A Disciplina da Celebração


“O principal fim e dever do homem é amar a Deus e desfrutar de sua companhia para sempre.” - Catecismo de Westminster

A celebração está no coração do método de Cristo. Ele entrou no mundo sob uma alta nota de júbilo: “Eis aqui vos trago boa nova de grande alegria”, clamou o anjo, “que o será para todo o povo” (Lucas 2:10). Ele deixou o mundo legando sua alegria aos discípulos: “Tenho-vos dito estas coisas para que o meu gozo esteja em vós, e o vosso gozo seja completo” (João 15:11).
Jesus começou seu ministério público proclamando o ano do Jubileu (Lucas 4:18, 19). As implicações sociais de tal conceito são grandiosas. Igualmente penetrante é o reconhecimento de que, como resultado, somos chamados a um perpétuo Jubileu do Espírito. Essa radical e divinamente habilitada liberdade de posses e uma reestruturação das ordens sociais não podiam deixar de trazer celebração. Quando os pobres recebem as boas-novas, quando os cativos são postos em liberdade, quando os cegos têm a vista restaurada, quando os oprimidos são libertados, quem poderia conter o grito de júbilo?
No Antigo Testamento, todas as estipulações sociais do ano de Jubileu - cancelamento das dívidas, libertação dos escravos, nenhum plantio agrícola, devolução da propriedade ao seu possuidor original - eram uma celebração da graciosa provisão de Deus. Poder-se-ia confiar em Deus: ele proveria o que fosse necessário. Ele havia declarado: “Então eu vos darei a minha benção” (Levítico 25:21). A liberdade da ansiedade e dos cuidados forma a base da celebração. Visto como sabemos que ele cuida de nós, podemos lançar sobre ele os nossos cuidados. Deus transformou nosso pranto em júbilo.
O espírito livre de cuidados da jubilosa festividade está ausente na sociedade contemporânea. A apatia e até mesmo a melancolia dominam os tempos. Harvey Cox diz que o homem moderno tem sido pressionado “de tal forma no sentido de trabalho útil e do cálculo racional que ele quase se esqueceu da alegria da celebração extática...”

A Celebração dá Força à Vida

A celebração traz alegria à vida, e a alegria faz-nos fortes. A Bíblia diz-nos que a alegria do Senhor é a nossa força (Neemias 8:10). Não podemos continuar por muito tempo, em coisa alguma, sem a alegria. Podemos começar a estudar piano por força de vontade, mas não continuaremos por muito tempo com as lições se não houver alegria. Em realidade, o único motivo por que começamos é porque sabemos que a alegria é o produto final. Isso é o que sustenta todos os principiantes: sabem que há um senso de prazer, de gozo, de alegria em vencer.
A celebração é central a todas as Disciplinas Espirituais. Sem um espírito jubiloso de festividade, as Disciplinas se tornam entorpecidas, instrumentos que respiram morte nas mãos dos fariseus modernos. Toda Disciplina deve caracterizar-se pela alegria isenta de cuidados e pelo senso de ações de graça.
A alegria é um dos frutos do Espírito (Gálatas 5:22). Freqüentemente me inclino a pensar que a alegria é o motor, o elemento que mantém tudo mais em marcha.
Sem a celebração jubilosa para inspirar as outras Disciplinas, cedo ou tarde as abandonaremos. A alegria produz energia. A alegria faz-nos fortes.
O antigo Israel foi instruído a reunir-se três vezes por ano para celebrar a bondade de Deus. Essas celebrações era as experiências que davam força e coesão ao povo de Israel.

O Caminho da Alegria

Na vida espiritual só uma coisa produzirá a autêntica alegria: a obediência.
Diz o velho hino que não há outro meio de ser feliz em Jesus senão “crer e observar”. O autor da letra havia recebido inspiração do próprio Mestre, pois Jesus diz-nos que não há bem-aventurança igual à da obediência. Certa vez uma mulher na multidão exclamou: “Bem-aventurada aquela que te concebeu e os seios que te amamentaram!” Jesus respondeu: “Antes bem-aventurados são os que ouvem a palavra de Deus e a guardam!” (Lucas 11:27, 28). Mais bem-aventurada coisa é viver e obediência do que ter sido a mãe do Messias!
Em 1870 Hannah Whitall escreveu um livro que se tornou um clássico sobre o Cristianismo jubiloso, O Segredo de uma Vida Feliz. O título mal sugere as profundezas desse livro perceptivo. Não há nada de “quatro passos fáceis para viver com êxito”. Diligentemente a autora define a forma de uma vida plena e abundante escondida em Deus. Então, com todo o cuidado, revela as dificuldades deste caminho e finalmente traça os resultados de uma vida que se entrega a Deus. Qual é o segredo do cristão para uma vida feliz? Esse segredo poderia ser otimamente resumido pelo capítulo intitulado “A Alegria da Obediência”. A alegria vem pela obediência a Cristo, e resulta de obediência a Cristo. Sem obediência, a alegria é oca e artificial.
Para obter a verdadeira celebração, a obediência deve inundar o tecido comum de nosso viver diário. Sem isso, nossa celebração contém um som vazio. Por exemplo, algumas pessoas vivem de tal modo que é impossível ter qualquer tipo de felicidade em seus lares, mas vão à igreja e cantam hinos e oram “no Espírito”, na esperança de que, de alguma forma, Deus lhes dê uma infusão de alegria para atravessarem o dia. Procuram algum tipo de transfusão celestial que ignore a miséria de suas vidas diárias e lhes dê alegria. O desejo de Deus, porém, não é ignorar a miséria mas transformá-la.
Precisamos entender que Deus, às vezes, dá-nos uma infusão de alegria mesmo em nossa amargura e insensibilidade. Mas esta situação é anormal. O meio normal de Deus trazer alegria é redimindo e santificando as conjunturas comuns da vida humana. Quando os membros de uma família estão cheios de amor, de compaixão e de um espírito de serviço, uns pelos outros, tal família tem motivos para celebrar.
Há algo de triste na corrida de alguns, de igreja em igreja, tentando conseguir uma injeção da “alegria do Senhor”. A alegria não se encontra em cantar determinado tipo de música, ou viver com o tipo certo de grupo, ou mesmo em exercer os dons carismáticos do Espírito, por muito bom que tudo isso possa ser. A alegria está na obediência. Quando o poder de Jesus entra em nosso trabalho e lazer e os redime, haverá alegria onde outrora havia lamento.
Menosprezar isso é perder o significado da Encarnação.
Foi por isso que coloquei a celebração no final de nosso estudo. A alegria é o produto final de haverem as Disciplinas Espirituais funcionando em nossa vida.
Deus produz a transformação de nossa vida através das Disciplinas, e só depois de haver uma obra transformadora dentro de nós é que conhecemos a verdadeira alegria. Muitos tentam alegrar-se cedo demais. Muitas vezes tentamos encher as pessoas de alegria quando, em realidade nada aconteceu em suas vidas. Deus não irrompeu nas experiências rotineiras de sua existência diária. Celebração acontece quando as aventuras comuns da vida são redimidas.
É importante evitar o tipo de celebração que realmente nada celebra. Pior ainda é fingir celebrar quando não há em nós o espírito de celebração. Nossos filhos vêem-nos abençoar o alimento e de imediato passam a brigar por ele - bênçãos que não são bênçãos. Uma das coisas que quase destroem as crianças é serem elas obrigadas a dar graças quando não se sentem gratas. Se fingirmos um ar de celebração, nosso espírito interior o contradiz.
Um ensino popular de nossos dias instrui-nos a louvar a Deus pelas várias dificuldades que acontecem em nossas vidas, afirmando que há grande poder transformador nesse louvor a Deus. Em sua melhor forma, tal ensino é um modo de incentivar-nos a olhar para a frente usando um pouco os olhos da fé a fim de ver o que acontecerá. Afirma em nossos corações a alegre certeza de que Deus toma todas as coisas e as faz cooperar para o bem daqueles que o amam. Em sua pior forma, este ensino nega a vileza do mal e denomina as mais horríveis tragédias como vontade de Deus. A Bíblia ordena-nos a viver num espírito de ações de graças em qualquer situação; ela não nos manda celebrar a presença do mal.

O Espírito de Celebração Isenta de Cuidados

O apóstolo Paulo diz: “Alegrai-vos sempre no Senhor; outra vez digo, alegrai-vos” (Filipenses 4:4). Como, porém, devemos fazer isso? “Não andeis ansiosos de coisa alguma.” Esse é o lado negativo do regozijo. O lado positivo é: “Em tudo, porém, sejam conhecidas diante de Deus as vossas petições, pela oração e pela súplica, com ações de graça.” O resultado? “E a paz de Deus, que excede todo o entendimento, guardará os vossos corações e as vossas mentes em Cristo Jesus” (Filipenses 4:6, 7).
Paulo instruiu sobre como podemos regozijar-nos sempre, e sua primeira palavra de conselho devia ser: “Não andeis ansiosos” de coisa alguma. Jesus, evidentemente, deu o mesmo conselho, quando disse: “Não andeis ansiosos pela vossa vida, quanto ao que haveis de comer ou beber: nem pelo vosso corpo quanto ao que haveis de vestir” (Mateus 6:25). Em ambos os casos emprega-se a mesma palavra, que traduzimos por “ansioso” ou “preocupado”. Os cristãos são chamados a viver livres de cuidados, mas esse modo nos parece estranho. Desde os dois anos de idade somos treinados a tomar todo cuidado. Dizemos a nossos filhos, quando eles correm a tomar o ônibus para a escola: “Tomem cuidado”, isto é, encham-se de cuidados.
Não haverá em nós o espírito de celebração enquanto não aprendermos a “não andar ansiosos de coisa alguma”. E nunca teremos uma indiferença isenta de cuidado pelas coisas enquanto não confiarmos totalmente em Deus. Por isso é que o Jubileu era uma celebração tão decisiva no Antigo Testamento. Ninguém ousaria celebrar o Jubileu a não ser que tivesse uma profunda confiança na capacidade de Deus de prover para suas necessidades.
Quando confiamos em Deus, estamos livres para depender inteiramente dele quanto às coisas de que necessitamos: “Sejam conhecidas diante de Deus as vossas petições, pela oração e pela súplica, com ações de graça.” A oração é o meio pelo qual movemos o braço de Deus. Daí que podemos viver num espírito de celebração livre de cuidados.
Paulo, porém, não terminou a questão aqui. Ele prosseguiu, dizendo que deveríamos ocupar nossa mente com tudo o que é verdadeiro, respeitável, justo, puro, amável e de boa fama. Deus estabelecera uma ordem criada repleta de coisas excelentes e boas, e naturalmente se deduz que se pensarmos nessas coisas, seremos felizes.
Esse é o caminho indicado por Deus que leva à alegria.
Se pensarmos que teremos alegria apenas orando e cantando salmos, ficaremos desiludidos. Mas se enchermos nossa vida com coisas boas e simples, e constantemente dermos graças a Deus por elas, conheceremos a alegria. E que dizer de nossos problemas? Quando determinarmos permanecer nas coisas boas e excelentes da vida, nossa vida se encherá dessas coisas de tal sorte que elas terão a tendência de tragar nossos problemas.
A decisão de ocupar a mente com as coisas mais elevadas da vida é um ato de vontade. É por isso que a celebração é uma Disciplina. Ela não é algo que cai sobre nossa cabeça. É resultado de um modo de pensar e viver conscientemente escolhido. Ao escolhermos esse caminho, a cura e a redenção de Cristo irromperão nossos recessos interiores de nossa vida e relacionamentos, e o resultado inevitável será a alegria.


Transcrito do livro "Celebração da Disciplina" de Richard Foster
Editora Vida
Ano: 1983



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