1 João 2.1-6 - JESUS CRISTO, O ADVOGADO MAIS EXCELENTE


 Introdução

           Não sei se você sabe, mas a Constituição Brasileira é uma das mais modernas do mundo. Algumas de nossas leis são boas, outras nem tanto. A justiça, que tem o princípio básico de ser cega, acaba favorecendo os mais abastados financeiramente, de modo que os mais pobres sentem-se muitas vezes desamparados. Nossos operadores do direito: advogados, juízes, promotores infelizmente não são como deveriam ser. Vivemos em um país onde a justiça tem recebido descrédito pelos fatos da corrupção presente, da morosidade, das brechas legais que acabam sempre favorecendo quem pode pagar os melhores advogados. As pessoas então vivem com o sentimento de injustiça, de desamparo. Infelizmente nem sempre podemos confiar nos advogados que contratamos.

Elucidação

           Esta carta às igrejas da Ásia tem como datas possíveis 85 a 90 ou 95 d. C. O propósito do apóstolo João ao escrever essa epistola é mencionado no cap. 1 v. 3-4:
-Promover uma comunhão entre os homens e entre eles e Deus.
- Conhecimento correto de Deus – Combater os falsos mestres gnósticos, um grupo de pessoas na igreja que estava pregando heresias. Ensinavam, entre outras coisas, que o que fazemos no corpo não afeta o nosso espírito, pois conhecemos a Deus por meio de nosso espírito, que é puro e separado do corpo, que é pecaminoso.
- Felicidade plena.
           A revelação bíblica utiliza uma linguagem jurídica neste texto para nos falar das maravilhosas qualidades de nosso salvador, que são evidenciadas a nós em nossos momentos de fraqueza, naqueles que denotam nossa queda no pecado.


I – UM ADVOGADO EMPÁTICO, V. 1-2.

           V1. João inicia essa admoestação dizendo porque lhes escreveu, para que eles não estejam vivendo na prática do pecado. “Não pequeis” tem o verbo “amartetês” no tempo aoristo, significando então o ato simples de pecar. A recomendação então é para que eles não pequem absolutamente, ou seja, para que nunca pequem. Sabemos que isso não é possível, mas João nos dá aqui o nosso objetivo. Nossa constante vigilância deve ser para que nunca pequemos. O verdadeiro cristão é aquele que lutará constantemente contra sua natureza pecaminosa. Deve estar em nossa consciência que já morremos para o pecado: “Considerai-vos mortos para o pecado” (Rm 6.11). Desse modo, o pecado na vida do crente não pode ser sua condição predominante, mas por assim dizer, um acidente. Não devemos pecar, mas  pecamos. Diante dessa realidade o que podemos fazer é contar com aquele que poderá eficazmente nos socorrer.
           Temos um advogado. O diabo é nosso acusador, e certamente há muitas coisas das quais podemos ser acusados. Contudo, nosso advogado é justo. Ele sabe de nossa estrutura, sabe o quanto somos frágeis, assim como também o quanto podemos em muitos momentos ser relaxados. Mas ele é o Justo, viveu neste mundo em retidão absoluta, e sua justiça é transferida a nós.
           Como advogado junto ao Pai ele intercede por nós. A obra intercessória de Cristo diz respeito a todo o seu ministério a nosso favor. Romanos 8.34 nos diz: “Quem os condenará? É Cristo Jesus quem morreu ou, antes, quem ressuscitou, o qual está à direita de Deus e também intercede por nós.” O texto aqui aborda a questão judicial de ele ter pago o preço para a nossa salvação. Há também na intercessão de Cristo por nós um aspecto relativo à nossa santificação, pois Hb 4.15; 2.18 diz o seguinte:
Porque não temos sumo sacerdote que não possa compadecer-se das nossas fraquezas; antes, foi ele tentado em todas as coisas, à nossa semelhança, mas sem pecado.
Pois naquilo que ele mesmo sofreu, tendo sido tentado, é poderoso para socorrer os que são tentados.

          Portanto, saiba meu irmão e minha irmã que Cristo estará a lhe socorrer no momento de sua tentação.
          Ele ainda intercede por nós nas coisas concernentes à Deus, pois esse é o papel do sumo sacerdote conforme Hb 5.1. Em Jo 17 ele ora pelos apóstolos e por aqueles que viriam a crer nele, ou seja, por sua igreja, por nós. Lembremos que temos a nosso favor um sumo sacerdote perfeito, e ele de fato é merecedor de todas as dádivas do Pai, sua oração é eficaz, ele mesmo disse que o pai sempre o ouve, sempre responde à sua oração: “...Pai, graças te dou porque me ouviste. Aliás, eu sabia que sempre me ouves, mas assim falei por causas da multidão presente, para que creiam que tu me enviaste” (Jo 11.41, 42)
           Todas as pessoas são necessitadas de que esse paracleto (advogado, intercessor) esteja defendendo sua causa. Contudo, só pode tê-lo aqueles por quem ele tomou o lugar na cruz. Seria você uma dessas pessoas? Como você pode saber? Já demonstrou arrependimento de pecado? Já entregou-se incondicionalmente a ele? Faça isso, para que tenhas esse advogado diante do Pai.
           V.2 O texto nos diz ainda que “ele é a propiciação pelos nossos pecados”. O sentido aqui que ele é o próprio sacrifício. Sacrifício pelo mundo inteiro, no sentido de raça humana. Não é que ele salvará todos da raça humana, mas que ele veio para ser sacrificado em favor de homens.
           Esse advogado é empático, ele tomou nosso lugar, sofreu a ira de Deus por nós, seus eleitos. Portanto, que possamos melhor conhecê-lo a cada dia.


II – UM ADVOGADO QUE DEVE SER CONHECIDO, V. 3-4.

              Lembremos que o pano de fundo da epístola é o contexto no qual os gnósticos estão semeando entre a igreja uma doutrina que ensinava a busca do conhecimento de Deus de modo apenas contemplativo. Um conhecimento secreto que era acessível apenas a alguns privilegiados. Esse conhecimento, diziam eles, é que constituía a salvação. Eles afirmavam conhecer a Deus.
          Opondo-se ao gnosticismo, que se preocupava com os predicados intelectuais, o Cristianismo exige conduta moral. Não é apenas conhecer, mas o próprio conhecimento não apenas é alcançado de modo natural, como também há implicações práticas que esse conhecimento nos traz.
     v. 3 ginwskomen oti eginwkamen (sabemos que temos conhecido). Eginwkamen (sabemos) está no perfeito do indicativo. Significa que o estado presente de conhecimento de Deus é derivado da ação passada da obra redentora dEle. João está a dizer que temos conhecimento de Deus como resultado da obra de Cristo em nossas vidas. Uma vez que ele operou em nossas vidas, nos justificou em sua morte na cruz, isso se mostra como algo real em nossas vida pelo fato de guardarmos seus mandamentos. Assim, ao contrário do que apregoavam os gnósticos, conhecer a Deus não é questão de informação adquirida por meio da contemplação, também não é questão de informação. Algumas pessoas poderão conhecer bastante o que a Bíblia diz sobre Deus, poderão decorar versículos, mas isso não é necessariamente conhecer a Deus. Conhecer a Deus é questão de fé e comprometimento.
           De quais mandamentos João está se referindo? Aos de Deus Pai ou de Jesus Cristo?
      Que mandamentos são esses? Alguns intérpretes colocam que João aqui faz uma referência ao Decálogo, outros, entendem os mandamentos de Cristo. Fiquemos com a segunda alternativa. Em João 3.34 está escrito: “Novo mandamento vos dou: que vos amei uns aos outros; assim como eu vos amei que também vos amei uns aos outros”. O apóstolo João então em sua epístola explica o que quis dizer em 3.23: “Ora, o seu mandamento é este: que creiamos em o nome de seu Filho, Jesus Cristo, e nos amemos uns aos outros, segundo o mandamento que nos ordenou.”
           Que fique evidente a todos que realmente conhecemos ao Senhor! Os frutos em nossa vida, ou seja, a observância de seus preceitos, o arrependimento de nossos pecados devem ser testemunhas de que de fato somos convertidos. Que você a cada dia pareça mais com Cristo!
           Há muitas pessoas que pensam conhecer Cristo, mas não se comprometem com ele. Vivem, portanto, um autoengano. Permanecem assim porque isso lhes é confortável, seu ego não está sendo ferido, sentem que estão bem! Quero ferir o seu ego dizendo que você não o conhece como imagina, mas minha oração é para que você conheça esse advogado maravilhoso e possa vivenciar as alegrias de conviver em comunhão com ele.


III – UM ADVOGADO QUE É UM GRANDE EXEMPLO, V. 5-6.

           Jesus nos disse como devemos viverAqui no v. 5 “guardar a palavra” é sinônimo de “mandamentos” utilizado nos versículos anteriores. Para João o que caracteriza aqueles que de fato são de Cristo, em contraste com os gnósticos, é a obediência às palavra de Deus, e através dessa obediência, o amor de Deus aperfeiçoado neles. Jesus falando aos discípulos diz: “Se me amais, guardareis os meus mandamentos”.
           Anunciando a essência do Reino de Deus Jesus nos diz como viver, sua pregação clara, simples. É também autoritativa, instrutiva, dura em muitos momentos, suave em tantos outros, verdadeira, amorosa. E esses dois versículos não nos mostram uma possiblidade para o cristão, trata-se de uma ordem, de uma declaração daquilo que nos patenteia como pertencentes ao Senhor.
           Nos diz ainda o versículo que o amor de Deus “tem sido aperfeiçoado” (teteleiwtai). Está na voz passiva, justamente para indicar que é uma obra de Deus. O Espírito Santo instrumentaliza a Palavra, nos salva, e continua agindo em nós nos aperfeiçoando. Nesse processo então não apenas percebemos de forma mais intensa o amor dele por nós, como também aperfeiçoados nesse amor é que conseguimos amar mais a Deus e aos outros do modo como Ele nos ama. O amor d’Ele em nós nos torna melhores em amar. E isso só possível àquele que está n’Ele, ou seja, que foi redimido, salvo em Cristo. O “estar nele” aqui, é posicional, é a condição de salvo pelos méritos de Cristo. É por isso que João diz dos gnósticos que estavam saindo do meio do povo de Deus: “Eles saíram de nosso meio; entretanto, não eram dos nossos; porque, se tivessem sido dos nossos, teriam permanecido conosco; todavia, eles se foram para que ficasse manifesto que nenhum deles é dos nossos” (1 Jo 3.19).
           Jesus mostrou em sua vida, nos dando o exemplo de como viver de modo agradável ao Senhor.
           v.6 A expressão aqui “aquele que diz” é uma referência mais uma vez ao gnósticos que diziam estar em Deus. Mas João estar dizendo que quem faz tal afirmação deve andar como Jesus andou. A imitação deve ser exata em todos os aspectos. O padrão de Jesus que devemos imitar é de humilhação e auto-sacrifício. No convite à comunhão com ele, declara que temos descanso em nossas almas se aprendemos a viver sua humildade e sua mansidão: “Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração; e achareis descanso para a vossa alma” (Mt 11.29). Após lavar os pés dos discípulos ele diz que essa deve também ser nossa postura na vida: “Porque eu vos dei o exemplo, para que, como eu vos fiz, façais vós também” (Jo 13.15).  O apóstolo Paulo recomendando a fórmula de um relacionamento sadio no contexto da igreja, diz que todos devemos imitar o sentimento que houve em Cristo: 
Tende em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus, pois ele, subsistindo em forma de Deus, não julgou como usurpação o ser igual a Deus; antes, a si mesmo se esvaziou, assumindo a forma de servo, tornando-se em semelhança de homens; e, reconhecido em figura humana, a si mesmo se humilhou, tornando-se obediente até à morte e morte de cruz (Fp 2.5-8).

           Se você não tem andado como Cristo andou, talvez seja porque não está ouvindo-o atentamente, logo, não está dando a devida importância ao que ele tem lhe falado, mesmo se denominando cristão pode estar sendo essa sua realidade. De fato, é difícil andar com Cristo, pois embora seja exigido de nós santidade, sempre pecaremos; sempre estaremos aquém do alvo estabelecido na Palavra. É por isso que necessitamos desse advogado maravilho.


Aplicações

1. Não permita que o sentimento de culpa te sufoque, o advogado chamado Cristo não dirá que você não é culpado, mas tomará sobre si suas culpas.

2. Homens, você como sacerdote do lar tem o dever de defender sua família, mas não esqueça que não está só nesse dever, confie no advogado que conhece melhor do que você a melhor forma de fazer isso.

3. Mulheres, vocês costumam defender seus filhos, muitas vezes até quando estão errados. O advogado a quem você deve recorrer não passará a mão por cima do erro de seus filhos, não dirá que ele não errou quando na verdade errou terrivelmente. Mas saiba, antes mesmo de você imaginar, estando arrependidos, ele já se pôs a defendê-los.

3. Tropeçamos, caímos, nos tornamos todos os dias culpados; por mentir, por se ensoberbecer, por desejar a mulher alheia, por desejar o homem alheio, por ambicionar o poder, o dinheiro de forma desmedida. Todos os dias talvez também pecamos por imoderação, pode falta de autocontrole. Todos os dias talvez estejamos sendo ingratos. Talvez não todos os dias, mas com pouca ou muita frequência desejamos pecar de forma deliberada. Em todos esses momentos O ADVOGADO intercede por nós junto ao Pai.

4. Viva, portanto, sempre sabendo que ter tal advogado não deve lhe levar ao relaxamento, mas a buscar sempre está em condição de dizer: estou a cada dia sendo mais parecido(a) com meu advogado.

5. Em uma pregação o Pr. Francis Chan trás a reflexão de que amamos Jesus, mas em muito momentos não queremos agir como ele.
Você admira sua humildade. Mas você quer realmente ser tão humilde assim?
Você acha que é bonito que o Filho de Deus se ajoelhe e lave os pés de seus discípulos. Mas esse é realmente o objetivo de sua vida? É nessa direção de servidão que você dirige a sua vida?
Você é grato porque cuspiram e abusaram de Jesus, e Ele aceitou isso. Mas você aceitaria que algo assim acontecesse com você?
Você ama o fato dele ter negado os direitos Dele. Mas, você passará sua vida inteira defendendo e lutando pelos seus, você abriria mão de seus direitos por Ele?
Você o louva, canta canções para Ele, o ama, porque Ele te amou tanto que sofreu durante todo o tempo em que esteve na terra, pelo seu bem. Mas você fará questão de se divertir enquanto estiver por aqui, e fará tudo o que for preciso pela sua felicidade.
Em resumo, você pensa que Jesus é um grande salvador. Mas, não um grande modelo a ser seguido...¹


Conclusão

           A justiça brasileira é falha, corrupta. A justiça divina é santa. A justiça brasileira pode ser comprada. Na justiça divina o nosso advogado também pagou um preço, o preço de sua vida por nós. A justiça brasileira pode deixar a sensação de que não foi realizada de fato, a justiça divina deixa a sensação de paz, de perdão, de que estamos livres porque tivemos um advogado que não poderia ser detido.


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