Efésios 4.1-16

Introdução: O BATE-BOCA DAS FERRAMENTAS
Conta-se que na carpintaria certa vez houve uma estranha assembléia. Foi um verdadeiro bate-boca pra acertar diferenças.
           Um martelo exerceu a presidência, mas os participantes lhe notificaram que teria que renunciar. A causa? Fazia demasiado barulho; e além do mais, passava todo o tempo golpeando.
           O martelo aceitou sua culpa, mas pediu que também fosse expulso o parafuso, dizendo que ele dava muitas voltas para conseguir algo.
           Diante do ataque, o parafuso concordou, mas por sua vez, pediu a expulsão da lixa. Dizia que ela era muito áspera no tratamento com os demais, entrando sempre em atritos.
A lixa acatou, com a condição de que se expulsasse o metro que sempre media os outros segundo a sua medida, como se fora o único perfeito.
           Nesse momento entrou o carpinteiro, juntou o material e as ferramentas e iniciou o seu trabalho.
          Utilizou justamente o martelo, a lixa, o metro e o parafuso.
           Finalmente, a rústica madeira se converteu num fino móvel. Quando a carpintaria ficou novamente só, a assembléia reativou a discussão. Foi então que o serrote tomou a palavra e disse: "Senhores, ficou demonstrado que temos defeitos, mas o carpinteiro não trabalha com os nossos defeitos, mas, sim, com as nossas qualidades, com nossos pontos fortes. Assim, proponho abandonarmos esta discussão e nos concentrarmos em tarefas construtivas".
           A proposta foi aceita por unanimidade e todos se sentiram, então, uma verdadeira equipe, capaz de produzir objetos de qualidade, se unidas num mesmo propósito e nas mãos e na mente do hábil carpinteiro.
Elucidação: O apóstolo Paulo escreveu esta epístola no ano 61 d. C. quando encontrava-se prisioneiro em Roma (prisão domiciliar). É provável que Paulo embora tivesse os irmãos de uma região específica em mente como destinatários (um grupo de igrejas, por assim dizer) não enviou especificamente esta epístola apenas aos crentes em Éfeso. Porém, devido à importância daquela igreja com o tempo a carta recebeu essa nominação.
           No texto em apreço há uma exortação quanto à unidade da igreja, nos capítulos anteriores ele expôs a essência dessa nova sociedade em Cristo, agora ele passa a dizer como os membros dessa nova sociedade devem viver. E começa justamente por aquilo que é de fundamental importância, a unidade. Portanto queremos olhar para esse texto, enquanto pastores que somos percebendo a nossa responsabilidade no que diz respeito a esse tema tão fundamental para o Corpo de Cristo.

PASTORES COMPROMETIDOS COM A UNIDADE DA IGREJA

I – SÃO PASTORES QUE BUSCAM VIVER EM FIDELIDADE AO SENHOR, V. 1-2.
A expressão vocação é utilizada em dois sentidos na Bíblia, primeiramente para denotar o nosso chamado e ação do Espírito em nós para a salvação, e também para se referir à vocação específica para o serviço do reino de Deus. Queremos então fazer uma aplicação neste segundo sentido levando em consideração que fomos chamados para servir na obra de Deus justamente como consequência da salvação. Por que esta reflexão?
           A nova sociedade em cristo é caracterizada em seu interior por duas bases fundamentais, unidade e santidade. Paulo deixa claro aos seus destinatários que a igreja é um só povo, composto por judeus e gentios, e um povo santo.
          O adjetivo acsios (dignamente) tem o significado básico de “aquilo que equilibra os pratos da balança”. Vida cristã tem de ser algo equilibrado. A seguir Paulo vai nomear algumas qualidades a estar presente nesta vida equilibrada.
a) Tapeinophrosynê (humildade) – A palavra refere-se a estimar a si mesmo como pequeno, mas, ao mesmo tempo, reconhecendo o poder e a habilidade de Deus. Você reconhecerá a sua pequenez, a sua dependência do Senhor, por isso, colocará Cristo em primeiro lugar, em consequência, como todo o relacionamento cristão está bazilado no amor, colocará o outro em segundo lugar, e você virá em terceiro lugar.
           Quem compreende o que de fato é comunhão com Deus buscará viver em humildade, quem compreende o que de fato é ministério entenderá que dever ser exemplo dos fiéis, logo, buscará o exercício da humildade cristã.
b) Prautês (manso) – Atitude gentil e humilde que se expressa em uma atitude submissa perante as ofensas e injúrias, livre de malícia e desejo de vingança.
           Uma pessoa mansa é aquela que é lenta para insistir nos seus direitos. Ela abre mão dos seus direitos. Ela prefere sofrer o dano: “Na verdade é já realmente uma falta entre vós, terdes demandas uns contra os outros. Por que não sofreis antes a injustiça? Por que não sofreis antes o dano?” 1 Coríntios 6:7. Imitando a Abraão ele prefere deixar Ló fazer a melhor escolha (Gn 13:7-18). A falta de mansidão prejudica a unidade da igreja, pois na ausência dessa virtude cada um buscará seus próprios interesses, estará preocupado com seus direitos unicamente. Mansidão não é frouxidão, Jesus era manso, mas lembremos que ele derrubou a mesa dos cambistas. O manso não se dobra diante do erro, defende a verdade com coragem, mas não está preocupado meramente consigo.
           Os pastores tanto no relacionamento com a igreja quanto com os seus colegas têm que demonstrar mansidão.
c) Macrothymia (longanimidade) – é algo bem próximo de mansidão, pois é a paciência para suportar as injúrias. João Crisóstomo (século IV) dizia que longanimidade é o espírito que tem o poder de vingar-se, mas nunca o faz. A falta de longanimidade prejudica a igreja grandemente. Será que ás vezes não estamos vendo isso na igreja? Será que ás vezes não vemos isso em alguns pastores. Temos o dever de ser longânimos, lembremos de quanto o Senhor tem sido longânimo com cada um de nós.
d) Anechomenoi (part. pres. méd. de anechomai – suportar) – Mas não é suportar de qualquer forma, é suportar em amor.  A palavra suportar aqui não é aguentar o outro com resignação estóica, mas servir de amparo e suporte para o outro. Isso não por um dever amargo, mas com amor.
           Como podemos bem perceber sem essas virtudes a unidade da igreja encontra-se grandemente prejudicada. E nós pastores devemos ser os primeiros a vivenciá-las para que possamos instruir com propriedade nossas ovelhas.
           O texto também nos mostra meus irmãos que devemos entender a unidade como sendo algo constitutivo da natureza do que é ser igreja.

II – SÃO PASTORES QUE ENTENDEM O QUE É IGREJA, v. 3-6.
 A unidade na realidade é a forma natural de vida daqueles que tiveram um encontro com Cristo. O fato de fazermos parte de um mesmo corpo, de bebermos de um mesmo Espírito, de termos um mesmo Senhor, termos uma mesma esperança (é a esperança da volta de Cristo); termos uma só fé e um só batismo, um só Pai que está presente na vida de cada um particularmente e age por meio de cada um nos coloca sob uma condição de obrigação. Se há uma forma de segura de avaliar a espiritualidade de uma determinada comunidade cristã é observarmos se há verdadeira unidade em seu meio. Este relacionamento sadio vai muito além de meras palavras, embora elas sejam importantes, contanto que sejam sinceras. Evidentemente a gentileza deve fazer parte de nossos relacionamentos, o apóstolo Paulo escrevendo aos romanos no capítulo 16, versículo 16 ele diz: “Saudai-vos uns aos outros com ósculos santo.” E esta saudação não é uma saudação destituída de significado, mas uma expressão da comunhão da igreja.
          Para vivermos em unidade precisamos ter consciência de corpo. Em 1 Co 12.21, 22 está escrito: “Não podem os olhos dizer à mão: Não precisamos de ti; nem ainda a cabeça aos pés: Não preciso de vós. Pelo contrário, os membros do corpo que parecem ser mais fracos são necessários”. Logo, meus irmãos, devemos reconhecer que todos dependemos mutuamente uns dos outros. É por isso que entendemos que cristianismo não pode ser vivido adequadamente de forma isolada. Por não compreender bem isso e por terem sido decepcionadas por algumas pessoas criou-se um chavão de que só existe um amigo e somente a ele devemos ter como amigo, Jesus. Mas o curioso é que para que estejamos sendo verdadeiramente amigos dele é necessário que reconheçamos que a amizade é algo de Deus para nós, porque não podemos ter comunhão com ele se menosprezamos o nosso relacionamento com os nossos irmãos. Jesus é o único amigo perfeito, mas devemos nutrir a amizade com os amigos imperfeitos, e isso exige algo de nós: exige esforço mútuo, conforme Ef . 4.15, 16: “Mas, seguindo a verdade em amor, cresçamos em tudo naquele que é a cabeça, Cristo, de quem todo o corpo, bem ajustado e consolidado pelo auxílio de toda junta, segundo a justa cooperação de cada parte, efetua o seu próprio aumento para a edificação de si mesmo em amor.”
          “Auxílio de toda junta”. Eis aqui um desafio. Todos devem se esforçar para manter a comunhão, principalmente porque somos pessoas diferentes, cada um com seu temperamento, cada um com seus defeitos, com sua educação familiar, com seus hábitos, com sua visão particular das coisas.
           Portanto todos devemos nos esforçar:
a) nos esforçarmos para sermos mais tolerantes com erros alheios.
          Isso não quer dizer apoiar o pecado de ninguém, também não implica ficar calado diante de atitudes erradas do outro, mas não nos pormos como juízes sem misericórdia. Ou seja, esforçarmos por vivermos em sentimento de empatia.
b) esforçarmos para compreendermos que também erramos.
          Lembremos que em situações de conflito quase que sempre ambos os lados estarão errando, portanto enxerguemos nossos erros, não apenas os erros da outra pessoa.
v.3 - A unidade espiritual da igreja é uma obra exclusiva de Deus. Não podemos produzir unidade, mas apenas mantê-la. Todos aqueles que crêem em Cristo, em qualquer lugar, em qualquer tempo fazem parte da família de Deus e estão ligados ao Corpo de Cristo pelo Espírito.
          Esta unidade não é externa, mas interna. Ela não é unidade denominacional, mas espiritual. Só existe um corpo de Cristo, uma igreja, um rebanho, uma noiva.
          Esta unidade é construída sobre o fundamento da verdade (Ef 4.1-6 – uma confissão doutrinária no contexto da unidade da igreja). Por isso, a tendência ecumênica de unir todas as religiões, afirmando que doutrina divide enquanto o amor une é uma falácia. Não há unidade cristã fora da verdade.
           De fato meus irmãos, é exigido muito de nós, pois se nos comprometemos com a unidade da igreja, devemos também ter discernimento espiritual para estar enxergando os dons que o senhor tem concedido ao seu povo.

III – SÃO PASTORES QUE ADMINISTRAM AS DIVERSIDADES DE DONS, V. 7-12.
Comentando esses versículos o Rev. Hernandes Dias Lopes se expressa da seguinte forma:
                    Cristo levou cativo o cativeiro e deu dons aos homens – Cristo ascendeu ao céu como o supremo vencedor. A figura aqui é de um conquistador militar conduzindo seus cativos e distribuindo os espólios com os seus seguidores. Aqui, entretanto, os cativos não são os inimigos, mas o seu próprio povo. Os pecadores que estiveram sob o domínio da carne, do mundo e do diabo, agora são cativos de Cristo. Quando Cristo veio à terra foi ao profundo da humilhação. Quando ascendeu ao céu alcançou o máximo da exaltação. Então, ele deu dons aos homens. Que dons são esses, chamados dons de Cristo à igreja?
1. Apóstolos – Jesus tinha muitos discípulos, mas apenas doze apóstolos. Um discípulo é um seguidor, um apóstolo é um comissionado. Os apóstolos tinham que ter três qualificações: 1) Ver pessoalmente a Cristo (1 Co 9:1-2); 2) Ser testemunha da ressurreição (Atos 1:21-23); 3) Ter o ministério autenticado com milagres especiais (Hb 2:1-4). Nesse sentido não temos mais apóstolos hoje. Num sentido geral, todos nós fomos chamados para sermos enviados (Jo 20:21).
2. Profetas – Os profetas não era apenas aqueles que previam o futuro, mas, sobretudo, aqueles que proclamavam a Palavra de Deus.
3. Evangelistas – Todos os ministros devem fazer a obra do evangelista (2 Tm 4:5). Os apóstolos e profetas lançaram o fundamento da igreja e os evangelistas edificaram sobre este fundamento, ganhando os perdidos para Cristo. Cada membro da igreja deve ser uma testemunha de Cristo (At 2:41-47; 8:4; 11:19-21), mas há pessoas a quem Jesus dá o dom especial de ser um evangelista. O fato de não termos esse dom, não nos desobriga de evangelizarmos.
4. Pastores e Mestres – Constitui um só ofício com dupla função. Deus chama alguns para serem pastores e mestres. O pastor ensina e exorta. Ele alimenta, cuida, protege, vigia e consola as ovelhas (At 20:28). Ele faz isso através da Palavra. A Palavra é o alimento, é a vara e também o cajado que o pastor usa. Nenhum entretenimento ou novidade pode substituir a Palavra de Deus na igreja.
           Se os dons não forem usados para a edificação dos outros, transformam-se em armas de combate aos outros como aconteceu na igreja de Corinto (1 Co 12-14). Por isso, o pastor com vistas ao aperfeiçoamento dos santos, deve não apenas perceber os dons dos irmãos como também direcioná-los de modo a utilizarem de forma correta.

IV – SÃO PASTORES PREOCUPADOS COMA EDIFICAÇÃO DA IGREJA. V. 13-16.
v. 13 – O alvo da igreja deve ser a maturidade espiritual ou semelhança com Cristo. Para isto converge o uso correto dos dons. Para isto converge a saúde espiritual dos nossos relacionamentos. Se um pastor não estiver preocupado com isso, ele estará sendo um mero administrador de igreja, não estará sendo um pastor.
           v. 14 – Todo cristão deve vivenciar a maturidade espiritual. Há muitos irmãos instáveis, sendo iludidos por falsas doutrinas, por falsos mestres que enfatizam qualquer coisa menos a unidade da igreja. Não há igreja unida se não estiver sendo amadurecida na Palavra. Cabe então a você pastor alimentar suas ovelhas da melhor forma possível.
           v. 15 -  Seguir a verdade em amor  – A verdade sem amor é brutalidade, mas amor sem verdade é hipocrisia. “Leais são as feridas feitas pelo que ama, porém os beijos de quem odeia são enganosos” (Pv 27:6). (Rev. Hernandes Dias Lopes).
           v. 16 - Cooperação espiritual – Todos os cristãos devem se sentir responsáveis pelo crescimento do Corpo de Cristo, a responsabilidade não é apenas do pastor. Cada um tem o seu dom, cada um pode fazer a sua parte. Valorize cada um dos seus membros pastor, pois o mais simples deles ao ser alimentado pela Palavra poderá alimentar a outros.

Aplicação: 1. Como está o seu coração pastor? Entendendo que sem Cristo nada pode fazer que de fato o agrade? Enxergando a sua dependência dele? Ou já se considera autossuficiente devido sua habilidade de pregação, de ensino, de administração? Humildade é dependência de... Não é necessário mencioná-la, dizer que a possui, mas ao vivê-la todos notarão isso em você.
2. A falta de humildade prejudica a comunhão e a unidade da igreja, e o pastor deve ser o primeiro viver esta virtude. O entendimento correto de sua vocação pastoral passa por esse viéis.
3. Lembre-se pastor: a mansidão deve estar presente em sua vida. Você tem verdadeiramente se preocupado com a igreja, ou com seus direitos diante da igreja? A igreja deve honrá-lo, sem dúvida, mas essa não deve ser sua preocupação, você foi chamado para cuidar de vidas.
4. Um pastor sem longanimidade seria algo terrível. Pergunto então, você tem sabido suportar algumas injúrias que ás vezes a igreja lhe faz? E as injúrias que seus colegas fazem contra você?   Peça que o Senhor lhe capacite a suportar!
5. E como você tem suportado, em amor? Ou porque as condições que lhe cercam não lhe dão outra escolha? Reflita sobre isso.
6. Se você tem consciência de Corpo de Cristo pastor, estará priorizando a unidade nos relacionamentos acima de qualquer atividade que a comunidade que você pastoreia possa realizar.
7. Se você quer ter uma igreja unida pastor, preocupe-se também em como os irmãos estão utilizando seus dons, não se omita em seu dever de direcioná-los ao uso correto. Muitas igrejas já sofreram bastante com problemas de relacionamentos entre os irmãos pelo mau uso dos dons, e muitas vezes o líder se omitiu. Que você seja diferente!
8. Você se preocupa com a maturidade espiritual de sua igreja? Quanto tempo você utiliza para preparar uma mensagem? Qual a importância que você tem dado à instrução bíblica em sua igreja? Com que seriedade você tem visto sua necessidade de sempre estar aprendendo mais, se capacitando, se reciclando, crescendo no conhecimento das Escrituras. Lembre-se, aquelas ovelhas dependem de você para se alimentarem. Não espere uma igreja unida se ela for desprovida da Palavra.

Conclusão: “Se há, pois, alguma exortação em Cristo, alguma consolação de amor, alguma comunhão do Espírito, se há entranhados afetos e misericórdias, completai a minha alegria, de modo que penseis a mesma coisa, tenhais o mesmo amor, sejais unidos de alma, tendo o mesmo sentimento. Nada façais por partidarismo ou vanglória, mas por humildade, considerando cada um os outros superiores a si mesmo. Não tenha cada um em vista o que é propriamente seu, senão também cada qual o que é dos outros.” (Fp 2.1-4)


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