Dez questões sobre santificação



SANTIFICAÇÃO, PERGUNTAS E RESPOSTAS


1º – Exegeticamente o que é santificação?

          A palavra do Antigo Testamento para “santificar” é QADOSH .O substantivo correspondente é QODESH, enquanto que o adjetivo é QADOSH. Muito provavelmente o sentido original deriva da raiz qad, que significa “cortar”. Então no A.T. a idéia original para santificação é separação.
          No Novo Testamento temos o verbo HAGIAZO, que primeiramente tem o mesmo sentido que QADOSH, dando a idéia de separação. Porém, ele é empregado também em sentidos diferentes como o expresso em Mt 6.9; Lc 11.2; 1 Pe 3.15, que nos traz idéia de “considerar um objeto como santo”, “atribuir santidade a” ou “reconhecer
 sua santidade por palavra ou ato”. Também é empregado em sentido ritual de “separar o ordinário para propósitos sagrados”, Mt 23.17, 19; Jo 10.36; 2 Tm 2.21. É utilizado também para expressar a operação de Deus em produzir a santidade no homem, Jo 17.17; At 20.32; 26.18; 1 Co 1.2; 1 Ts 5.23. Finalmente adquire também um sentido expiatório, Hb 9.13; 10.10, 29; 13.12.
          Há também adjetivos que expressam a idéia de santidade, como HIEROS, que tem como melhor tradução a palavra “sagrado”, 1 Co 9.13; 2 Tm 3.15. HOSIOS, é a que ocorre com maior freqüência, se refere a cumprimento de obrigação moral, At 2.27; 13.34, 35; 1 Tm 2.8, Tt 1.8; Hb 7.26; Ap 15.4; 16.5. Hagnos traz a idéia de liberdade da impureza e corrupção, num sentido ético, 2 Co 2.11; 11.2; Fp 4.8; 1 Tm5. 22; Tg 3.17; 1 Pe 3.2; 1 Jo 3.3. No entanto a palavra mais característica do Novo Testamento é HAGIOS, que tem dois significados. Em alguns textos expressa separação de alguns homens para o serviço de Deus, Lc 1.70; Ef 3.5; 2 Pe 1.21; em outros expressa um sentido ético, ao referir-se a qualidades necessárias para manter comunhão com Deus e servi-lo de modo aceitável, Ef 1.4; 5.27; Cl 1.22; 1 Pe 1.15, 16. Este último sentido é o que primordialmente é usado quando falamos de santificação.
          HAGIASMOS, substantivo, denota purificação ética, e inclui também “a separação do espírito de tudo que é impuro e corruptor, e uma renúncia dos pecados para os quais os desejos da carne e da morte nos levam”. Encontra-se em Rm 6.19, 22; 1 Co 1.30; 1 Ts 4.3, 4, 7; 2 Ts 2.13; 1 Tm 2.15; Hb 12.14; 1 Pe 1.2


2º – Do ponto de vista histórico, qual o posicionamento mais coerente da doutrina da santificação?

          Do ponto de vista histórico o posicionamento mais coerente adotado sobre a doutrina santificação é aquele dos reformadores. Afirmavam eles que justificação é um ato legal de Deus, pela sua graça, que muda a posição judicial do homem diante de Deus, e que santificação é uma obra moral ou recriadora, mudando a natureza interior do homem. Após a justificação, inicia-se o processo da santificação, levada a efeito pelo Espírito Santo mediante a Palavra e secundariamente mediante os sacramentos.


3º – Qual a diferença entre santificação e santidade?

          Santidade é primariamente aplicada a Deus. Refere-se ao seu estado de inacessibilidade, de transcendência, totalmente distinto das suas criaturas. Somente posteriormente veio a ter um sentido ético.
          No homem, santidade é o estado em que ele se encontra em relação com Deus, não é mera bondade ética, mas a mesma considerada diante de Deus. E santificação é o processo na vida do regenerado no qual a santidade está inclusa.


4º – Qual o aspecto negativo e o positivo da santificação com base em sua natureza?

          O aspecto negativo da santificação se refere à mortificação do velho homem. É o ato de Deus em que a contaminação e a corrupção da natureza que resultam do pecado são removidas gradativamente. E o aspecto positivo é justamente a vivificação do novo homem, criado em Cristo Jesus para boas obras. É o ato de Deus em nos capacitar para uma vida em santidade. Este aspecto positivo também é chamado ressurreição com Cristo, Rm 6.4, 5; Cl 2.12; 3.1, 2. Ambos os aspectos ocorrem de forma simultânea. E o resultado é um viver para Deus, conforme Rm 6.11 e Gl 2.19.


5º – Qual a diferença entre a verdadeira santificação, o legalismo e o liberalismo?

          A verdadeira santificação é uma obra de Espírito Santo na vida dos crentes. É Deus quem realiza a obra no regenerado, 1 Ts 5.23; Hb 13.20, 21. Que por sua vez, é apenas um colaborador movido pelo Espírito de Deus. A verdadeira santificação é a obediência aos mandamentos divinos não inspirado no desejo de ser o melhor e sim no amor pelo Senhor, ou seja, obediência por amor, Jô 15.10-14; Ef 1.4.
          O legalismo vê meramente os atos externos da suposta obediência a Deus, não levando em conta se tal obediência tem a motivação correta. Lembremos que Jesus foi severo com os fariseus nesse aspecto, chamando-os de hipócritas.
          Já o liberalismo, reduz a santificação a um mero desenvolvimento espiritual do homem, um desenvolvimento ético/moral, sem vê nisso a ação do Espírito de Deus, a compreende na verdade como apenas uma realização humana.


6º – Quais as principais características da santificação?

          As características da santificação são:
 a) É uma obra cujo autor é Deus;
 b) Ela ocorre na vida subconsciente do homem, como uma operação imediata do Espírito Santo; e em parte, na vida consciente, necessitando então de certos meios como o estudo da Palavra de Deus, a oração e a comunhão com outros crentes;
c) É um processo longo, e jamais alcança a perfeição nesta vida;  
d) A perfeição absoluta, no que diz respeito à alma, ocorre imediatamente após a morte. E concernentemente ao corpo, quando da ressurreição.


7º – Quem é o autor e quais os meios da santificação?

          A santificação é obra do Deus triúno, mas na economia da Trindade é especificamente obra do Espírito Santo, Rm 8.11; 15.16; 1 Pe 1.2. O homem é apenas um cooperador, e o faz apenas porque o Espírito Santo o capacita dia a dia.
          Os meios que o Senhor usa para realizar a santificação são: a Palavra, os sacramentos e sua direção providencial. A Palavra de Deus nos traz todos os ensinamentos, exortações, proibições e incentivos necessários para vivermos uma vida de santidade com Deus. Os sacramentos, que devem estar sempre subordinados à Palavra, simbolizam e selam para nós as verdade contidas na Palavra de Deus. As providências divinas, quer favoráveis ou adversas, afetam grandemente nossas vidas, e portanto, é um meio de Deus operar a santificação em nós, Sl 119.71; Rm 2.4; Hb 12.10.


8º – Fale da relação da santificação, regeneração, justificação e fé.

          A relação que há da santificação com a regeneração é que a regeneração dá-se uma única vez na vida do homem e de forma completa, sendo então o princípio do processo da santificação, Fp1.6.
          A justificação, por sua vez, é a base judicial da santificação. Havendo Deus nos declarado justos diante d’Ele, com base na justiça de Cristo, tem todo o direito de exigir de nós santidade no viver. E como a santificação está baseada na justiça de Cristo, e é uma ação do Espírito Santo em nós, não temos diante d’Ele mérito algum.
          E ela relaciona-se também com a fé, pois é esta a causa mediata e instrumental tanto da santificação como da justificação. Sem a fé salvífica não pode haver regeneração e justificação, portanto, não pode haver o início do processo da santificação. Esta fé deverá estar sempre presente na vida do cristão, e quanto mais vigorante ela for mais ele poderá crescer espiritualmente.


9º – Podemos alcançar a impecabilidade ou não?

          Todas as teorias perfeccionistas são obrigadas a rebaixar o padrão da lei de Deus e limitar a sua teologia do pecado enxergando-os apenas em suas exteriorizações. Ademais, os textos bíblicos por eles usados para as defesas de suas teorias não são corretamente interpretados.
          A verdade é que nesta vida, como nos mostra fartamente as Escrituras é impossível alcançar-mos a impecabilidade, 1 Rs 4.46; Pv 20.9; Ec 7.20; Rm 3.10; Tg 3.2; 1 Jo 1.8.


10ºQual a relação entre a santificação e as suas obras?

          Todos temos o dever de manifestar boas obras, pois elas são por assim dizer frutos da santificação. É necessário, entretanto, entendermos que essas boas obras não trazem mérito algum ao homem. Isto é verdade porque se as praticamos corretamente, ou seja, com motivações corretas que glorifiquem a Deus, é unicamente pela graça do Senhor, 1 Co 15.10; Fp 2.13. E simplesmente não fazemos mais do que nossa obrigação, Lc 17.9, 10.
          As boas obras, portanto, são necessárias, afinal Deus as exige de nós, Rm 7.4; 8.12, 13; Gl 6.2, temos apenas que estar cônscios do seu real lugar.



BIBLIOGRAFIA

BERKHOF, Louis – Teologia Sistemática  -  Ed. Luz Para o Caminho, Campinas, São Paulo, 1996.

ELIAQUIM, Jádison – Apostila do Curso de Preparação de Obreiros da Igreja Batista dos Guararapes.






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