A RELAÇÃO DA IGREJA COM O ESTADO E A SOCIEDADE

Introdução

           Muitos pecados por parte dos cristãos individualmente e da igreja enquanto instituição, portanto, dos cristãos de um modo coletivo poderiam ser evitados se fosse dado mais atenção a este tema. Neste breve estudo tencionamos refletir sobre a correta relação da igreja com o Estado. Qual deve ser a participação política da igreja nas coisas referentes ao Estado? Até onde deve ir a influência da igreja na sociedade? Como o cristão e a igreja deve se relacionar com a política? Até onde deve ir a obediência cristã às leis? É correto ao cristão participar de manifestações populares de protestos? Muitas são as perguntas que podem ser levantadas, e que o Espírito Santo nos conduza às respostas que sejam verdadeiramente bíblicas.


I - A RELAÇÃO DA IGREJA COM O ESTADO

           Historicamente já foram testadas quatro formas diferentes de a igreja se relacionar com o Estado. O erastianismo, no qual o Estado controla a igreja; a teocracia, a igreja aqui é que controla o Estado; o constantinismo, que é um relacionamento de troca de favores, o estado favorece a igreja e ela se acomoda a fim de garantir seus favores; e a parceria, onde a igreja e o estado reconhecem ter papéis diferentes, se respeitam mutuamente e buscam ter uma colaboração construtiva, embora cada qual com suas responsabilidades que lhes são próprias. Desses modelos o que melhor se encaixa com os ensinos das Escrituras é o último. Vejamos então alguns dados escriturísticos.
           "Dêem a César o que é de César e a Deus o que é de Deus" (Mc 12.7). Jesus, com estas palavras deixa evidente que o seus discípulos encontra-se obrigado para com o estado assim como para com Deus. No contexto de Mc 12.7 dar a César o que é de César se refere ao pagamento de impostos.
        Rm 13.1-7 - Paulo aprofunda a questão afirmando que o cristão deve se submeter às leis estabelecidas, desse modo sendo submissos aos representantes do estado. Paulo está dentro de uma tradição bíblica que afirma que Yavé é soberano e dar o reino a quem quer (Dn 4.17, 25, 32), logo, por seu intermédio governa as nações (Pv 8.15s). Portanto, a relação do cristão com o Estado deve ser de obediência. E Paulo enumera três razões:
1. Não há autoridade que não venha de Deus (1b).
2. As autoridades que existem forma por ele estabelecidas (1c).
3. Consequentemente, aquele que está se colocando contra autoridade está se rebelando contra o Deus que instituiu (2a).

           Mas o que tudo isso significa de fato. Estaria Paulo afirmando que o cristão deve se conformar sem nenhum critério de julgamento a cerca da situação social? E se tais autoridades forem governos autoritários e criminosos? A resposta para isto é: nós devemos nos submeter até o exato momento em que essa submissão não implica desobediência à Deus. Vale aqui a máxima expressa pelo apóstolo Pedro: "Porém, respondendo Pedro e os apóstolos, disseram: Mais importa obedecer a Deus do que aos homens" (At 5.29). Quando se promulgam leis contrárias à lei de Deus o dever cristão é a desobediência civil. Há textos bíblicos que exemplificam esse princípio (At. 5.29; Ex 1.17; Dn 3 e 6; At 4.18s).
           Ademais, também em romanos 13 é declarado que as autoridades existem para o nosso bem, quando praticamos o bem, pois ela é ministro de Deus (v. 4 DIAKONOS). As autoridades estão portanto a serviço de Deus (v.6). Quando o estado castiga um malfeitor está sendo instrumento do Senhor para o exercício de sua ira (v.4).

           Sobre a corrupção que podemos facilmente perceber nas estruturas estatais, o teólogo Franklim Ferreira observa:
                    O realismo cristão ressalta que a corrupção na política tem origem primariamente no coração dos seres humanos. Se a doutrina da criação afirma a dignidade humana, o ensino bíblico sobre a queda afirma a corrupção humana. Os pecados individuais se tornam pecados estruturais, tais como idolatria, egoísmo, violência, despotismo, corrupção; estes acabam por afetar as estruturas do poder constituído. Por isso, a igreja cristã “prega uma conversão interior dos governantes e dos governados a Deus”, crendo que, a partir do arrependimento e quebrantamento pessoal, as estruturas serão limpas de iniquidades. Por outro lado, a revelação geral e a graça comum ensinam que “há princípios que, se aplicados, produzirão a ética na política.” Essas são as doutrinas que proporcionam a base dos valores éticos em pessoas que não são cristãs. Portanto, “o caminho para a ética na política” não passa pela conversão de todos ao cristianismo, nem consiste “em colocar em cargos políticos quem se professa cristão”, mas em “contribuir para que a lei de Deus seja reconhecida” por todos. Por isso, podemos cooperar com incrédulos como cobeligerantes na esfera política, lutando contra males aos quais também nos opomos. (Franklim Ferreira)
Fonte: Trecho do 6º Capítulo do livro “Teologia Cristã”  (Vida Nova), de Franklin Ferreira.
Extraído de: Voltemos ao Evangelho



II - A RELAÇÃO DA IGREJA COM A SOCIEDADE

           Sob este tópico queremos refletir sobre a postura da igreja, seja em sua coletividade ou a postura de indivíduos que ela constitui diante das problemáticas de nossa sociedade. Qual deve ser a reação da igreja em uma sociedade onde há uma alarmante predominância da injustiça social, a má distribuição de rendas, a violência em níveis escandalosos, o descaso dos poderes públicos nos setores de saúde, educação e segurança? Nossa atitude não deve ser de espacapismo, de alienação ao contexto no qual estamos inseridos, de indiferença ou apatia. 

1. Primeiramente é necessário vivermos nossa responsabilidade pessoal. 
           Rm 12.2 - Como cristãos somos chamados a viver modo contrário ao sistema desse mundo. Este mundo é materialista, egoísta, hedonista, consumista, esbanjador, segregador, racista, discriminatório, produtor de exclusão, destruidor do ambiente, corrupto, injusto, economicamente assimétrico e desigual, indiferente, apático, insensível, etc. Como discípulos de Cristo devemos ser altruístas, generosos, solidários, pacificadores, honestos, justos, verdadeiros etc. Nós que andamos no Espírito á medida que estamos vivendo plenamente a vida transformada pelo poder do Evangelho estaremos influenciando aqueles com quem nos relacionamos nesta sociedade ímpia.

2. Afetar positivamente as estruturas do poder instituído
           Não há como não causar influência quando vivemos e agimos de forma diferente segundo o poder transformador de Deus, em amor e graça, justiça e santidade. Desse modo nossa participação positiva deve ser de denúncia da corrupção, de nos pormos ao lado dos menos favorecidos socialmente, de fazermos com os profetas do Antigo Testamento que anunciavam as Palavra do Senhor condenando a opressão.
Portanto, visto que pisais o pobre, e dele exigis um 
tributo de trigo, edificareis casas de pedras lavradas, 
mas nelas não habitareis; vinhas desejáveis plantareis, 
mas não bebereis do seu vinho. (Am 5:11 – ARC)

           Aqui entra as questões das manifestações sociais. Deve ser pensado portanto se é lícito biblicamente ao cristão participar de atos públicos de protestos ou não. Quem escreve muito bem sobre esse assunto a partir de uma ótica bíblica reformada é o Rev. Augustus Nicodemus Lopes, vemos portanto sua posição à respeito:
                    Vejo como legítima a participação dos cristãos em manifestações públicas que sejam ordeiras e pacificas, que não sejam tumultos e que tenham em mente o bem da sociedade e não somente os privilégios dos crentes e evangélicos. Não faz sentido as igrejas se organizarem em passeatas e manifestações e marchas para reivindicar privilégios para os crentes. Estas manifestações são civis, expressões sociais e não um culto. Por exemplo, ao protestarmos contra a aprovação da lei da homofobia devemos fazê-lo essencialmente porque se trata de uma violação da Constituição que garante a todos – e não somente aos crentes – o direito de consciência e de expressão. (Texto completo em http://tempora-mores.blogspot.com.br/search?updated-max=2013-06-18T23:49:00-03:00&max-results=5)

           Dese modo, concluímos que não apenas é correto ao cristão participar de manifestações de protesto como também deveríamos nós dar o exemplo e sermos primeiros a levantar a voz contra a corrupção e demais absurdos de injustiças sociais a se perpetuar no brasil.

3. Interceder ao Senhor com uma atitude de disponibilidade para a ação.
           É possível admitir e orar para que a miséria, a corrupção, a injustiça, a violência, a guerra, o terrorismo acabem? Enquanto o pecado prevalecer é admissível esperar que os seus frutos acabem ou até diminuam?
           Devemos interceder pela nação brasileira, mas percebendo que o maior problema de todos não é meramente social e sim espiritual.enquanto intercedemos devemos agir, mas o agir aqui não transformar a igreja em uma instituição de ação social, para isto há as ONGs, a igreja deve cumprir o seu papel enquanto igreja. A tarefa da igreja é adorar a Deus e proclamar o evangelho da salvação. 



Conclusão


           À guiza de conclusão cito dois textos de protesto contra o sistema pecaminoso de opressão social, um do Antigo e outro do Novo Testamento.

          “Atendei, agora, ricos, chorai lamentando, por causa das vossas desventuras, que vos sobrevirão. As vossas riquezas estão corruptas e as vossas roupagens comidas de traça, o vosso ouro e a vossa prata foram gastos de ferrugens e a sua ferrugem há de ser por testemunho contra vós mesmos, e há de devorar, como fogo, as vossas carnes. Tesouros acumulastes nos últimos dias. Eis que o salário dos trabalhadores que ceifaram os vossos campos, e que por vós foi retido com fraude, está clamando; e os clamores dos ceifeiros penetraram até aos ouvidos do Senhor do Exércitos. Tendes vivido regaladamente sobre a terra. Tendes vivido nos prazeres. Tendes engordado os vossos corações, em dia de matança. Tendes condenado e matado o justo, sem que ele vos faça resistência.” (Tiago 5:1-6)


           “Porventura não é este o jejum que escolhi, que soltes as ligaduras da impiedade, desfaças as ataduras da servidão, deixes livres os oprimidos e despedaces todo o jugo? Porventura não é também que repartas o teu pão com o faminto, e recolhas em casa os pobres desabrigados, e se vires o nu, o cubras, e não te esqueças do teu semelhante? Então romperá a tua luz como a alva, a tua cura brotará sem detença, a tua justiça irá adiante de ti, e a glória do Senhor será a tua retaguarda; então clamarás, e o Senhor te responderá; gritarás por socorro, e ele te dirá: Eis-me aqui. Se tirares do meio de ti o jugo, o dedo que ameaça, o falar injurioso; se abrires a tua alma ao faminto, e fartares a alma aflita, então a tua luz nascerá nas trevas, e a tua escuridão será como o meio-dia.” (Isaías 58:6-10)

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