HISTÓRIA DA REFORMA (parte 4)

A REFORMA FORA DA ALEMANHA E SUÍÇA


A Reforma na França 

          Podemos citar a influência do humanismo bíblico da Itália como uma das causas para a Reforma na França. Jacques Lefévre (1455-1536) ao voltar da Itália fez a tradução do Novo Testamento à partir da Vulgata para o francês. Essa tradução não agradou muito, porém, Olivetano, que fora influenciado por Calvino terminou a sua em 1535.
          Também houve um outro fator, a influência de Lutero através dos seus escritos.
          A Reforma na França deu-se sob intensa perseguição. Para aliviar o sofrimento dos crentes Calvino escreveu e publicou sua primeira edição das Institutas em 1536, mostrando em que consistia a fé reformada para assim sugerir ao rei o fim da perseguição. Calvino desse modo, liderou não apenas os protestantes de Genebra, ma também os franceses.
          À partir de 1560 os protestantes da França ficaram conhecidos como huguenotes. Os huguenotes vieram a se tornar organizados e poderosos. O governo francês sentindo-se ameaçado passou do nível da perseguição violenta para guerra aberta. De 1562 – 1598 houve oito guerras e massacres. Desse modo a França voltou à Roma. No ano de 1572, no conhecido massacre de São Bartolomeu, por ter se iniciado no dia 23 de agosto, dia de São Bartolomeu, e se estendido ao dia 24; quase 20 mil pessoas foram chacinadas em Paris.



Nessa ocasião mataram também o famoso Almirante Coligny de forma covarde e cruel. Os católicos romanos realizaram esse massacre influenciado por Katarina de Médici, que influenciava também o rei Carlos IX.
          Através do Edito de Nantes em 1598 os huguenotes conseguiram a liberdade religiosa e foram autorizados a manterem um estado dentro do Estado francês. Porém, esse edito foi revogado em 1685, por Luis XIV. Eles então fugiram para a Inglaterra, Prússia, Holanda, África do Sul e Carolina (do Norte e do Sul) nos Estados Unidos. Desde então os protestantes são uma pequena minoria na França.


A Reforma na Escócia

          Na Reforma escocesa a política foi dominada pela religião. Os barões e a classe média urbana uniram-se a João Kinox contra a coroa para fazer a Reforma.
                                      
João Kinox (1513 – 1572) fora educado na Universidade de Glasgow, era grande admirador de Calvino, e homem extremamente corajoso. Kinox orientou o Parlamento, que se reuniu em 1560 para iniciar a Reforma. Foi posto um fim ao domínio do papa sobre a igreja escocesa, declararam ilegal a missa e revogaram todos os decretos contra os hereges. A princípio adotaram uma confissão de fé que Kinox e outros cinco homens com prenomes John elaboraram – a Confissão de Fé dos “Seis Johns”. Depois substituíram-na pela confissão de Westminster, em 1647.
          A igreja escocesa, de teologia calvinista, adotou o sistema presbiteriano de governo.
          João Kinox veio a falecer em 1572.


A Reforma nos países baixos

          A revolta dos sete países baixos, mais especificamente as sete províncias do norte contra o papa, está relacionada à revolta política contra a dominação espanhola.
          Fato importante foi a publicação do Novo Testamento em 1523 que levou o povo fazer comparação com a igreja primitiva e a Igreja Católica.
          Se antes a Reforma seguia Lutero, até 1525, os anabatistas conseguiram muitos adeptos até 1540. A partir dessa data a Holanda seguiu o caminho do calvinismo, e em 1560 a maioria era calvinista.
          A reação da dominação espanhola veio por meio da Inquisição. O rei da Espanha, Filipe II nomeou o Duque de Alva regente da Holanda. Este, em reação à insurreição protestante que saqueara 400 igrejas romanas e profanara a hóstia usada na missa, instalou um tribunal que, de 1567 a 1573 executou cerca de duas mil pessoas. Devido a isso até o final do século 40 mil emigrou para outros países, o que foi uma perca para a nação espanhola, pois muitos desses eram profissionais capacitados em diversas áreas.
          A Holanda, porém, lutou contra a Espanha pela sua independência. Essa guerra se centralizou na pessoa do seu líder Willian de Orange. Os holandeses venceram a luta pela liberdade, mas seu líder morreu no processo em 1584. Somente em 1648 a independência da República Holandesa foi reconhecida formalmente com o Tratado de Westfália.
          A igreja holandesa adotou o sistema presbiteriano de administração eclesiástica.


A Reforma inglesa
                                           
          Embora houvesse na Inglaterra todo um ambiente que favorecia e exigia uma reforma, ela na realidade foi instalada por motivos pessoais do rei Henrique VIII. Ele era casado com Katarina de Aragão, como ela não lhe deu filho homem para herdar o trono, ele quis divorciar-se dela para pode se casar com sua amante Ana Bolena. Solicitou ao papa Clemente VII a anulação do seu casamento, porém, não foi atendido, pois o papa era controlado pelo sobrinho de Catarina, o poderoso Carlos V, rei da Espanha e imperador da Alemanha. Insatisfeito com a decisão do papa ele rompe com a igreja romana e obriga o clero inglês a aceita-lo como líder da igreja da Inglaterra.
          Quando Henrique morreu assumiu o trono o seu filho como Eduardo VI, que tinha apenas nove anos. O Duque de Somersset, irmão de sua mãe, foi indicado regente. Como Sumersset simpatizava pelo protestantismo e aceitava a liberdade religiosa, ele juntamente com Eduardo VI, tomou medidas para reformar a igreja de forma religiosa, teológica, política e eclesiasticamente. Em 1547, o Parlamento permitiu aos leigos tomar o cálice da comunhão, repeliu as leis de traição e heresia e os Seis Artigos de feição católica, legalizou o casamento de sacerdotes em 1549 e acabou com as chantries, que são capelas doadas para a celebração de missas pelas almas de quem fizera a doação.


A Reforma na Dinamarca

          Neste país, a Reforma iniciou-se por iniciativa de Cristian II (1513 – 1533), favorável à fé luterana. Para levar adiante a Reforma teve apoio de Hans Tausen, a quem fez capelão real. Tausen se utilizou da publicação do Novo Testamento na língua dinamarquesa. Não houve dificuldade para o estabelecimento da Reforma, pois o povo estava cansado do clero romano e o comércio de indulgências. O golpe final contra a igreja de Roma foi dado pelo sucessor de Frederico, Cristian III, que em 1536 aboliu a religião romana e confiscou todas as propriedades católicas romanas. Desde então o luteranismo é religião oficial da Dinamarca.




A CONTRA-REFORMA E O CONCÍLIO DE TRENTO


A Contra-Reforma


          Diante da expansão protestante a igreja romana reage, e o faz de forma eficaz naquilo que pode ser denominado de Contra-Reforma. Houve atos de renovação interna da igreja romana e atos que visavam mais especificamente atacar os protestantes.
          Por 1517 foi fundado o Oratório do Amor Divino, uma organização informal de clérigos e leigos. Estavam interessados na vida espiritual, e o mais importante deles, Giovanni Pietro Carrafa (1476 – 1559) veio a ser papa, o Papa Paulo IV. Carrafa havia influenciado , quando era cardeal, o então papa Paulo III a criar a Inquisição Romana e a Índex, uma lista de livros proibidos ao católicos romanos.  Os papas seguintes tiveram atitudes reformadoras. Pio IV eliminou o nepotismo e regulamentou os poderes do       Colégio dos Cardeais. Sixto V realizou uma reforma financeira.
          Foram criadas ordens religiosas que revitalizaram a igreja romana, ordens como os capuchinhos, que tinham uma forma de vida simples e estavam sempre de pés descalços. A ordem ursulina era formada por mulheres e se dedicava a cuidar de doentes e educar meninas.
          Missionários das ordens jesuíta, franciscana e dominicana foram enviados às Américas do Sul e Central, Quebec, China, Índia, Japão, Filipinas e Indochina com resultados favoráveis à igreja de Roma.
          Pode-se dizer que a Espanha foi a nação católica campeã na obra da Contra-Reforma. Isabel de Castela e Fernando de Aragão lutaram por uma Espanha unida e leal a Roma.
          Foi na Espanha que a Inquisição se organizou em 1480 e sob a liderança de Tomás de Torquemada (1420 – 1498), executaram 10.000 pessoas acusadas de heresia. E sob a liderança do cardeal Ximenes foram 2.000 pessoas mortas.
          A Companhia de Jesus teve como fundador um espanhol, Inácio de Loyola (c. 1491 – 1556). Essa ordem treinou monges para trazer de volta à igreja romana os adeptos do protestantismo. E de fato muitos protestantes voltaram à igreja de Roma.


O Concílio de Trento

          O Concílio de Trento se iniciou do dia 13 de dezembro de 1545 e estendeu-se até 4 de dezembro de 1563. Houve três séries de sessões e um dos resultados finais foi fortalecer o poder do papa.
          A primeira série de sessões ocorreu entre 1545 a 1547, e ficou declarado que não somente a Bíblia, mas também as Escrituras canônicas e os livros apócrifos da Vulgata de Jerônimo e a tradição da igreja constituíam em autoridade final para os fiéis.  A justificação é por meio da fé e obras. Os sete sacramentos foram confirmados.
          Na segunda série de sessões, 1551 a 1552, o dogma da transubstanciação foi confirmado. A terceira série de sessões, entre 1562 a 1563 estabeleceu regras para o casamento, tratou sobre o purgatório e outros assuntos de reforma.
          Embora 225 clérigos assinassem os decretos finais, pouco mais de 75 estiveram presentes à maioria das 25 sessões.



CONCLUSÃO



          A Reforma Protestante sem dúvida foi um dos acontecimentos mais importantes da história ocidental. E nós que somos protestantes ou evangélicos não podemos jamais desprezar tal acontecimento histórico, pois a Reforma nos fala muito particularmente por ser a nossa história como povo de Deus.
          Em todo o desenrolar dos acontecimentos nas vidas de Lutero e Calvino percebemos de uma forma bastante clara como a providência divina dirigiu a história. Mesmo tendo havido seus aspectos sociais, econômicos e culturais, a Reforma Protestante foi necessariamente um movimento religioso. Evidentemente para a época tudo isso estava tão entrelaçado que não poderia haver essa divisão das coisas que nós fazemos hoje, e quando a fazemos é primariamente para que possamos ter uma melhor compreensão didática.
          A igreja da era presente deve muito aos reformadores e deveria sempre glorificar a Deus pela instrumentalidade que lhe aprouve fazer de tais homens. Hoje temos firmada a autoridade das Escrituras como única regra de fé e prática, temos o esclarecimento de que a salvação é unicamente por meio da fé na pessoa de Cristo como redentor. Temos também muitas outras contribuições em termos de teologia que nos prestaram aqueles homens magníficos. E olhando para o quadro que a igreja se encontra atualmente, se faz necessária uma tomada de consciência para retornar aos fundamentos doutrinários da Reforma.





BIBLIOGRAFIA


CAIRNS, Earle E. – O cristianismo através dos séculos: uma história da igreja cristã. 2ª ed. – São Paulo: Vida Nova, 1995.

GEORGE, Timothy – Teologia dos reformadores. São Paulo: Vida Nova, 1993.

GONZALEZ, Justo L. – A era dos sonhos frustrados. São Paulo: Vida Nova, 1995.

GONZALEZ, Justo L. A era dos reformadores. São Paulo: Vida Nova, 1995.

BERKHOF, Louis – Teologia Sistemática. 5ª ed. - Campinas: Luz Para o Caminho Publicações, 1990.

LIDÓRIO, Gedson – apostila de História do Cristianismo.

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