HISTÓRIA DA REFORMA (parte 2)


OS PRECURSORES DA REFORMA


João Wycliffe



          Este movimento começou na Inglaterra a fim de libertar o povo do poder romano e produzir uma reforma na igreja. Ele foi contrário à doutrina da transubstanciação e considerou o pão e o vinho meros símbolos. Insistia que os serviços na igreja fossem mais simples, tendo por modelo o Novo Testamento. Traduziu o Novo Testamento para o inglês, terminando em 1380, ano em que morreu.
          Havia uma postura doutrinária de Wycliffe que agradava muito aos nobres ingleses. Em sua obra “Of civil dominion” (Sobre o senhorio civil), ele exigia uma base moral para a liderança eclesiástica. Os clérigos têm sobre seu poder os bens materiais, mas não lhes pertence de fato. Caso não estivessem cumprindo corretamente suas funções, a autoridade civil poderia tomá-los e entregar aos que servem a Deus fielmente. Isso agradava aos nobres, pois eles intencionavam pôr as mãos nas propriedades romanas.
          Os discípulos de Wycliffe foram perseguidos por Henrique IV e V. Foram exterminados, mas a sua pregação e tradução da Bíblia abriram o caminho para a Reforma. Tinha um desejo profundo que seus patrícios lessem a Bíblia em sua própria língua.


João Hus


          João Hus nasceu na Boêmia em 1369 e foi martirizado em 1445. Pregou as mesmas doutrinas de Wycliffe. Foi excomungado pelo papa, então se retirou para um lugar ignorado, depois de dois anos apareceu de novo em público no Concílio de Constança, corria então perigo de morte, recebeu um salvo conduto do imperador Sigismundo, no entanto esse acordo foi violado sob a alegação de que não se deve ser fiel a hereges. Foi condenado neste concílio e queimado no ano de 1445. Era um homem muito sábio e de um hábil dialeto.
          Os seguidores de João Hus formaram dois grupos distintos, os Taboritas e os Utraquitas. Os taboritas eram mais radicais, rejeitavam na fé e na prática tudo da igreja romana que não se encontrasse na Bíblia. Os utraquitas achavam que deveria ser banido apenas aquilo que a Bíblia proibisse. Dos taboritas vieram os Unitas Fratum (Irmãos Unidos) ou Irmãos Boêmios em meados do século XVI. Dos Boêmios veio a Igreja Moravia. Foi esta igreja que ajudou João Wesley no princípio de sua fé, a mesma existe até hoje.


Jerônimo Savonarola


          Nasceu em 1453, foi um monge da ordem dos dominicanos, chegou a ser prior do mosteiro de São Marcos, pregava contra os males de seu tempo. Suas pregações atraiam multidões a ouvir e obedecer a seus ensinamentos. Foi excomungado pelo papa, foi preso, condenado, enforcado e seu corpo queimado na Praça de Florença em 1498, dezenove anos antes de Lutero apregoar as teses na Catedral de Winttenberg. Jerônimo era filho de um médico, muito novo disse ter recebido visões dos céus. Seus jejuns e penitências atraíram a atenção de seus superiores. O que chamou a atenção de Roma foi sua fama como pregador e reformador, suas denúncias contra o papa, seus ataques aos vícios do clero. O papa diligenciou calar o grande pregador se utilizando de um artifício comum da época, lhe ofereceu o cargo de cardeal, porém Savonarola não aceitou. Por fim foi metido na prisão e enquanto ali estava aproveitou o tempo para meditar, orar e escrever. Foi cruelmente torturado por ordem da inquisição, e condenado pelo mesmo papa que queria promovê-lo. Morreu queimado no ano de 1499.


Erasmo de Roterdã

 
          Desidério Erasmo (c. 1466 – 1536) foi o mais influente dos humanistas bíblicos. Recebeu parte de sua educação na escola dos Irmãos da Vida Comum em Devinter, tendo depois estudado em várias universidades. Tornou-se um grande erudito. Criticou fortemente a igreja romana em seus livros: O elogia da loucura (c. 1510) e Colóquios familiares (1518). Produziu o Novo Testamento Grego em 1516. De início, simpatizou-se com Lutero, mas depois se opôs a ele porque não queria correr o risco de romper com a igreja romana. Sua teologia era preocupada mais com a ética e diferia muito de Lutero, principalmente em “Livre arbítrio”, que sustentava a liberdade da vontade humana.


A REFORMA PROTESTANTE                  


Causas da Reforma

          Na realidade a Reforma protestante é a culminância de um processo inevitável. Houveram reformadores sinceros que tentaram alertar a igreja quanto a sua decadência e necessidade de purificação moral, retornando assim a uma verdadeira espiritualidade. A igreja se fez surda aos protestos de Wycliffe, Hus, os líderes dos concílios reformadores e os humanistas.
          As nações-estado representa um fator político a ser considerado como uma causa indireta da Reforma. Essas nações já não aceitavam a idéia de uma igreja universal que reivindicava jurisdição sobre o estado nacional e seu governo. Para se ter um exemplo, os clérigos ao cometerem crimes, eram julgados não pelo poder civil, mas por cortes eclesiásticas, que por sua vez poderiam apelar diretamente à Sé romana. No novo conceito de nação-estado tal poder da igreja em âmbito civil era inaceitável.
          Em termos econômicos desagradava aos governantes o envio de elevada soma de dinheiro ao tesouro papal em Roma. O clero estava isento de imposto. O povo alemão era explorado e empobrecido pela venda de indulgências.
          Há um fator intelectual preponderante que preparou o terreno para a Reforma Protestante. As mentes da Renascença já não podiam admitir as pretensões da igreja de Roma e de seus líderes de dominar as consciências individuais. Passou a haver um interesse maior pela vida secular, até mesmo alguns papas aderiram a esta mentalidade.
          Como fator moral podemos citar a corrupção da igreja. Havia a compra de cargos eclesiásticos. Clérigos recebiam salários sem prestar assistência religiosa e ocupavam vários cargos ao mesmo tempo. Muitos sacerdotes mantinham concubinas e aceitavam suborno para autorizar casamento entre parentes, embora tal relação fosse proibida pela lei canônica. Havia uma adoração de relíquias e muitos buscavam colecioná-las. O povo explorado estava se cansando de não ter a assistência devida.
          As mudanças na estrutura social também contribuíram para que em tempo oportuno irrompesse a Reforma. A nova classe média que possuía poder econômico criou um espírito novo de individualismo. Não aceitavam mais serem oprimidos por uma minoria. Havia uma insatisfação social.
          A causa teológica sem sombra de dúvida foi o desejo dos reformadores de voltar-se à Bíblia. A descoberta da salvação pela fé e da justificação em Cristo conforme as Escrituras coloca-os em oposição à teologia romana em que a salvação era obtida através dos sacramentos da graça ministrados pela hierarquia no ato da missa.
          Diante de tudo isso, Deus em sua providência faz surgir um grande líder capaz de veicular e expressar as idéias reformadoras. Martinho Lutero foi este líder.
Na Alemanha de Lutero, a causa direta para a Reforma foi o sistema de indulgência.



      A Reforma Luterana


          Lutero nasceu em 1483, em Eisleben. Seu pai era de origem camponesa e ganhou muito dinheiro com as minas de cobre da área sobre as quais tinha direito.
          Teve uma infância muito difícil devido à severidade de seus pais, na escola também sofria pesados castigos. Com certeza tudo isso contribuiu na formação do caráter de Lutero e também fez com que ele transferisse para Deus a imagem de seu castigador. Para Lutero Deus era então um severo juiz sempre pronto a executar a sua sentença.
          O pai de Lutero sonhava que ele seguisse a careira de advogado, porém, em 1505, pouco antes de completar 22 anos, Lutero ingressa no mosteiro Agostinho de Erfurt. Ele então era um homem atormentado espiritualmente, tinha um interesse profundo em sua salvação.
          Ao ser ordenado sacerdote, por ocasião de sua primeira missa Lutero sentiu um terrível temor invadindo sua alma. Temia por imaginar o poder que tinha em suas mãos no ato da eucaristia.
          Frequentemente Lutero confessava-se, não conseguia sentir-se perdoado e fazia questão de confessar todos os pecados que ele pudesse lembrar. Também castigava seu corpo com chicotadas para afastar de si a tentação. Mesmo com tudo isso seu espírito continuava atormentado.
          Seu conselheiro espiritual Stauptz lhe direcionou à leitura dos místicos. Nestes Lutero pôde ler sobre o amor de Deus. Mas isto não o ajudou muito. Ele transferira inconscientemente a imagem de seu pai e de seus mestres escolares, que o castigavam com freqüência e severidade, para Deus. Se Deus era como seu pai e seus mestres, como poderia Lutero amá-lo. Na verdade Lutero chegou até a confessar que odiava a Deus. Seu mentor e professor imaginando que a ocupação do ensino talvez o ajudasse o enviou para ensinar cursos sobre as Escrituras na universidade de Winttenberg. Ele estava preparado para essa tarefa, pois em 1512 havia obtido seu doutorado em teologia.
          No inverno de 1510 e 1511 Lutero foi enviado por sua ordem, os agostinianos, à Roma para tratar de assuntos da igreja. Essa viagem o marcou profundamente, pois ele em Roma presenciou absurdos como a leviandade dos padres. Pôde ver de perto como Roma era diferente do que ele tinha idealizado. Havia bordéis exclusivos para padres e sacerdotes totalmente descompromissados e mundanos. Diante de tudo isso sentiu mais fortemente a necessidade de uma reforma na igreja.
          Em 1513 começou a dar aulas sobre os Salmos. Fazia uma interpretação cristológica dos Salmos, por isso podia ver Cristo passando pelos mesmos sofrimentos que ele.    Ainda assim sua alma ainda não se encontrava em paz.
          Em 1515 ao dar conferências sobre a Epístola aos Romanos descobriu o texto de Romanos 1.17: “no Evangelho a justiça de Deus se revela”. Depois de algum tempo lutando com a “justiça de Deus” ele chega a interpretação que a expressão não se refere ao fato de que Deus castiga aos pecadores, mas que a “justiça” do justo não é obra sua, mas dom gratuito de Deus. Tanto a fé quanto a justificação dos pecados são obras de Deus, dom gratuito. Lutero comenta sobre sua descoberta: “Senti que havia nascido de novo e que as portas do paraíso me haviam sido abertas. As Escrituras todas tiveram um novo sentido. E a partir de então “a justiça de Deus” não me encheu mais de ódio, mas se tornou indizivelmente doce em virtude de um grande amor”.
       No ano de 1517 um agente do arcebispo Alberto, Tetzel, fora enviado a Juterborg, próximo a Wittenberg, para fortalecer as vendas das indulgências.Tetzel ensinava que não era necessário arrependimento e que a compra de uma indulgência perdoaria qualquer pecado. Isso revoltou Lutero e aqueles que o seguiam, pois estavam fartos de serem tão explorados. 
        Em 31 de Outubro de 1517, Lutero afixou suas 95 teses na porta da Igreja do Castelo de Wittenberg. Nelas Lutero combate o sistema de indulgências e o abuso do poder papal. Não tinha a intenção de romper com Roma, mas apenas reformar alguns excessos.


O rompimento com Roma

          As conseqüências da ousadia de Lutero foi uma disputa entre a ordem de Tetzel os dominicanos e os agostinianos, à qual Lutero fazia parte e o apoiava. Lutero conseguira importantes aliados. Estava a seu favor ninguém menos que o Eleitor da Saxônia, Frederico, um dos que elegiam o imperador do Santo Império Romano. Também por essa época estava chegando a Winttenberg um jovem e brilhante teólogo, Filipe Melanchton (1495 – 1560), que juntamente com outros da faculdade de Winttenberg defenderam as opiniões de Lutero.
          Em 1518 Lutero compareceu à dieta de Augsburg, onde foi interpelado pelo cardeal Cajetano, que lhe pediu que se retratasse de seus ensinos. Lutero afirmou que não se retrataria a menos que fosse convencido que estava errado pelas Escrituras.
          Outro momento importante foi o seu debate com John Eck, que era um grande conhecedor das leis canônicas e da teologia medieval. Eck conseguiu deixar Lutero em uma situação melindrosa, pois este se viu obrigado a admitir a falibilidade de um concílio geral; lembremos que Lutero houvera solicitado um concílio geral para tratar do problema em pauta. Eck conseguiu também que Lutero confessasse que era relutante em aceitar as decisões do papa e acreditava na validade das idéias de Hus.
          Em 1520 Lutero parte então para o ataque literário. Publicou três panfletos. O primeiro foi o “Apelo à nobreza germânica” que atingia a hierarquia da igreja, pois defendia os príncipes diante do poder papal. O segundo foi o “Cativeiro babilônico da igreja” que desafiava o sistema sacramental de Roma. E o terceiro, “Sobre a liberdade do homem cristão”, atingia a teologia da igreja romana, pois afirmava o sacerdócio de todos os crentes como resultado da fé pessoal em Cristo.
          A igreja romana agora reage mais fortemente, o papa Leão X lançou em junho de 1520 a bula “Exsurge Domini”, que resultou na excomunhão de Lutero. Ele ainda acreditava que o papa poderia lhe dar ouvido. Porém, quando a bula papal caiu em suas mãos ele a queimou em público juntamente com as leis canônicas no dia 10 de dezembro de 1520. Estava feito, não havia mais como voltar atrás.
          O imperador Carlos V convocou uma dieta imperial para Worms, na primavera de 1521, à qual Lutero deveria comparecer. Nesta dramática Dieta, mais uma vez Lutero recusou-se a retratar-se declarando que não renunciaria a nenhum de seus escritos a menos que seja convencido pelo testemunho das Escrituras. Eis suas palavras finais nesta dieta: “Não posso nem quero retratar-me de coisa alguma, pois ir contra a consciência não é justo nem seguro. Deus me ajude. Amém”!
          Lutero tinha motivos para pedir que Deus o ajudasse, ao queimar a bula papal rompeu com Roma, agora, rompe com o império, pois Carlos V era católico convicto.
          De volta para Winttenberg seus aliados o seqüestraram e o mantiveram em segurança no castelo de Wartburg até 1522. Não fosse essa ação com certeza Lutero teria sido morto.
          Enquanto Lutero se encontrava em Wartburg, Melanchton publicava sua pequena obra sobre a teologia dos reformadores de Winttenberg, “Loci communis”, em 1521. Este livro foi tão importante que Lutero o tachou de “imortal”. Melanchton foi o responsável pela Confissão de Augsburgo. Também tem em seus méritos ter fundado o sistema escolar alemão.
          Em Wartburg, Lutero trabalhava arduamente na tradução da Bíblia para a língua alemã. Ele não apenas deu ao povo a Bíblia em sua própria língua, como tornou dela a forma padrão da língua germânica.
          Lutero retornou a Winttenberg em 1522, mesmo sob risco de morte, quando soube da presença dos profetas de Zwickau em sua cidade. Eles pregavam doutrinas semelhantes às dos anabatistas. Ensinavam que o Reino de Deus irromperia muito em breve na terra e que seus seguidores teriam revelações especiais. Até mesmo o líder reformador Carlstad foi influenciado por eles. Lutero pregou oito dias seguidos contra esses profetas. Ele rompeu abertamente com o movimento anabatista em 1535.
          A Revolta dos Camponeses ocorrida em 1525 é o que podemos chamar de um triste episódio da Reforma na Alemanha. Os camponeses viviam extremamente oprimidos pelos senhores feudais. Eles desejavam ter Lutero por eles, haja vista que Lutero era de origem camponesa. Prepararam suas reivindicações, os “Doze Artigos”, que eram reivindicações plausíveis e bem formuladas. Mas como sempre acontece na história, aqueles que oprimem não estão dispostos a deixarem de oprimir, e este foi o caso, mesmo os príncipes sendo protestantes. Lutero se encontrava dividido, se apoiasse os príncipes, perderia para sua causa milhões de camponeses. Se apoiasse os camponeses, perderia os príncipes que tanto já lhe ajudaram. Escreveu cartas para ambos os lados tentando acalmar os ânimos e procurando levá-los a um acordo pacífico. Quando, porém, a situação se tornou crítica e os camponeses começaram a fazer saques nas cidades, Lutero pediu aos príncipes em seu panfleto “Contra o bando assassino e salteador” que pusessem fim a desordem. Os príncipes não perderam tempo, 100 mil camponeses foram massacrados. Por se sentirem traídos por Lutero, os camponeses do sul da Alemanha permaneceram na Igreja Católica Romana. Lutero agiu dessa forma porque percebeu que os camponeses poderiam ameaçar a Reforma ao subverter os fundamentos da ordem governamental.
          Em 1525 Lutero se casa com Katarina Van Bora, uma ex-freira. Essa atitude de rejeição aos votos monásticos desagradou a alguns.
          Teria sido benéfico para Reforma se Lutero e Zwínglio, que era líder da Reforma nos cantões suíços, tivessem chegado a um denominador comum no debate ocorrido no Castelo de Marburg. Das 15 teses em pauta os protestantes suíços e alemães concordavam unanimemente com 14 delas. A última proposição porém, causou um entrave. O assunto era a Ceia do Senhor. Lutero cria e defendeu veementemente que as palavras de Cristo: “isto é o meu corpo” deve se interpretar literalmente. Para ele, havia uma presença física de Cristo na comunhão, embora a substância do pão e do vinho não se alterasse. A substância não muda, mas dentro e fora dos símbolos há uma presença física real de Cristo. Esta posição ficou conhecida como consubstanciação. Zwínglio, por sua vez, entendia que a Ceia era apenas um memorial da morte de Cristo e que as palavras de Jesus: “isto é o meu corpo” e “isto é o meu sangue” não poderiam ser interpretadas literalmente, pois de igual modo Jesus também disse “eu sou a videira...” “eu sou a porta”, etc, não significando que de fato ele fosse uma videira ou uma porta.
          Tudo o que ocorrera na Alemanha obrigara Lutero a organizar uma liturgia eclesiástica própria para seus seguidores. Em 1526 foi conseguido na Dieta e Spein que o governante de cada estado estava livre para seguir a fé que julgasse ser a correta. A segunda Dieta na mesma cidade em 1529, revogou a decisão anterior e declarou que a fé católica romana era por lei a única fé. Os príncipes luteranos leram um “Protesto”, por isso a partir desse momento passaram ser conhecidos por “Protestantes”.
          Mesmo tendo como opositores o imperador e os príncipes católicos, o movimento luterano fez um rápido progresso no norte da Alemanha.


    A Teologia Luterana

Coram Deo

          Esta expressão latina significa que o homem está “diante de Deus” ou “na presença de Deus”. Trata-se aqui de relacionamento com Deus. Lutero rejeitava tacitamente a análise fria da pessoa de Deus. Rejeitava conceitos como o de Aristóteles de Deus como o motor primeiro e qualquer argumento racional acerca da existência de Deus. Para ele, o Deus da Bíblia é o Deus que nos condena em juízo e misericórdia, o Deus que nos condena e nos salva. Estamos sempre à disposição de Deus, Ele nunca está à nossa disposição.
          Tal doutrina deve ser mais enfatizada em nossos dias, pois muitos vêem  Deus simplesmente como um meio para chegar a um fim, geralmente de teor materialista.


      Cristus pro me

          Lutero na verdade, não se preocupava em esboçar uma teoria da expiação. Deu, porém muita ênfase na apropriação pessoal da obra de Cristo pela fé. A importância da realização de Cristo só pode ser reconhecida quando de fato nos apropriarmos do fato que Cristo morreu pro me, pro nobis (“por mim”, “por nós”).

                     Leia com grande ênfase estas palavras, “eu”, “por mim”, e acostume-se a aceitá-las e aplicá-las a você mesmo com uma fé segura.
                    As palavras NOSSO, NÓS e POR NÓS, deveriam ser escritas em letras dourada – o homem que não acredita nelas não é cristão.

          


A Palavra e o Sacramento

          Martinho Lutero via na pregação pública da Palavra, uma das marcas indispensáveis da verdadeira Igreja. De fato, deu tanta importância à pregação no culto cristão que podemos afirmar que se elevou a um novo status. Aconselhou os pregadores de sua época e criticou a preguiça e a falta de dedicação de alguns pregadores.
          Ao lado da correta exposição do texto bíblico, Lutero enfatizou bastante a importância da correta administração dos sacramentos.
          Lutero opôs-se ao entendimento romano dos sacramentos. Não apenas resumiu seu número de sete para dois, como foi contrário à idéia que eles agem (ex opere operato), ou seja, que concediam graça a todos os que não estivessem em estado de pecado mortal. Para ele os sacramentos são uma palavra dirigida por Deus e devem ser recebidas pessoalmente. A fé, mesmo à parte dos sacramentos era suficiente para a salvação. Ele afirma quanto ao batismo: “Você pode crer mesmo sem ser batizado, porque o batismo não é nada mais do que um sinal externo que nos faz lembrar da promessa divina”. Lutero era a favor do batismo infantil. Um dos seus argumentos era que o batismo de crianças era o selo da promessa de Deus a seu povo; assim como o era a circuncisão no Antigo Testamento.
          Quanto à Ceia do Senhor, Lutero ensinou a doutrina da consubstanciação, isto é, que no ato da eucaristia, Cristo está presente “em, com e sob” o próprio símbolo. Ele interpretava as palavras de Cristo: “... isto é o meu corpo...” de forma literal.


A justificação pela fé somente

          Alguns há que talvez afirmem que Lutero formulou uma doutrina da justificação pela fé somente de forma repentina ao ler Romanos. Não é verdade! A leitura de Romanos foi o clímax de um processo de muitos anos para a compreensão correta da doutrina da justificação. Lutero foi formulando sua doutrina ao mesmo tempo em que ia vivendo de forma prática a busca pelo real perdão. Durante muito tempo Lutero não conseguiu estar em paz espiritual, pois acreditava ter de confessar continuamente seus pecados. E quanto mais confessava, mais acreditava ter pecados não confessados.
          Nesse processo para a compreensão correta da justificação, inicialmente ele foi influenciado pela doutrina nominalista. O nominalismo vai ensinar que devemos fazer o melhor que pudermos para receber a graça de Deus. “Portanto, assim como a lei era uma figura e uma preparação do povo para receber a Cristo, também o fazer o que está em nós (factio quantum im nobis est) dispõe-nos para a graça.” Esta doutrina influenciou Lutero através dos escritos do teólogo Gabriel Biel. Lutero defendeu uma forma dessa doutrina até 1516 ou início de 1517.
          A próxima peregrinação doutrinária de Lutero foi nos escritos do místico dominicano Johanes Tauer, em 1516. Foi seu mentor espiritual Staupitz que o conduziu a essas leituras. Os místicos ensinavam uma união com Deus através da contemplação mística.
          Para os místicos o pecado era uma fraqueza passiva ou uma ausência de bem. O homem se tornava justificado à medida que se unia a Deus de forma contemplativa, à medida que deixava seu ser submerso por Deus. Porém, Lutero foi compreendendo a incapacidade humana de o homem salvar-se a sim mesmo e de manter qualquer postura justa diante de Deus. O abandono a esta doutrina era inevitável.
          A próxima parada de Lutero é em Agostinho com sua justificação progressiva. Porém, Lutero rompe com Agostinho quando adquire uma nova compreensão da justiça de Deus expressa em Rm 1.17. Só a fé justifica (Sola fides justificate). A justiça de Deus é imputada ao homem, adquiri-se essa justificação somente pela fé, ou seja, a fé é o canal em que opera a justificação, e o homem então é agora “a um só tempo pecador e justo”.
          Sobre Agostinho, Lutero diz: “Agostinho chegou mais perto do sentido paulino do que todos os estudiosos, mas não alcançou Paulo. No começo, eu devorava Agostinho, mas quando a porta para Paulo abriu-se e entendi o que era realmente a justificação pela  fé, descartei-o”.


      O Sacerdócio de Todos os Cristãos

           Lutero aqui rompe com a separação romana na igreja entre clero e laicato. Todo cristão é um sacerdote. Logo, todo cristão tem o direito de pregar o evangelho. Quando o cristão estiver no meio de não-cristãos esse direito deve ser exercido livremente. Entre cristãos, porém, o individuo deve ser chamado e escolhido para tal ofício. O chamado é feito pela congregação e o ministro deve prestar contas a ela.      


A Igreja e o Estado

          Com respeito à relação da igreja com o Estado ele desenvolveu as doutrinas dos dois reinos.

“Pois Deus estabeleceu dois tipos de governo entre os homens. Um é espiritual; não tem espada, mas tem a palavra, por meio da qual os homens devem tornar-se bons e justos, para que, mediante essa retidão, possam alcançar a vida eterna. Ele administra essa retidão mediante a palavra, que confiou aos pregadores. O outro tipo é o governo mundano, que opera por meio da espada, a fim de que os que não desejam torna-se bons e justos para a vida eterna sejam forçados a tornar-se bons aos olhos do mundo. Ele administra essa retidão mediante a espada.”

          Ele chamou de reino da mão esquerda e reino da mão direita de Deus. O reino da mão esquerda é o Estado, que tem como função fornecer justiça, ordem e tranqüilidade à sociedade. No reino da mão direita Deus “governa em pessoa”, por meio dos seus ministros, da Palavra e dos sacramentos.
          Para Lutero os dois reinos eram intrínsecos e reforçavam um ao outro. Como exemplo do relacionamento entre os dois reinos Lutero diz o seguinte:

                   Vocês não são senhores sobre o ofício pastoral nem sobre os párocos. Vocês não instituíram o ofício, mas somente o Filho de Deus o fez. Vocês nem contribuíram em nada para isso. Vocês têm tanto direito a ele quanto o diabo tem direito ao Reino dos Céus. Consequentemente, vocês não devem governá-lo, dar ordens a ele ou impedi-lo de repreendê-los. Pois quando os pastores os repreendem, não é uma censura de homens, mas de Deus. E Deus deseja que a repreensão seja manifesta, não suprimida. Mantenham-se em seu próprio ofício e deixem a lei de Deus com ele, a fim de que ele não ache necessário instruí-los.

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