necessidade ocasionalmente falavam para homens. Escritoras feministas cristãs começaram a publicar suas idéias. Dentre elas destacam-se Catherine Booth, Frances Willard e Katherine Bushnell que escreveram idéias que se tornaram base para o pensamento igualitário. Dan Doriani as cita:
·         condições sociais temporárias levaram Paulo a proibir mulheres de ensinar;
·         a proibição contradiz outras partes das Escrituras;
·         os homens lêem as Escrituras seletivamente a fim de conservar as mulheres em posição subordinada;
·         nega-se a distinção entre ensino público e particular, de modo que o ensino particular e a profetização por mulheres nega a proibição de Paulo sobre ensinar e pregar em público. (DORIANI, DAN, 2009, P. 161).
           Por esta época estava em atuação o teólogo Charles Hodge (1779-1878), que argumentou que ordem e subordinação permeiam o universo inteiro e é fundamental para sua existência. Afirmou a subordinação feminina, mas provando que isso não implica inferioridade, para tal utilizou-se do exemplo na Trindade onde o Filho é subordinado ao Pai, mas igual em natureza.

           Este apanhado histórico é útil para percebermos que na história da igreja o ministério feminino ordenado nuca esteve presente, logo, se ocorre em nossos dias, historicamente se trata de uma novidade. É verdade que uma antiga tradição pode ser meramente um antigo erro. É bem verdade também que a igreja sempre cometeu seus erros teológicos, em todas as épocas houve heresias contra as quais ela teve que lutar, talvez por conta disso alguém argumente que proibir o ministério feminino ordenado tenha sido na história da igreja um desses erros. Concordo que em alguns momentos teólogos como Lutero e Calvino tenham falado erradamente acerca de inferioridade feminina, mas temos de compreender seu sitz in leben. Mas utilizavam sempre as escrituras, e o que não pode ser admitido é uma argumentação igualitária que não seja a partir das Escrituras.



CONCLUSÃO

           Em matéria de fé e prática tradicionalmente as igrejas evangélicas têm desde a Reforma, afirmado que a Bíblia é sua única regra. O que significa que por ela é que devem ser decididas todas as questões sobre a vida da igreja. Porém percebemos que ela é muitas vezes desconsiderada de acordo com a conveniência pragmática dos nossos dias. Também ocorre que mesmo tomando a Bíblia em grande estima, buscando até por ela se basear, muitos incorrem em erro doutrinário por falta de uma exegese e uma hermenêutica realmente neutra de preconceitos, pelo menos até onde isso for possível.
           A questão do ministério feminino deve ser decidida à luz das Escrituras, o que na prática muitos não o fazem. A Palavra de Deus em nenhum momento ordena ou aprova o ministério pastoral feminino. Trata-se então de aceitar ou não a autoridade das Escrituras. A verdade é que coerentemente não se pode sustentar que a Bíblia é a única regra de fé e prática, se estamos conduzindo a prática da igreja de acordo com o senso comum, pois é exatamente isso que os igualitaristas fazem quanto a esta questão. De fato esta é uma posição desconfortável para todos, mas mesmo as coisas sendo assim, tenho a certeza que é o melhor, não apenas para a vida da igreja como também de todas as mulheres que acreditam ter uma vocação para o pastorado. Sem dúvida é necessária muita humildade da parte delas para se submeter a algo que contraria seus anseios pessoais, mas a obediência à Palavra conquanto geralmente não seja fácil, sempre é a melhor escolha.
            A igreja de nossos dias tem pecado contra o Senhor, é tempo de ela retornar à Palavra.




BIBLIOGRAFIA

GRUDEM, Wayne – Confrontando o feminismo evangélico: respostas bíblicas para perguntas cruciais. São Paulo: Cultura Cristã, 2009.
CALHEIROS, Izes – Revestidos para o ministério: padrões bíblicos para o ministério de homens e mulheres na igreja. São Paulo: Editora Vida, 2009.
GRENZ, Stanley J. – Mulheres na igreja: uma teologia bíblica das mulheres no ministério. São Paulo: Editora Candeia, 1998.
LOPES, Augustus Nicodemos – Pastoras, presbíteras, diaconisas: uma perspectiva bíblica. (Apostila não publicada).
BOICE, James M. et. al. Reforma hoje: uma convocação feita pelos evangélicos confessionais. 1ª ed. Cambuci, SP: Cultura Cristã, 1999.
GEISLER, Norman L; FEINBERG, Paul D. Introdução à filosofia: uma perspectiva cristã. 2ª ed. São Paulo: Vida Nova, 1996.
Novo Testamento interlinear grego-português. São Paulo: Sociedade Bíblica do Brasil, 2004.
CUNNINGHAM, L.; HAMILTON, D. J.; ROGERS, J. Por que não elas? Uma abordagem bíblica e atual sobre a atuação das mulheres no ministério pastoral, na liderança e em missões. 1ª ed. Belo Horizonte: Betânia, 2004.
DORIANI, Dan. Mulheres e ministério. 1ª ed. São Paulo: Cultura Cristã, 2009.   
FRIBERG, Barbara; FRIBERG, Timoth. O Novo Testamento grego-analítico. 1ª Ed. São Paulo: Vida Nova, 2007.

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