Marcos 10.17-31 - RIQUEZA MATERIAL X RIQUEZA ESPIRITUAL

Introdução

           "Jovem" rico? Os três relatos sinóticos são uniformes em apresentar este homem como "rico justo" (Goppelt, Theologie, p 132.135). Só em Mt 19.20,22 ele é chamado de passagem de "jovem", porém é preciso levar em consideração que os judeus podiam chamar os homens de menos de 40 anos de "jovens". Contra a nossa idéia de juventude também se levanta o fato de que, segundo Lc 18.18, se trata de um "homem de posição" (archon). Pode ser que ele ocupava a posição de presidente de sinagoga (Lc 8.41; cf 5.22n), de juiz (Lc 12.58) ou de membro do Conselho Superior. 



I - A IGNORÂNCIA PESSOAL DOS PECADORES, V. 17-20.

           v. 17 e 18. Este relato retrata muito mais do que podemos perceber com uma rápida leitura. Olhemos com atenção o texto e veremos como se encontra revelado nessa experiência individual de um homem conversando com Jesus algo genérico a todos os pecadores, a sua ignorância acerca de sua própria vida sob o domínio do pecado bem como sobre a vida espiritual e sobre o próprio Cristo. Vemos então primeiramente a ignorância daquele homem acerca da pessoa de Jesus.  O rapaz corre até Cristo e se ajoelha diante dele, chamando-o de "Bom Mestre". Jesus responde dizendo que somente Deus é bom (indicando a divindade de Cristo: se somente Deus é bom, e Cristo é bom, logo Cristo é Deus). As vezes as pessoas ao lerem esse texto parecem ter a impressão que Jesus estava negando a sua própria bondade, mas não é esse o caso, o que ocorre é o contrário, ele estar afirmando-a, quando diz que ninguém é bom  senão um que é Deus, ele está afirmando que ele é bom porque ele é Deus. Na sua ignorância o homem rico o ver apenas como bom, mas não como Deus. 
           E a resposta de Jesus também demonstra o conceito do homem acerca de si, pois certamente ele considerava-se um homem bom. Desconhecia a sua própria malignidade, não a enxergava. Era sincero porque verdadeiramente estava em busca do reino de Deus, mas o buscava de uma forma errada, confiando em seus próprios méritos (v. 19 e 20). Estava preso à Lei, sem entender que precisava perceber o quanto é pecador para herdar a vida eterna, ser liberto pelo evangelho. E quantos hoje não são assim, quantos não se consideram bons? Quantos à semelhança dele apresentarão diante de Deus aquilo que tem conseguido fazer? À semelhança de muitos aquele homem estava enganado a respeito da salvação. A salvação não consiste naquilo que fazemos para Deus, mas naquilo que Deus fez em Cristo por nós.
           Mas mesmo em face a ignorância daquele homem vemos a reação graciosa de Jesus.


II - O AMOR DE CRISTO PARA COM OS PECADORES, V. 21 E 22.

           O texto nos diz que Jesus "o amou". Alguns comentaristas afirmam que a expressão traz o sentido de que Jesus o abraçou, demonstrou afeto por ele. Jesus então de forma amorosa mostra àquele homem o quanto ele estava enganado. pensava ser cumpridor da Lei, mas estava na verdade infringindo-a, pois a Lei diz: Amarás a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como ati mesmo. Aquele rapaz amava o dinheiro mais do que ao Senhor, seu deus era o dinheiro, diante das palavra de Jesus ele se entristece. Ele teria que aprender a viver pela fé, a confiar na providência divina, ele sempre pôs sua confiança em suas posses, segundo Paulo isso é bastante enganoso: "Exorta aos ricos do presente século que não sejam orgulhosos, nem depositem a sua esperança na instabilidade da riqueza, mas em Deus, que tudo nos proporciona ricamente para nosso aprazimento" (1 Tm 6.17). O que fará aquele que confia no dinheiro diante de uma doença terminal, diante da perda de um ente querido? Momentos nos quais se percebe a verdade expressa pelo apóstolo Paulo. 
           Por amá-lo Jesus utiliza de cinco imperativos para ele: vai, vende tudo o que tens, dá-os aos pobres, vem e segue-me. E a promessa de Jesus caso ele cumprisse tudo isso era um tesouro no céu. Ele descobriria que nada se compara a esse tesouro, que aquilo que o Senhor tem reservado para os seus é tão valioso que mente humana jamais penetrou, jamais percebeu, como é dito em 1 Co 2.9: “Nem olhos viram, nem ouvidos ouviram, nem jamais penetrou em coração humano o que Deus tem preparado para aqueles que o amam". Portanto, se algo o prende, seja o dinheiro, seja o poder, seja o sentimento de liberdade, seja a busca pela felicidade (deuses modernos) seja qualquer outra coisa, que você possa deixar tudo isso de lado para receber o tesouro que Cristo te oferta!
           Infelizmente aquele rapaz saiu triste, pensando nas coisas que teria que renunciar. A Bíblia não volta a falar sobre ele, se permaneceu preso aos bens materiais, então partiu para uma condenação eterna. Evangelho é renúncia, vida com Deus é renúncia às coisas desse mundo por amor à Cristo.


III - O PERIGO CAUSADO PELO AMOR AO DINHEIRO, V. 23-27.

           Jesus agora explica aos seus discípulos a grande lição que eles poderiam aprender da  conversa que testemunharam: a impossibilidade de salvação para aqueles que colocam em seus corações a riqueza como seu deus. E para isso ele utiliza uma ilustração interessante. "E mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no reino de Deus" (v. 25). 
                    O camelo era o maior animal da palestina e o fundo de uma agulha o menor orifício conhecido na época. Alguns intérpretes tentam explicar que esse fundo da agulha era uma porta da muralha de Jerusalém onde um camelo só podia passar ajoelhado e sem carga. Mas, isso altera o centro do ensino de Jesus: a impossibilidade definitiva de salvação para aquele que confia no dinheiro. (Herdandes Dias Lopes)
           O problema não é o dinheiro em si, mas o amor ao mesmo, Jesus nos diz claramente em Mt 6.19-21: "Não acumulem para vocês tesouros na terra, onde a traça e a ferrugem destroem, e onde os ladrões arrombam e furtam. Mas acumulem para vocês tesouros nos céus, onde a traça e a ferrugem não destroem, e onde os ladrões não arrombam nem furtam. Pois onde estiver o seu tesouro, aí também estará o seu coração." Portanto, é estranho ao evangelho de Cristo esta ênfase que fazem nos nossos dias acerca do dinheiro e da busca de riqueza pelo cristão. Jesus é taxativo: "Ninguém pode servir a dois senhores; porque ou há de aborrecer-se de um e amar ao outro, ou se devotará a um e desprezará ao outro. Não podeis servir à Deus e às riquezas" (Mt 6.24).
           Os discípulos demonstraram perplexidade diante de tal questão: "Neste caso, quem pode ser salvo?" (v.26).
            v. 27 "Para o homem é impossível". A salvação não pode ser alcançada pelo mérito humano. "Não há nenhum justo", Rm 3.10. "Todos pecaram e estão destituídos da glória de Deus", Rm 3.23. "O salário do pecado é a morte", Rm 6.23. Nenhum ser humano pode salvar-se a si mesmo, porque todos estão debaixo de condenação ("uma só transgressão resultou na condenação de todos os homens", Rm 5.18). Mas graças a Deus por Jesus Cristo (Rm 7.25)! Como "todas as coisas são possíveis para Deus", Ele "deu-nos vida com Cristo, quando ainda estávamos mortos em transgressões - pela graça vocês são salvos", Ef 2.5. "Pois vocês são salvos pela graça, por meio da fé, e isto não vem de vocês, é dom de Deus", Ef 2.8. Somos salvos única e exclusivamente pela graça de Deus em Cristo Jesus. O que é impossível para os homens (a obtenção da salvação), foi realizado por Deus.


IV - AS GLORIOSAS PROMESSAS AO PECADORES ARREPENDIDOS, V.28-34.

           De acordo com o texto paralelo em Mt 19.27, Pedro acrescentou: "Que será, pois, de nós?" - uma pergunta que os intérpretes gostam de denunciar como ganância mesquinha por recompensa. 
           Karl Barth também a considera uma "queda que dificilmente dá para esconder". Pedro estaria olhando arrependido para tudo de que abrira mão, e não estaria longe do rico que amou seus bens mais que Deus. O Senhor, porém, acolheu a pergunta de Pedro com boa vontade, e lhes fala acerca da recompensa reservada a eles. As promessas de Cristo para os pecadores arrependidos constitue-se na verdadeira riqueza. Essa recompensa manifesta-se já nesta vida através do cuidado especial de Deus na vida de Seus servos. Como as pessoas podem receber cem vezes mais irmãos, pais e mães? Receberá cem vezes mais na família de Cristo, a Igreja. E se Ele nos enviar a um lugar onde nem ao menos tenhamos a companhia de outros crentes, Ele mesmo será a nossa companhia, o nosso pai, a nossa mãe, o nosso irmão, o nosso tesouro, o nosso recurso. Receberemos cem vezes mais na forma de Sua presença conosco, de Seu amor, de Seu cuidado. Quando abandonamos nosso conforto, nossas posses, nossos planos, nossos sonhos - nossa vida inteira - por causa de Cristo e do evangelho, recebemos em troca nada menos do que o próprio Cristo, a promessa do evangelho! Efetivamente, Ele será para nós Emanuel, "Deus conosco". Haverá sofrimento, haverá dor, porque renúncia implica tudo isso. Haverá dificuldades. Mas assim como Moisés, que "preferiu ser maltratado com o povo de Deus a desfrutar os prazeres do pecado", porque "contemplava a sua recompensa" (Hb 11.25,26), também nós devemos erguer nosso olhar além das coisas materiais deste mundo e contemplar a Cristo, nossa riqueza, nosso tesouro, nossa recompensa. "Nele estão escondidos todos os tesouros da sabedoria e do conhecimento", Cl 2.3.
            A beleza de nosso Deus é nosso tesouro maior, nossa recompensa definitiva, e vale infinitamente mais do que qualquer coisa que este mundo decadente e perverso possa oferecer.
           v. 31 "Porém, muitos primeiros serão os últimos; e os últimos, primeiros". Aqui o tom é de consolo. Quando todas as coisas forem subvertidas um dia, os mortos serão ressuscitados, os pobres consolados, os famintos saciados, os tristes alegrados, os pequenos engrandecidos, os doentes curados, os presos libertados, em resumo, os últimos serão os primeiros (cf 9.35). Naturalmente isto pressupõe o inverso, que os primeiros serão derrubados da sua posição elevada. Aqui, porém, a declaração se concentra na reabilitação dos últimos, totalmente no sentido do v 30b. 


APLICAÇÕES

1. Não se engane sobre sua realidade se você ainda não se entregou de modo pleno a Cristo, você está separado de Deus. Não viva um auto-engano se iludindo pensando que está tudo bem apenas porque se comporta dentro de um determinado padrão moral. Você precisa ser liberto de sua presunção humana pelo poder do evangelho.

2. Busque ser um mordomo fiel daquilo que o Senhor tem posto em suas mãos. Que você possa prosperar financeiramente, por meio do trabalho honesto e abençoado pelo Senhor, mas que nunca venha a fazer do dinheiro o seu Deus. Há muitos que embora com os lábios digam que estão servindo a Cristo, mas na verdade estão sendo servos do dinheiro e como incentivam os propagadores da prosperidade ainda relacionam isto à Deus. Lembre-se, Jesus não disse vai, planta uma semente de prosperidade (como uma oferta de R$ 900 ou 1.000), depois vem e segue-me.


CONCLUSÃO

           Que jamais esqueçamos de Mt. 6:33 “Mas buscai primeiro o reino de Deus e a sua justiça, e as demais coisas vos serão acrescentadas.” 

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