Salmo 113 - VIVA EM LOUVOR AO SENHOR



Introdução

          Este salmo é de puro louvor. Seu tema é a grandeza e a bondade condescendente do Deus de Israel, como se mostra ao levantar os necessitados de sua baixa condição. Com este salmo começa o Halel (série de salmos que começam com "Aleluia"), ou seja, o Aleluia dos judeus, que era cantado em suas festas solenes como a Páscoa "visto que não só recorda a bondade de Deus para com Israel, como especialmente seu livramento do Egito, e por isso começa apropriadamente com "Louvem, ó servos do Senhor, louvem o nome do Senhor!" - e não mais servos de Faraó". Suas alusões aos pobres no pó e necessitados no monturo de esterco estão de acordo com Israel no Egito, como também a referência ao nascimento de numerosas crianças onde eram menos esperadas.


I - O povo de Deus convocado a louvar ao SENHOR, v. 1-3.

           Encontra-se aqui no v. 1 uma ordem para que o povo de Deus possa louvar  ao SENHOR. São os servos do Senhor que são convocados a louvá-lo, e isto contrapõe o seu estado anterior de servidão no Egito. Eles não são mais servos de Faraó, são servos do Senhor, portanto, não podem de modo algum fugir deste dever santo de render graças àquele que os libertou. Devem louvar o seu nome: YAVÉ, ou Javé. A referência ao nome divino traz sempre a conotação de sua santidade, de sua fidelidade, daquilo que ele é em si. É o EU SOU O QUE SOU, conforme se revelou a Moisés (Ex 3.14), ou em outra tradução, EU SEREI O QUE SEREI. O povo é convocado a louvar aquele que se relaciona com eles, que os livra, que mantém Sua fidelidade para com eles. É um chamado ao culto, a um momento solene de exaltação ao Deus vivo.
           Também fomos convocados a cultuá-lo, ele nos livrou também de uma servidão. E embora seja nosso dever render-lhe culto, gratos a ele pelo livramento espiritual realizado em nossas vidas, esse louvor deve ser espontâneo, prazeroso, deve alegrar nossas almas.
           O nome do de Javé é bendito (v.2). Significa que dele vem toda força benéfica, que ele é a fonte da bênção. A sua presença já é a própria bênção. E por isso devemos louvá-lo, não circunstancialmente, mas constantemente, e por toda a eternidade. Nosso louvor a Ele deve transcender o tempo (v.3). Sendo assim nossa vida deve ser louvor a Ele, nossos afazeres diários devem louvá-lo, isso ocorre com a fidelidade, com a santidade. O Salmo nos conclama ao dever do culto público, mas projeta o louvor para além desse culto.


II - As razões para louvar ao SENHOR, 4-6.

           Vemos nos vs, 4 e 5 que devemos louvá-lo porque Ele é excelso, está infinitamente superior à Sua criação, é incomparável. Devemos louvá-lo pelo que Ele é, não meramente por aquilo que podemos obter dele. A Sua glória está acima de todas as nações, acima dos céus. Estando sua glória acima de todas as nações, deve ser proclamado a todas as nações, mas infelizmente Israel falhou em seu dever missionário.
           Kabôd - Glória, ‘honra’. Quando se aplica a Deus, significa a manifestação luminosa da Sua pessoa, Sua gloriosa revelação de Si mesmo, é a própria realidade da Sua presença. E é por isso que quando Israel perde a arca da aliança para os filisteus, arca esta que simbolizava a presença divina, é dito que "Foi-se a glória de Israel, (1 Sm 4.21-22).
           Devemos louvar ao Senhor porque sua presença é real em nossas vidas e neste culto. Porque sua glória não se esvaiu, mas está presente neste culto.
           Ainda nesses versículos vemos como a Sua condescendência não tem paralelos.
           Ninguém é tão grande, e portanto, capaz de se abaixar tanto. O texto diz que Ele se inclina. Têm-se em vista a sua história de salvação no meio do seu povo. Penso que maior inclinação de Deus por amor a nós é a encarnação de Cristo. Ele é o Emanuel, o Deus conosco, inclinou-se para estar vivenciando as vicissitudes humanas. Que glorioso ato de amor!
           Ninguém é tão sábio, e portanto, tão capaz de "ver" ou conhecer as necessidades das pequenas coisas. 
           Ninguém mais é infinito, somente Ele. Infinidade é vista no diminuto tão verdadeiramente como no imenso, ou seja, mesmo sendo infinito, nada em nós é pequeno demais que "deixe de chamar sua atenção". Nenhuma mágoa é pequena demais ao ponto de o Consolador não está presente; nenhum pecado é pequeno demais ao ponto de Ele não nos advertir; nenhum problema ou carência é tão ínfimo que Ele não se faça presente em Seu amor cuidador.
           Portanto, muitas e variadas são as razões para louvarmos ao nosso Deus.


III - Os atos salvíficos do SENHOR, V.7-9.

           Por fim, o salmista conclui seu belo hino com exemplos dos atos salvíficos divinos.
           No v. 7 vemos que Ele ergue do pó o desvalido, ou pobre.
           O Senhor revela-se em defesa não dos poderosos deste mundo, mas daqueles que pela sua condição encontram-se necessitados do socorro divino. E é com esta compreensão que os salmistas clamam. Vemos Davi, ainda que sendo rei, reconhecendo sua necessidade de livramento divino dizer tais palavras: "Eu sou pobre e necessitado, porém o Senhor cuida de mim; tu és o meu amparo e o meu libertador; não te detenhas ó Deus meu!" (Sl 40.17). Não se trata de um sentimento de algum de tipo de complexo de inferioridade, mas de reconhecer a dependência divina para o livramento. (Ver também Sl 70.5; 86.1). 
                      Yavé cuida das viúvas, dos órfãos, dos estrangeiros e de quem carece de médicos. O Salmo 82 é outro no qual agora Asafe mostra Deus em favor do oprimidos. O significado primeiro, original de ‘pobre’ está  nesta reivindicação da oferta divina de ajuda jurídica e no seu cumprimento. Pobres são aquelas pessoas cuja situação de necessidade os obriga a esperar tudo unicamente de Yavé. Esses são objetos de perseguição, são oprimidos e maltratados, são objetos de injustiça. Seus olhos estão dirigidos a Deus e esperam que os auxiliem e mude a sua sorte. Portanto é o conceito oposto aos dominantes poderes inimigos. Yavé é a esperança para essas pessoas, cuja necessidade parece não ter fim, ‘o pobre não será olvidado para sempre’ (Sl 9.18), porque Yavé se acerca daqueles que o invocam sinceramente (Sl 145.18).
           Por isso, a atuação de Javé (Sl113.7). Deus desce até os homens que têm mais necessidade de seu socorro, aqueles que estão no estrato mais baixo, os pobres, os indigentes, e a mulher estéril. É diante de Deus, de Yavé que a verdade sobre a condição humana fica clara, desnuda, patente.
           Quanto ao v. 8 Calvino entende que "o profeta nos incita admirar sua providência em questões maravilhosas ou de ocorrência inusitada" [1]. Isto significa que o Senhor ao contrário da perspectiva humana exalta a quem lhe apráz.
           Mas podemos também fazer uma aplicação espiritual desse texto.
           Onde os homens estão? No pó da tristeza, no monturo do pecado. Mas Ele vem ao encontro de quem está em tal condição, e levanta-o. O Yavé libertador é aquele que ergue do pó o desvalido e coloca como seu servo, como participante da assembléia que o louva. 
           No v. 9 vemos que Ele concede filhos à mulher estéril. A mulher não tinha os direitos de uma pessoa livre; era sempre sujeita ao homem, ao pai ou ao marido e na falta destes ao irmão mais velho. Considerada muito mais como coisa do que como pessoa, ocupa lugar inteiramente subordinado na sociedade. Ela só goza de certa consideração como mãe dos filhos, que deu à família. (Sl 113.9). Seu valor, bem como sua honra, consiste em dar à luz filhos (Dt 25.5-10) e a esterilidade é uma maldição (Gn 29.21-30.24). Desse modo, o salmista mostra mais uma vez o Senhor como aquele que liberta a mulher estério de tal situação.
           Ele termina o salmo exatamente como começou: com a expressão "Aleluia", que significa literalmente "louvai ao Senhor", portanto ele inicia e termina conclamando a louvar  ao nosso Deus.


Conclusão

           Você tem muitas razões para louvar ao Senhor, que seu louvor esteja continuamente em seus lábios, e que sua vida seja o 'canto' de louvor ao Altíssimo.
           Que haja em cada um de nós o louvor e a gratidão presentes em Maria, que cantou um hino de louvor e gratidão ao Deus imanente que contemplou a miséria da sua serva e desceu para salvar.
A minha alma engrandece ao Senhor, e o meu espírito se alegrou em Deus meu Salvador, porque contemplou na humildade da sua serva (...) porque o Poderoso me fez grandes cousas. Santo é o seu nome (Lc 1.46,49).



[1] CALVINO, João - Salmos V. 4 - Série Comentários Bíblicos. Editora Fiel, 1ª edição, São José dos Campos, SP, 1998.

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