OS DÍZIMOS NO CONTEXTO BÍBLICO
Malaquias 3.6-12


 Introdução
           Uma das doutrinas mais mencionadas em nossos dias é esta dos dízimos. Também é uma das mais distorcidas, mais incompreendidas. Muitos, intencionalmente e maliciosamente, sem utilizar uma exegese dos textos usa-os de modo a satisfazer suas visões pré-concebidas a respeito do assunto. Outros falam do tema até bem intencionados, no entanto, por falta de conhecimento acabam por cometer erros a respeito dessa doutrina tão polêmica para alguns. Não faltam exageros, distorções e esquecimento total ou parcial de alguns textos quando se fala de dízimos. Desejamos, portanto, analisar à luz dos textos bíblicos essa doutrina, perceber até onde nossa prática tem sido bíblica de fato e correlacionar o assunto com a vida do cristão individualmente e a vida da igreja do Senhor.


Como as igrejas entendem os dízimos atualmente

           Ao contrário do que possa se pensar este tema ainda causa controvérsia. A maioria das igrejas tidas como evangélicas aceitam a doutrina dos dízimos como sendo bíblica e o mesmo um mandamento a ser vivenciado pelos cristãos. Outras, como as igrejas neopentecostasis, falam do tema com um tipo de investimento a ser feito no relacionamento com Deus no que tange à nossa prosperidade material, logo, para essas igrejas o dízimo é na verdade um investimento financeiro. Há também algumas poucas igrejas que entendem que dízimo é apenas para o contexto do Antigo Testamento, e, portanto, não é um dever cristão.
           Certo é que este é um dos assuntos mais falado, e é muito frequente em algumas igrejas históricas sempre que há uma queda nas finanças o pastor pregar a respeito. Nas igrejas neopentecostais e semelhantes a pregação sobre dízimos é constante, pois o enfoque da mensagem dessas igrejas encontram-se na prosperidade e há sem dúvida uma intenção mascarada de se obter o máximo possível de valor financeiros das pessoas.


Interpretando os textos

          Gênesis 14.18-24 - E Melquisedeque, rei de Salém, trouxe pão e vinho; e era este sacerdote do Deus Altíssimo.
E abençoou-o, e disse: Bendito seja Abrão pelo Deus Altíssimo, o Possuidor dos céus e da terra;
E bendito seja o Deus Altíssimo, que entregou os teus inimigos nas tuas mãos. E Abrão deu-lhe o dízimo de tudo. 
           Percebemos neste texto Abraão entregando o seu dízimo a Melquisedeque. É importante citarmos este texto porque não havia naquela época ainda a Lei para ordenar o povo a estarem dizimando. Desse modo, Abraão o fez não como cumprimento de uma ordem expressa, nem com o objetivo de que uma classe sacerdotal pudesse ser sustentada. A atitude de Abrão foi então baseada em percepção de que ele não tinha o direito de reter tudo o que o Senhor lhe concedeu, e certamente motivado também pela gratidão de ter sido abençoado materialmente pelo Senhor.
           Gênesis 28.18-22 é outro texto anterior à Lei e que por sua vez mostra Jacó comprometendo-se com o Senhor de dar o dízimo de tudo em face à proteção e à providência do alimento.
           Levítico 27. 30-34 – Este texto nos mostra que o Senhor exigia as dízimas das colheitas, e do gado e do rebanho.
           Números 18.21-32 e Deuteronômio 14.22-29 são textos que enfatizam o dízimo como sendo para o sustento dos levitas, da tribo de Levi, que tinham o encargo de trabalhar para a manutenção do tabernáculo. Não receberam herança na terra de Canaã, portanto deveriam ser sustentados por todas as demais tribos. O dízimo, portanto, aqui passa a ser uma obrigação por parte dos israelitas para não deixar os levitas desamparados.
           Ml 3.6-16 - Malaquias apela ao povo para que se volte ao Senhor e à observância de Suas ordenanças, especialmente com relação aos dízimos (v. 8). Vinham furtando a Deus não Lhe dando o que Lhe era devido. Isso tinha feito descer sobre eles uma maldição. Note-se que, no versículo 9, me é enfático no hebraico. Todos os dízimos (10); isso sugere que algumas pessoas haviam deixado de trazer os dízimos. Mas, o hebraico também pode ser traduzido como "o dízimo inteiro", o que significaria que o povo estava retendo uma parte do que deveria ser trazido. Os tempos eram reconhecidamente difíceis, mas Malaquias apelou para que pusessem Deus à prova, trazendo para a Sua casa aquilo que a lei exigia. Então as janelas do céu seriam abertas (uma frase que sugere que vinham experimentando seca e colheitas insuficientes), e haveria mais que suficiente para todos. Que dela vos advenha a maior abastança (10). O hebraico diz, lit., "até não haver qualquer suficiência", que deve ser compreendido com o sentido de "até não haver mais qualquer necessidade". Quanto à casa do tesouro ver Ne 13.5. O devorador (11); isto é, o "gafanhoto". Vos não será estéril (11). A causa da vide produzir frutos abundantes seria que a mangra e a ferrugem já não atacariam as plantas (I. C. C.). Quando as nações circunvizinhas vissem a prosperidade que se segue à liberalidade para com Deus, julgariam corretamente que era por ação do Senhor que Seu povo era abençoado.
           O texto de Malaquias na realidade não pode ser usado fora de seu contexto para falar de dízimo para a igreja hoje. Embora muitos façam isso, é um erro hermenêutico, pois o texto em questão fala apenas da responsabilidade pactual do povo de Israel em sua aliança com o Senhor. Portanto, Malaquias 3.10 não é um mandamento para a igreja do Senhor.
           Mateus 23.23; Lucas 11.37-44 – Jesus não condena a prática do dízimo por parte dos escribas e fariseus, o que ele condenou era a hipocrisia e o legalismo deles, pois embora dessem todos os dízimo esqueciam aquilo que é mais importante na Lei: o amor de Deus, a misericórdia no relacionamento com o próximo, a justiça e a fé.
           Hebreus 7.1-10 – Outro texto no novo testamento que fala de dízimo e que faz referência ao ato de Abraão de entregar o dízimo a Melquizedeque. Ao comentar o v. 8 o ver. Hernandes Dias Lopes escreve: “Hebreus nos faz perceber e reconhecer a superioridade do valor do dízimo que é dado a Cristo (imortal) em relação ao dado aos sacerdotes (mortais)”.


Conclusão

           Desejamos a concluir afirmando que o argumento de que os dízimos se aplica apenas para o contexto do Antigo Testamento não se sustenta biblicamente. Afinal a sua prática é anterior à lei. Portanto, pode ser usado nos dias de hoje pela igreja, desde que fique claro que não se trata a uma mera obediência seca à Lei, é um princípio espiritual e aqueles que verdadeiramente foram salvos em Cristo não sentirão dificuldade quanto a esta questão, pois de fato estarão preocupadas com o que concerne ao sustento físico da obra de Deus.
          Há muitas racionalizações das pessoas para não dizimar, para contrapor a tantos argumentos citaremos Hernandes Dias Lopes: http://hernandesdiaslopes.com.br/2004/05/as-razoes-dos-nao-dizimistas/
Eis as justificativas clássicas dos não-dizimistas:

I. JUSTIFICATIVA TEOLÓGICA
Ah, eu não sou dizimista, porque DÍZIMO é da lei. E eu não estou debaixo da lei, mas sim da graça.
Sim! O dízimo é da lei, é antes da lei e é depois da lei. Ele foi sancionado por Cristo. Se é a graça que domina a nossa vida, porque ficamos sempre aquém da lei? Será que a graça não nos motiva a ir além da lei?
Veja: a lei dizia: Não matarás = EU PORÉM VOS DIGO AQUELE QUE ODIAR É RÉU DE JUÍZO
a lei dizia: Não adulterarás = EU PORÉM VOS DIGO QUALQUER QUE OLHAR COM INTENÇÃO IMPURA…
a lei dizia: Olho por olho, dente por dente = EU PORÉM VOS DIGO: SE ALGUÉM TE FERIR A FACE DIREITA, DÁ-LHE TAMBÉM A ESQUERDA.
A graça vai além da lei: porque só nesta questão do dízimo, ela ficaria aquém da lei? Esta, portanto, é uma justificativa infundada.
Mt 23.23 = justiça, misericórdia e fé também são da lei. Se você está desobrigado em relação ao dízimo por ser da lei, então você também está em relação a estas virtudes.

II. JUSTIFICATIVA SENTIMENTAL
Muitos dizem: A bíblia diz em II Co 9.7 “Cada um contribua segundo tiver proposto no coração, não com tristeza ou por necessidade; porque Deus ama a quem dá com alegria” = espontânea e com alegria.
Só que este texto não fala de dízimo e sim de oferta. Dízimo é dívida. Não pagar dízimo é roubar de Deus.
Perguntamos também: O que estará acontecendo em nosso coração que não permite que não tenhamos alegria em dizimar? Em sustentar a Causa que abraçamos e defendemos?

III. JUSTIFICATIVA FINANCEIRA
“O que eu ganho não sobra ou mal dá para o meu sustento.
1) O dízimo não é sobra = Dízimo é primícias. “Honra ao Senhor com as primícias da tua renda.” Deus não é Deus de sobras, de restos. Ele exige o primeiro e o melhor.
2) Contribua conforme a tua renda para que a tua renda não seja conforme a tua contribuição = Deus é fiel. Ele jamais fez uma exigência que não pudéssemos cumprir. Ele disse que abriria as janelas dos céus e nos daria bênçãos sem medidas se fôssemos fiéis. Ele nos ordenou a fazer prova Dele nesta área. Ele promete abrir as janelas do céu! Ele promete repreender o devorador por nossa causa.
3) Se não formos fiéis, Deus não deixa sobrar = Ageu diz que o infiel recebe salário e o coloca num saco furado. Vaza tudo. Foge entre os dedos. Quando somos infiéis fechamos as janelas dos céu com as nossas próprias mãos e espalhamos o devorador sobre os nossos próprios bens.

IV. JUSTIFICATIVA ASSISTENCIAL
“Prefiro dar meu dízimo aos pobres. Prefiro eu mesmo administrar meu dízimo.
“ A Bíblia não nos autoriza a administrar por nossa conta os dízimos que são do Senhor. O dízimo não é nosso. Ele não nos pertence. Não temos o direito nem a permissão nem para retê-lo nem para administrá-lo.
A ordem é: TRAZEI TODOS OS DÍZIMOS À CASA DO TESOURO PARA QUE HAJA MANTIMENTO NA MINHA CASA. A casa do Tesouro é a congregação onde assistimos e somos alimentados.
Mas será que damos realmente os “nossos” dízimos aos pobres? Com que regularidade? Será uma boa atitude fazer caridade com a parte que não nos pertence?

V. JUSTIFICATIVA POLÍTICA
“Eu não entrego mais os meus dízimos, porque eles não estão sendo bem administrados.”
Não cabe a nós determinar e administrar do nosso jeito o dízimo do Senhor que entregamos. Se os dízimos não estão sendo bem administrados, os administradores darão conta a Deus. Não cabe a nós julgá-los mas sim Deus é quem julga. Cabe a nós sermos fiéis.
Não será também que esta atitude seja aquela do menino briguento, dono da bola, que a coloca debaixo do braço sempre que as coisas não ocorrem do seu jeito?
Deus mandou que eu trouxesse os dízimos, mas não me nomeou fiscal do dízimo.

VI. JUSTIFICATIVA MÍOPE
“A igreja é rica e não precisa do meu dízimo.”
Temos conhecimento das necessidades da igreja? Temos visão das possibilidades de investimento em prol do avanço da obra? Estamos com essa visão míope, estrábica, amarrando o avanço da obra de Deus, limitando a expansão do Evangelho?
AINDA, não entregamos o dízimo para a igreja. O dízimo não é da igreja. É DO SENHOR. Entregamo-lo ao Deus que é dono de todo ouro e de toda prata. Ele é rico. Ele não precisa de nada, mas exige fidelidade. Essa desculpa é a máscara da infidelidade.
VII. JUSTIFICATIVA CONTÁBIL
“Não tenho salário fixo e não sei o quanto ganho.”
Será que admitimos que somos maus administradores dos nossos recursos? Como sabemos se o nosso dinheiro dará para cobrir as despesas de casa no final do mês?
Não sabendo o valor exato do salário, será que o nosso dízimo é maior ou menor do que a estimativa? Porque ficamos sempre aquém da estimativa? Será auto-proteção? Será desinteresse?

VIII. JUSTIFICATIVA ECLESIOLÓGICA
“Não sou membro da igreja”
Acreditamos mesmo que os nossos deveres de cristãos iniciam-se com o Batismo e a Profissão de Fé ou com a inclusão do nosso nome num rol de membros?
Não será incoerência defendermos que os privilégios começam quando aceitamos a Cristo: (o perdão, a vida eterna) e os deveres só depois que nos tornamos membros da igreja? Somos menos responsáveis pelo crescimento do Reino de Deus só porque não somos membros da igreja?

É hora de abandonarmos nossas evasivas. É hora de darmos um basta às nossas desculpas infundadas. É hora de pararmos de tentar enganar a nós mesmos e convencer a Deus com as nossas justificativas.
É hora de sermos fiéis ao Deus fiel. É hora de sabermos que tudo é de Deus: nossa casa, nosso carro, nossas roupas, nossas jóias, nossos bens, nossa vida, nossa saúde, nossa família. TUDO É DELE. Somos apenas mordomos, administradores. Mordomos e não donos. Deus quer de nós obediência e não desculpas. Fidelidade e não evasivas.
Que atitude vamos tomar? Nosso coração está onde está o nosso tesouro. Se buscarmos em primeiro lugar o Reino de Deus, não vamos ter problemas com o dízimo. Amém.



3 comentários:

  1. bem colocado, visão equilibrada, nem avareza como desculpa para não contribuir, nem a barganha da teologia da prosperidade. Nem o dízimo como corbã, ou seja, como algo morto, sem vida.

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  2. Deus seja sempre louvado em tudo o que fazemos. E claro que ainda que venhamos aplicar MAlaquias 3.8-10, não seria ouro, grãos, reais ou dolares que estaria sendo roubado do Senhor, que não tem bancos nem governos humanos com moedas próprias, MAIS SIM SEM HÁ ROUBO é da sua honra, pois devemos sim isso ao Senhor em tudo o que fazemos deve ser para honrar ao Senhor.
    Muito próprio e Bíblico o comentário.
    Deus também seja louvado em tua vida pastor Rivaldo.
    E claro que aquele que nasceu de novo, não terá problema em louvar e honrar o seu Senhor em tudo
    abçs fraterno e amigo

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    1. Obrigado Pastor Verníck! É sempre bom lermos comentários que nos estimulam a continuar escrevendo. Toda glória ao SENHOR!
      Um abraço fraternal em Cristo!

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