João 15.1-11 - A relação da videira com os ramos

João 15.1-11


Introdução

           A ilustração da videira não era estranha aos israelitas. No Salmo 80.8-19 nós vemos uma parábola na qual Israel é apresentado como sendo a videira de Deus. Diz o texto que foi o Senhor que trouxe-a do Egito e plantou-a (v.8), fala das bênçãos que o senhor lhe concedeu (v. 9-11), mas em face a sua desobediência o salmista Asafe constata o juízo divino sobre ela (v. 12-13) e por fim ele faz um clamor para que o Senhor restaure à Israel (v.14-19). 
           Agora Jesus apresenta-se como a verdadeira videira. E o seus discípulos são os ramos, logo há uma relação muito especial testemunhada nessa ilustração. O texto de João 15 nos mostra essa relação da videira e os ramos.


A relação da videira com os ramos


I - A essência dessa relação, v. 1-3.

           O texto inicia com jesus afirmando ser a videira verdadeira e o Pai como sendo o agricultor. Deus é tanto aquele que planta como aquele que cultiva a videira. Foi ele que nos pôs em um relacionamento especial com Cristo mediante a operação do Espírito Santo e mantêm-nos neste relacionamento, é como nos diz 1 Co 12.13: "Pois, em um só Espírito, todos nós fomos batizados em um corpo, quer judeus, quer gregos, quer escravos, quer livres. E a todos nós foi dado beber de um só espírito". Estamos ligados a Cristo de uma forma mística, como um organismo vivo, sendo que espiritual. Mas uma vez ligados a Cristo temos o dever de frutificar. Pois já fomos limpos pela palavra. E este "limpo" aqui tem o sentido de já ter assumido o discipulado com Cristo, já ter abraçado o seu ensino e se comprometido existencialmente com ele, portanto refere-se à salvação. E é por isso que em Jo 13.10 Jesus diz que: "Quem já se banhou não necessita lavar senão os pés; quanto ao mais, está todo limpo. Ora, vós estais limpos, mas não todos". A exceção apresentada era sobre Judas. 
           Ele diz v. 2 que corta o ramo que não dá fruto. Há um pequeno problema de tradução aqui. Alguns querem usar esta expressão para afirmar que Jesus está se referindo a cristãos que não frutificam e por isso irão perder sua salvação. Outros afirmam que o ramo que não dá fruto é justamente aquele que de fato não tem a salvação, está na igreja instituição, mas não é igreja organismo espiritual, e por isso é cortado pelo Senhor. No entanto a expressão no original grego é AIRÔ (levantar, remover). Mas pensemos, o ponto principal dessa parábola é relacionamento, não filiação. “Levantar” sugere uma imagem de um agricultor se abaixando para erguer um galho. Quando o galho está no chão as folhas podem estar cheias de poeira, ou de lama caso haja chuva, o agricultor portanto o levanta e amarra junto com outros galhos para que venha a frutificar. Portanto Jesus nos diz que o agricultor irá até aquele galho que não está dando fruto para restaurá-lo, para trazê-lo de volta à comunhão, para que venha a ser um cristão frutífero novamente. Não deixa de implicar aqui a disciplina do senhor na busca pela restauração da comunhão do seu filho. O propósito da disciplina é limpá-lo e levantá-lo para que você viva uma vida frutífera para a glória de Deus. A disciplina é um ato doloroso, mas um ato de amor. A disciplina não é agradável nem para o filho, nem para o Pai, mas a disciplina é a demonstração de um amor responsável. A disciplina é o método de Deus para tirar você de esterilidade. Hebreus 12:5-6 mostra que Deus toma a iniciativa de corrigir os filhos que se desviam assim como o Viticultor toma as medidas necessárias para corrigir um galho desviado.
           Acautele-se das falsas videiras, apegue-se à verdadeira videira, para que seja frutífero.
           Como ramo ligado à videira que já foi limpo pelo Senhor você tem que frutificar. O dar fruto aqui se refere a uma vida de obediência plena.


II - A necessidade dessa relação, v. 4-8.

           Um ramo de videira não tem vida nem utilidade se não continuar ligado à videira. Sem estarmos ligados à Jesus, no sentido da comunhão, não temos como produzir o fruto do Espírito. O Apóstolo Paulo expressa a mesma ideia em uma outra linguagem: "... já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim; e esse viver que, agora, tenho na carne, vivo pela fé no Filho de Deus, que me amou e a si mesmo se entregou por mim" (Gl 2.20); e Fp 4.13: "tudo posso naquele que me fortalece". Somente em Cristo, por Cristo e para Cristo é que podemos viver de modo que agrade ao Senhor. 
           A síntese desses versículos é: "sem mim nada podeis fazer". E Jesus usa essa expressão porque era bem compreensível em conexão com a ilustração da videira para seus ouvintes da época. Em Ezequiel 15.1-8 é mostrado que a madeira da videira se cortada não tem utilidade para nada, não se pode fazer móveis com ela, não tem como reaproveitá-la. Assim sendo, obras que são feitas sem que sejam em Cristo não tem utilidade diante do Senhor. Nada podemos fazer para agradá-lo se não for por meio de Cristo. Não há como produzir fruto sem comunhão com Cristo. 
           Na prática não há diferença entre Jesus habitar pessoalmente em seus discípulos e suas palavras permancerem neles. E é isso o que também nos mostra o cap. 8.31, 32: "Se vós permanecerdes na minha palavra, sois verdadeiramente meus discípulos; e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará". A fé que leva à união com Cristo manifesta-se no discipula verdadeiro, cujas evidências são a obediência, o amor e a alegria. Se alguém ainda que depois de ser disciplinado pelo Senhor não permanecer no Senhor, ou seja, não quer ter comunhão com ele, não vive em oração (v. 7), não quer viver em obediência aos seus mandamentos (v. 10), então perderá a comunhão com ele, será lançado fora dessa comunhão (v.6), traz aí o grau da disciplina que é o castigo divino para aquele que não se arrepende.


III - Os resultados dessa relação, v.9-11.

           O que acontece quando permanecemos no amor de Cristo? Os v. 9 e 10 nos responde. Jesus faz a comparação do seu amor para conosco com a forma pela qual ele foi amado pelo Pai. Em Jo 8.29 ele diz que o pai não o deixou, porque ele faz sempre o que lhe agrada. Portanto, ao permanecermos em Cristo, vivemos o sentimento do amor de Cristo para conosco, nada é mais reconfortante. Ele jamais nos abandona, jamais nos deixa só.
        Uma outra evidência da relação de Jesus, a videira verdadeira, com os ramos que frutificam é a obediência à Palavra de Deus, como nos mostra o v. 10. Desse modo podemos ter a certeza da sua presença constante.
           No v. 7 também  Jesus faz referência às respostas às nossas orações.
        E por fim no v. 11 ele diz da alegria que estará presente na vida daquele que vive em verdadeira obediência ao Senhor.


Aplicações

1. Busque viver para a glória de Deus. E a única forma disso é sendo um cristão frutífero.

2. Se você vier a ser disciplinado pelo Senhor não desanime, ele faz tudo por amor a você.

3. Cuidado com o sentimento de autossuficiência, reconheça que você está firme espiritualmente é porque o Senhor te sustenta. 

4. Glorifique à Deus em tudo o que você faz, mas lembre-se que para o Senhor o mais importante não são suas obras, mas é você mesmo em relacionamento íntimo com ele.

5. Não permite que nada interfira na sua alegria com Cristo, não permita que o pecado o prive do prazer dessa comunhão.


Conclusão

           Sem ele não podemos agradar a Deus. Tornamo-nos uma igreja sem fruto, sem amor. Portanto, vivamos como o nosso Mestre e frutificaremos em meio à sequidão desse mundo.


BRUCE, F.F. João: introdução e comentário. Editora Vida Nova, 1ª edição, São Paulo - SP, 2005.


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