Atos 1.8 - Características bíblicas da evangelização

Atos 1.8 - “Mas recebereis poder, ao descer sobre vós o Espírito Santo, e sereis minhas testemunhas tanto em Jerusalém como em toda a Judéia e Samaria e até aos confins da terra".


Introdução

           Há muito o que pode ser dito a respeito de evangelização, nosso interesse no momento é nos atermos a este texto e observar o que dele podemos aprender acerca desse assunto. É necessário refletirmos este tema; em primeiro lugar porque sabemos que apenas uma pequena minoria da igreja realmente se engaja na obra evangelística. E em segundo lugar, porque mesmo dentre a minoria ocorre que com frequência o evangelho tem sido anunciado muitas vezes de uma forma não bíblica, usando métodos pragmáticos ou então de uma forma meramente institucional. Portanto, este é daqueles assuntos que jamais podemos deixar de falar à igreja do Senhor.


Elucidação

           Para entendermos de fato o texto é necessários observarmos o contexto. Jesus disse essas palavras em algum momento durante aqueles quarenta dias que esteve com os discípulos após a sua resurreição (v. 3), e antes de sua ascensão (v. 9-11).
           Os primeiros versículos de Atos tem como tema central o batismo com o Espírito Santo, como fica evidente nos versículos 4 a 5.
        Mas os discípulos ainda com aquela ideia errada do reino de Deus interrompe Jesus quanto à restauração do reino de Israel (v.6), a resposta de Jesus visa mostrar a eles o que era importante para eles saberem sobre o reino de Deus, e é nesse contexto que está o versículo 8, que nos mostra uma consequência do batismo com o Espírito Santo: a evangelização.
           Sendo assim, examinaremos quatro características bíblicas contidas neste texto sobre a evangelização.



I. O Pré-Requisito Para a Evangelização: “Mas recebereis poder, ao descer sobre vós o Espírito Santo”.

           A primeira característica aqui neste texto sobre evangelização é o pré-requisito do poder necessário para ser testemunha de Cristo, e este poder vem, segundo o texto, com o batismo com o Espírito Santo. Sei que muitos de nós já fomos ensinados no passado sobre este tema de modo contrário ao que falaremos neste momento, sei que o assunto é extenso, vamos nos ater então apenas à relação do batismo com Espírito Santo com a evangelização. 
           Jesus e João Batista já haviam profetizado acerca do batismo com o Espírito Santo. João Batista disse: “Eu, na verdade, vos batizo com água, mas vem o que é mais poderoso do que eu, do qual não sou digno de desatar-lhe as correias das sandálias; ele vos batizará com o Espírito Santo e com fogo” (Lc 3.16). E Jesus afirma: “... Se alguém tem sede, venha a mim e beba. Quem crer em mim, como diz a Escritura, do seu interior fluirão rios de água viva. Isto ele disse com respeito ao Espírito que haviam de receber os que nele cressem; pois o Espírito até aquele momento não fora dado, porque Jesus não havia sido ainda glorificado” (Jo 7.37-39).  E antes de ascender aos céus, Jesus disse aos discípulos: “Eis que envio sobre vós a promessa de meu Pai; permanecei, pois, na cidade, até que do alto sejais revestidos de poder” (Lc 24.49).
           Há também a profecia no A. T. de Joel: “E acontecerá, depois, que derramarei o meu Espírito sobre toda a carne; vossos filhos e vossas filhas profetizarão, vossos velhos sonharão, e vossos jovens terão visões; até sobre os servos e sobre as servas derramarei o meu Espírito naqueles dias. Mostrarei prodígios no céu e na terra: sangue, fogo e colunas de fumaça. O sol se converterá em trevas, e a lua, em sangue, antes que venha o grande e terrível Dia do SENHOR. E acontecerá que todo aquele que invocar o nome do SENHOR será salvo; porque, no monte Sião e em Jerusalém, estarão os que forem salvos, como o SENHOR prometeu; e, entre os sobreviventes, aqueles que o SENHOR chamar” (Jl 2.28-32). Essa profecia cumpriu-se no dia de Pentecostes: “Ao cumprir-se o dia de Pentecostes, estavam todos reunidos no mesmo lugar; de repente, veio do céu um som, como de um vento impetuoso, e encheu toda a casa onde estavam assentados. E apareceram, distribuídas entre eles, línguas, como de fogo, e pousou uma sobre cada um deles. Todos ficaram cheios do Espírito Santo e passaram a falar em outras línguas, segundo o Espírito lhes concedia que falassem” (At 2.1-4). Pedro afirma que naquele momento cumpriu-se a profecia de Joel (At 2.16).
           Mas, se o batismo com o Espírito Santo é tão importante para a igreja e para a evangelização, o que de fato é isso? Vejamos então o que diz a Palavra:
“Arrependei-vos, e cada um de vós seja batizado em nome de Jesus Cristo para remissão dos vossos pecados, e recebereis o dom do Espírito Santo. Pois para vós outros é a promessa, para vossos filhos e para todos os que ainda estão longe, isto é, para quantos o Senhor, nosso Deus, chamar” (At 2.38-39). Pedro diz que o dom do Espírito Santo, que é um sinônimo de batismo com o Espírito Santo, é recebido por todos aqueles que se arrependem e por todos aqueles que Deus chamar. 
           Também está escrito em 1Co 12.13: “Pois, em um só Espírito, todos nós fomos batizados em um corpo, quer judeus, quer gregos, quer escravos, quer livres. E a todos nós foi dado beber de um só Espírito”. O significado desse texto no grego é que os crentes foram batizados tanto no Espírito quanto no corpo de Cristo, que é a Igreja. Wayne Grudem assim se expressa: “O Espírito Santo era o elemento em que eles foram batizados, e o corpo de Cristo, a igreja, era o lugar em que eles se achavam depois do batismo”.1
           Ao contrário da doutrina pentecostal, o que percebemos por esses textos é que todos os crentes recebem o batismo com o Espirito Santo no momento da conversão. Assim Grudem define essa experiência expiritual como: "... a atividade do Espírito Santo no início da vida cristã quando ele nos dá nova vida espiritual (na regeneração), além de nos purificar e conceder um claro rompimento com o poder do pecado e o amor por ele (o estágio inicial da santificação). Nesse sentido, ‘batismo no Espírito Santo’ refere-se a tudo aquilo que o Espírito Santo faz no início de nossa vida cristã”.2
           Qual a consequência prática então de sabermos da verdadeira essência do batismo com o Espírito Santo? Observe que os discípulos abandonaram Jesus quando ele foi preso (Mt 26.56), após receberem o Espírito Santo anunciavam a Palavra com grande ousadia: “Tendo eles orando, tremeu o lugar onde estavam reunidos; todos ficaram cheios do Espírito Santo e, com intrepidez, anunciavam a palavra de Deus” (At 4.31). O mesmo Pedro que negou a Cristo três vezes (Mt 26.69-75) agora dava testemunho de Cristo com muita coragem: “Esteja absolutamente certa, pois, toda a casa de Israel de que a este Jesus, que vós crucificastes, Deus o fez Senhor e Cristo” (At 2.36).
           Desse modo meus irmãos, temos o poder necessário hoje para evangelizar. Conhecer o poder que fomos revestidos em nossa conversão é fonte de motivação para a grande tarefa de evangelização que devemos realizar enquanto igreja do Senhor. Não espere ser revestido, você já o foi, e portanto, este fato leve você a um testemunho poderoso de Cristo em sua vida diária, como expressa a continuação desse versículo.


II. A Inevitabilidade da Evangelização: “e sereis”.

           O interessante neste expressão é que não se trata de uma ordem, mas de uma constatação. Isto significa que aquele que recebe o Espírito Santo será inevitavelmente testemunha de Cristo. Pedro expressa isso ao dizer: “Nós não podemos deixar de falar das coisas que vimos e ouvimos” (At 4.20). Aquele que foi tomado pelo amor de Deus, que foi resgatado de sua vil condição no pecado falará naturalmente daquele que lhe resgatou. Pelo menos essa deve ser a condição natural do cristão, quando não é dessa forma trata-se de negligência nossa, pois como já foi dito já temos o poder necessário para testemunhar de Cristo. 
           De uma forma muito natural, com muito prazer e intrpedizez a igreja primitiva quando foi perseguida, como é mostrado em At 8, os irmãos dispersos por onde quer que estivessem indo, "iam por toda parte pregando a palavra” (8.4). Este é o ide, ou melhor, "indo" que Jesus nos outorgou, isto é, onde quer que estejamos seja notório o nosso testemunho de Cristo. Isto tem sido realidade em sua vida? 
           Muitos de nós éramos mais fervorosos no início de nossa caminhada. Não perdíamos oportunidade de falar de Jesus. Até os mais tímidos encontravam alguma forma de evagelizar aqueles que lhes eram mais próximos. Tínhamos mais disposição de participar de uma atividade evangelística na igreja. Como explicar isso, uma vez que já dissemos que inevitavelmente somos testemunhas de Cristo?  A questão é a falta de coerência daquilo que somos em Cristo com o nosso comportamento. Como Paulo mostra em Rm 6 já morremos para o pecado, mas temos que lutar contra ele todos os dias, de igual modo somos naturlamente testemunhas de Cristo, mas também somos negligentes e deixamos de evangelizar por longos períodos de tempo.
           Meu irmão(ã), seja testemunha de Cristo, e não apenas em palavras, também testemunhamos nossa fé quando dizemos “não” ao pecado: “não” à embriaguez, “não” ao sexo ilícito, “não” à pornografia, “não” à preguiça no trabalho, “não” à vingança, “não” à fofoca, “não” à mentira. E dizermos “sim” à santidade: “sim” à meditação bíblica, “sim” à oração, “sim” à comunhão na igreja, “sim” ao amor ao próximo.
           Se estivermos pecando neste ponto que possamos pedir perdão ao Senhor e que em sua graça ele nos conceda o privilégio de estarmos sendo suas testemunhas em todos os momentos.


III. O Conteúdo da Evangelização: “minhas testemunhas”.

           A terceira característica de evangelização genuinamente bíblica é ela ser o anúncio do prórpio Cristo, pois ele é a essência do evangelho. Temos falado abertamente sobre nosso repúdio às supostas igrejas que de fato não pregam o evangelho, prometem de tudo às pessoas: riqueza, solução "fácil de problemas, curas, prosperidade etc (acredito que não necessito ser extenso quanto a isso, pois corro o risco de ser demasiado repetitivo, pois os irmãos já estão devidamente instruídos a respeito). Pregar o evangelho é apresentar Jesus Cristo ao pecador, falar de sua obra redentora. 
           Para que você saiba que seu anúncio do evangelho está de acordo com o que faziam os apóstolos não deixe de comunicar alguns tópicos básicos:

a) O pecado

           Quando os apóstolos estavam anunciando o evangelho sempre faziam referência ao pecado. “Vós o matastes, crucificando-o por mãos de iníquos” (At 2.23); “matastes o Autor da vida” (At 3.15); “Homens de dura cerviz e incircuncisos de coração” (At 7.51). A pessoa em estado de pecado necessita ouvir sobre sua situação, a separação existente entre ela e Deus, a consequência do pecado para sua vida. É necessário ser lembrado que: “O salário do pecado é a morte” (Rm 6.23).

b) A vida, morte e ressurreição de Jesus Cristo.

          Podemos ver o um exemplo disto em Atos 2.22-24. Pedro apresenta Jesus falando de sua vida, morte e resurreissão. Esse Jesus, que é o Filho de Deus (At 9.19) e o próprio Deus (Jo 1.1; Fp 2.5), foi concebido por obra do Espírito Santo assumindo uma natureza humana (Jo 1.14) e nasceu da virgem Maria. Viveu uma vida sem pecado (Hb 7.26), pregando, ensinando e realizando muitos milagres. Foi crucificado e levou sobre Si os nossos pecados (1 Pe 2.24), morrendo a morte que nós merecíamos (Hb 2.9, 14-15). Tanto a vida como a morte de Cristo foram substitutivas: Ele viveu a vida que deveríamos viver e morreu a morte que deveríamos morrer. Tudo isso deve ser apresentado na evangelização, e a morte de Jesus na cruz é centro de tudo, por isso que apóstolo Paulo não negociou sua mensagem, ele insistia em dizer que pregaria a Cristo e Cristo crucificado: “Porque tanto os judeus pedem sinais, como os gregos buscam sabedoria; mas nós pregamos a Cristo crucificado, escândalo para os judeus, loucura para os gentios; mas para os que foram chamados, tanto judeus quanto gregos, pregamos a Cristo, poder de Deus e sabedoria de Deus” (1 Co 1.22-24).

c) A salvação através de Cristo somente

           Só Jesus Cristo salva o homem do pecado. É a suficiência de Cristo para perdoar os nossos pecados e nos livrar da ira vindoura. “E não há salvação em nenhum outro; porque abaixo do céu não existe nenhum outro nome, dado entre os homens, pelo qual importa que sejamos salvos” (At 4.12). “Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida; ninguém vem ao Pai senão por mim” (Jo 14.6). 
d) A necessidade de arrependimento e fé em Cristo
           Finalmente, os apóstolo ao anunciarem Cristo faziam referência à necessidade de arrependimento e fé em Jesus Cristo para serem salvos. “Arrependei-vos, pois, e convertei-vos para serem cancelados os vossos pecados” (At 3.19). ); “Por meio de seu nome, todo aquele que nele crê recebe remissão de pecados” (At 10.43). 
           Se não conclamarmos as pessoas ao arrependimento, se não falarmos que é necessário a fé, não qualquer fé, mas a fé como compromisso existencial de confiar em Cristo e depender dele, na qual nos colocamos em relacionamento com ele para obiediência, se a nossa mensagem não for dessa forma estaremos apenas convidando as pessoas a serem religiosas.


IV. A Extensão da Evangelização: “tanto em Jerusalém como em toda a Judéia e Samaria e até aos confins da terra”.

           A última característica da evangelização encontrada em Atos 1.8 é que ela deve ser global. Os discípulos seriam testemunhas em Jerusalém (a cidade onde se encontravam), Judéia (a província da qual Jerusalém era uma cidade, e que incluía muitas outras cidades), Samaria (uma província que no passado era parte do Reino do Norte de Israel) e até nos confins da terra (outros países do mundo). Se você ler o livro de Atos percebe que foi exatamente assim que aconteceu a espansão do evangelho. No texto da grande comissão de Mt 28.18-20 e nos paralelos de Lc 24.44-49 e Mc 16.15 está enfatizando o caráter mundial da pregação do evangelho.
           Para o nosso contexto poderíamos dizer que Jerusalém representa a nossa cidade, Judéia o nosso Estado, Samaria o nosso país e os confins da terra representam outras nações.
           É evidente que a parte final do versículo não se aplica a todas as pessoas, há aqueles a quem o Senhor vocacional para a obra missionária em outras culturas, seja no Brasil ou outras nações, mas todos nós podemos estar envolvidos em missões locais.
           Em missões locais o primeiro passo é compartilhar o evangelo àqueles que que stão próximos de nós, familiares, amigos, vizinhos, colegas de trabalho etc. Além de evangelizar por palavras permita que seja perceptível em sua vida a obra que Jesus realizou, que outros enxerguem como o evangelho tem transformado sua vida.
           Quanto ao anúncio do evagelho aos desconhecidos você pode estar se integrando com o programa evangelístico de nossa igreja.
           E por que não como igreja local sonharmos e orarmos a favor de uma obra evangelística mais extensa, investirmos em missões em outras cidades e estados do Brasil. Se pudermos no futuro enviar alguém um campo missionário distante devemos aproveitar a oportunidade de sermos participantes do avanço do Reino de Deus, caso haja impossibilidade por alguma razão, podemos por exemplo ajudar aqueles que já estão em campos missionários.
           Ainda há regiões do Brasil que necessitam de investimento missionário, onde o evangelho ainda não chegou plenamente. Vejamos o exemplo das tribos indígenas no Brasil, segundo o missionário presbiteriano Ronaldo Lidório: 

Tribos conhecidas: 218 (população: 353.881)
Tribos isoladas: 33 (população: 1.853)
Tribos a serem pesquisadas: 50 (população estimada: 2.735)
Tribos com existência duvidosa: 48 (população: 2.217)
Total de tribos existentes: 349 (população: 360.686). ³

Dessas tribos: 72 não alcançadas, 46 alcançadas só por Missões Católicas, 4 alcançadas só por Leigos,2 alcançadas só com Tradução, 75 alcançadas satisfatoriamente, 8 alcançadas e com Liderança Autóctone, 9 com situação indeterminada, 118 sem presença missionária evangélica.
A realidade a respeito desta centena de tribos brasileiras não alcançadas envolve línguas complexas, lugares inacessíveis, possibilidade de embates tribais, enfermidades, isolamento e especialmente restrições legais. É preciso sentar e calcular o preço da construção da torre.³

           Quem falará de Cristo a eles? Por que não você?
           De fato há muitos desafios na missão transcultural, mas se houver alguém que tem sido chamado pelo Senhor para essa obra, lembre-se: “Em verdade vos digo que ninguém há que tenha deixado casa, ou irmãos, ou irmãs, ou mãe, ou pai, ou filhos, ou campos por amor de mim e por amor do evangelho, que não receba, já no presente, o cêntuplo de casas, irmãos, irmãs, mães, filhos e campos, com perseguições; e, no mundo por vir, a vida eterna” (Mc 10.29-30).
           Mas ainda que não tenhamos sido chamados para uma obra trans- cultural, podemos participar intercedendo em favor dos missionários, e contribuindo financeiramente para que a igreja do Senhor esteja dando o suporte necessário àqueles que estão no campo missionário.


Conclusão

           Diante do que a Palavra de Deus nos expõe acerca da evangelização, sabemos que já somos batizados com o Espírito Santo, portanto, já temos o poder necessário para o exercício da missão.
           Que a evangelização seja algo natural para cada um de nós, que tenhamos ousadia, fidelidade bíblica ao proclamarmos as boas novas de salvação.
           E que cada um de nós possa ser um missioário(a).




Notas
1 Wayne Grudem, Teologia Sistemática, pág.639
2 Idem
3 http://www.novastribosdobrasil.org.br/index.php?option=com_k2&view=item&layout=item&id=11&Itemid=103
3 Idem

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